O que vem por aí

Até que pra quem está de férias, a Fórmula 1 tem gerado bastante notícias nos últimos dias. As últimas foram resultado da reunião da FIA na última sexta-feira que sacramentou os novos regulamentos esportivo e técnico para a próxima temporada. Na verdade, a reunião foi muito mais que isso.

Entre as mudanças para o ano que vem, a maior ‘novidade’ é que foi retirada do regulamento esportivo a cláusula que proibia o jogo de equipe. Na verdade, hipocrisia pura, pois a prática sempre existiu – com ou sem regras. As maiores novidades técnicas serão a volta do KERS e asa traseira móvel (que teoricamente só poderá ser acionada pelo piloto quando estiver em condições de ultrapassar, e o ultrapassado não poderá usá-la para se defender).

Na verdade, esta nova regra ainda será trabalhada, mas o cheiro de m… no ar é forte.

A reunião também aprovou novidades a serem adotadas em 2012 e 2013, entre elas o novo motor. Esta sim pode provocar grandes mudanças na categoria.

A partir de 2013, os motores serão 1.6 turbo de quatro cilindros. Além de reduzir custos de fabricação, ainda serão mais econômicos. O resultado disso é a provável atratividade que a categoria poderá despertar (a Volkswagen já está de olho e pode colocar a Porsche de volta às pistas).

Para que todos tenham um bom resumo e análise de tudo o que foi dito na última sexta, reproduzo abaixo o texto de Mike Vlček. Quem quiser mais detalhes, saber tudo tim tim por tim tim, pode ler os regulamentos Esportivo e Técnico de 2011. Para análises técnicas mais profundas, procure pela categoria Falando difícil do blog do Mike, o Fórmula UK.

O que muda em 2011

a) Fim do artigo 39.1, que proibia ordens de equipe
Ok, então oficialmente não temos mais nada no regulamento que proíba as ordens de equipe. Porém, a mesma FIA avisa que o famoso artigo 151c, aquele que trata de punir os que colocam o esporte em situação embaraçosa, segue de pé. O que isso quer dizer? Para mim, a mensagem é clara: quem quiser fazer jogo de equipe, terá de ser mais sutil do que a elefanta Ferrada, especialista em pisar nas cabeças e dar patadas nos torcedores. Trocando em miúdos: pode, mas tem que ser escondido. Hipocrisia pouca, claro, é bobagem.

b) Fiscais terão mais opções de punição
A partir de 2011, os fiscais presentes a cada GP poderão punir de mais formas os pilotos que se comportarem mal na pista ou cometerem algum tipo de infração. Perguntinha básica: será que os gestos de Fernando Alonso em Abu Dhabi seriam passíveis de punição ano que vem? Em caso positivo, acho uma tremenda viadagem, com o perdão da palavra.

c) Pit-lane pode ser fechado em caso de Safety-Car
O diretor de prova (leia-se Charlie Whiting) poderá fechar o pit lane se julgar necessário, por motivos de segurança, quando o Safety-Car for à pista. Acredito que a intenção da FIA é impedir que o que aconteceu no GP de Valência se repita, quando Fffééettel e Luisinho se beneficiaram, deixando Alonso e a Ferrada irados.

d) Mudanças nos pneus
A FIA diz que os “pneus intermediários serão reintroduzidos em 2011″. Confesso que fiquei meio confuso com a informação, porque para mim eles nunca deixaram de existir. Deve ser uma pura questão de semântica. A entidade também manteve a regra que obriga os pilotos a usar os dois pneus de pista seca em caso de GP se chuva. É, não foi dessa vez…

e) Caixas de câmbio mais duráveis
Até 2010, os câmbios tinham de durar quatro corridas. A partir de 2011, serão cinco. Haja coração (thanx GB)…

f) Outras coisinhas
A regra que estipula que um piloto precisa estar a menos de um segundo do que vai à frente para poder abaixar a asa traseira passará por refinamento. Ou seja, tudo pode mudar. Porém, uma coisa é certa: a asa traseira móvel vai mesmo acontecer.

A FIA também vai exigir reforço das laterais da célula de sobrevivência, na tentativa de proteger melhor as pernas dos pilotos após o sério acidente sofrido por Liuzzi no Brasil, quando uma barra de suspensão quase perfurou o pé do italiano.

Para 2012

a) Rádio liberado
Vai ser o bundalelê! A FIA garantiu que a partir de 2012 toda a comunicação feita pelos times será disponibilizada para as emissoras que transmitem a F-1. Vai ser interessante descobrir que tipo de informação será mencionada pelos comentaristas de cada emissora, e que tipo de comentário será deixado de lado em prol de transmissões ufanistas. Amigos, o confrontamento Globo x BBC nunca será tão interessante.

O melhor, porém, seria se as transmissões fossem liberadas através do site oficial da F-1 junto ao live timing, de forma que os torcedores pudessem escolher que time/piloto acompanhar. A conferir.

b) Chegada dos biocombustíveis
Ainda carece de maiores detalhes, mas aparentemente eles vão chegar antes dos novos motores turbo. A conferir.

Para 2013

a) novos motores turbo
Os futuros propulsores serão turbos de quatro cilindros e 1.600cc de capacidade volumétrica. Terão injeção direta de combustível, poderão girar até 12 mil rpm e cada piloto terá direito a cinco motores. A partir de 2014, serão apenas quatro propulsores por piloto/temporada. Nada muito diferente do que já vínhamos comentando.

A FIA espera ainda uma redução no consumo da ordem de 35% e também a ampla utilização de tecnologias de armazenamento e reaproveitamento da energia (leia-se Kers e Hers). Não sabe o que é Hers? Então dê um pulo na seção “Falando Difícil” e leia os três artigos sobre as regras que entrarão em vigor em 2013. Vale a pena.

Bem, basicamente é isso, meus bons. Estou super corrido e terei de sair já, já, mas faço uma última observação. Não gostei do fato de a FIA não ter clarificado até agora como será o funcionamento da regra da asa traseira móvel. Continuo sentindo que isso vai gerar muita confusão no princípio da temporada.

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Liberada a bandalheira

Não se assustem se, neste final de semana, nos treinos ou corrida realizada em Monza, você se deparar essa nova pintura da Ferrari. Afinal, depois do que aconteceu ontem… E olhem que eu tive que resistir muito para não cair no óbvio e colocar aqui uma foto de uma suculenta marmelada.

É claro que a foto é apenas uma montagem que já rola pela internet, após a absolvição da Ferrari pelo jogo de equipe escandaloso cometido no GP da Alemanha, no dia 25 de julho. A manobra, contra o artigo 39.1 do regulamento desportivo da fórmula 1, foi tão acintosa que os comissários aplicaram a maior penalidade possível no momento, uma multa de US$ 100 mil. Algo que, para a Ferrari, sai na urina (com o perdão da grosseria).

Mas o caso foi encaminhado ao Conselho Mundial, onde seria analisado e julgado. Pois aconteceu a absolvição por falta de provas. Acreditem, essa é a declaração do presidente da Fia, Jean Todt. Na verdade, apenas uma parte do que ele disse.

Em entrevista, disse que todos sabem e até reconhecem que houve o jogo proibido, mas não há provas suficientes apenas com as gravações de rádio e depoimentos. Afinal, não há em qualquer lugar a ordem expressa “deixe ele passar”. Resultado: absolvida por unanimidade.

Na verdade, dadas as posturas adotadas pela federação nos últimos tempos, a absolvição não foi nenhuma surpresa. Pois para os integrantes do conselho e donos de equipe, o que vale é o negócio e a empresa, os interesses corporativos. E dane-se a imagem que se tenta vender há 60 anos, de que o vale é competir, que o melhor conjunto homem-máquina vencerá etc etc etc.

E a primeira conseqüência do resultado de ontem é que a própria federação já anunciou que vai rever a regra, provavelmente liberando qualquer jogo de equipe. Podiam aproveitar, então, e acabar a festa do pódio após as corridas. Afinal, vencerá quem a equipe quiser e não quem conseguir.

Na verdade, o jogo de equipe é um dilema porque – além de sempre ter existido -, para a grande maioria de público e imprensa especializada, é aceitável em momentos de decisão por títulos, como Massa fez por Raikkonen em 2007 e o contrário aconteceu em 2008. Mas se a coisa institucionalizada… Como é que vou explicar para um garoto que está no kart, sonhando com a carreira de piloto que, na verdade, ele vai se preparar para realizar desejos de seu patrão ao invés de correr para conquistar tudo aquilo que, um dia, o levou a querer ser piloto de corridas?

Pois é, justamente aqueles que deveriam se preocupar em manter o espírito do esporte estão, aos poucos, matando algo que durante 60 anos construiu mitos e amealhou milhares e milhares de fãs ao redor do mundo. No fim, com esse tipo de atitude, quem deveria cuidar do negócio está empurrando sua galinha dos ovos de ouro para o abatedouro. Porque não é disso, definitivamente, que o público que acompanha a categoria – e no final é quem paga as contas – gosta.

Fórmula 171

Eu devia ter uns cinco ou seis anos quando ganhei um carro de fricção, preto com detalhes dourados, com duas asas. Provavelmente já sabia que aquilo era um Fórmula 1, o que não significa que entendesse o significado disso. Gostava do carro porque cruzava a sala de ponta a ponta, em alta velocidade.

Com o tempo, aquele carro ficou de lado e, acompanhando as corridas de Nélson Piquet, comecei a entender o que eram aquelas corridas e tive até a dimensão de quem foi Emerson Fittipaldi e o que era aquela Lotus.

Torci pelo Piquet. Mas me apaixonei mesmo pelas corridas. E com o tempo entendi como funcionava aquele negócio, a disputa dos pilotos e escuderias, o que era o jogo de equipe, quem eram os grandes ases e quais eram os grandes times. E com a aposentadoria de Nélson, deixei de ser um torcedor de pilotos e passei a querer assistir grandes corridas.

É claro que sempre se simpatiza com um ou outro, mas sempre olhei para os caras que ficavam atrás dos volantes sem me preocupar com o lugar onde tinham nascido. Nunca torci pelo Senna, por exemplo, apesar de apreciar seu arrojo.

Até que um dia apareceu um certo alemão que, com status de primeiro-piloto-praticamente-dono-da-ferrari, ao lado de Jean Todt e Ross Brawn, extrapolaram o conceito de jogo de equipe. O ápice foi o GP da Áustria de 2002, em que Rubens Barrichelo jogou a merda no ventilador ao quase parar seu carro a poucos metros da linha de chegada, permitindo a vitória do alemão. Foi um escândalo. E por conta disso, até novas regras foram criadas pela categoria.

2010 tem sido um ano especial na categoria. Apesar das dificuldades em se ultrapassar, pelas características de carros e pistas atuais, grandes duplas de equipes têm protagonizado disputas inesquecíveis, o caso de Vettel e Webber na Red Bull, Hamilton e Button na McLaren. E o mesmo se esperava de Alonso e Massa na Ferrari.

Até que o time italiano (Domenicalli à frente), o espanhol mimado e de caráter duvidoso, e o brasileiro fraco, sem atitude, sem hombridade, estragaram tudo.

Para mim, nos dois episódios, mais grave do que o jogo de equipe extremo foram as posturas dos dois brasileiros. Barrichelo expôs a farsa ao freiar quase na linha de chegada, mas depois se agarrou no discurso do “só um brasileirinho contra o mundo”. Massa, a despeito do que todo mundo viu e ouviu, primeiro fez cara de emburrado para depois dizer que foi uma decisão sua.

Não acho que a Fórmula 1 acabou ou vai acabar por causa disso. Assim como eu, milhões de pessoas continuam gostando das corridas. Mas episódios como o de domingo confirma a tese de que, mais do que um esporte, a F1 é um negócio. Um negócio que pode ser divertido para quem assiste.

Mas o que a Ferrari fez (de novo) pode sim espantar uma boa parcela de público, mesmo que temporariamente, que espera por disputas limpas e reais. Isso pode espantar patrocinadores que pagam as contas que garantem os carros na pista e tudo pode ficar muito mais difícil. Mas depois passa, como sempre.

E se você quer continuar ou começar a assistir corridas de F1, não esqueçam de não torcer por ninguém. Apenas apreciem o espetáculo. Porque da mesma maneira que nossa seleção não é a pátria de chuteiras, os pilotos brasileiros não são a pátria sobre rodas. Ou vão se decepcionar…