Ocre Marajó*

Eu tinha oito anos de idade e morávamos na Souza Franco, em Vila Isabel. Um apartamento quarto-e-sala, em que a sala de tamanho mais que razoável era dividida do chão ao teto por uma persiana de metal. De um lado, sala; do outro, o quarto das crianças, eu e minha irmã. Nossa vitrola era um lindo móvel de madeira com espaço para guardar os dicos. Era comum passar férias em Guarapari e, na volta, meu pai lavava o fusquinha 73 Ocre Marajó com o Chico, no posto em frente, geral com óleo de mamona por causa da maresia.

Meu pai e eu jogávamos botão numa mesa Estrelão, com bolinha de Bombril. Raul era meu goleiro e Zico, claro, meu camisa 10. E nessa época ele ganhava todas. E torcíamos para o Brasil. E nos encantávamos com o Brasil. Era a copa do Naranjito, do Pacheco, do “bota o ponta Telê” e do “voa, canarinho, voa”. E a cada gol do Brasil, meu pai vibrava em pé, em cima da cama.

Era a copa do Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Éder. Era pra ter sido a copa do Reinaldo, mas destruíram o joelho dele. Era a Copa de Platini, Tigana e Six; Schumacher, Rummenigge, Breitner e Littbarski; Dasayev e Bezsonov; Lato e Bonieck; Pfaff e Van Der Elst; a copa de estréia de Maradona. E foi a copa de Paolo Rossi.

Antognoni, Gentile, Graziani, Scirea, Tardelli, Cabrini, Altobelli, Conti, Zoff. Nenhum destes interessa, porque – pelo menos pra mim – aquela foi a copa de Paolo Rossi.

No dia 5 de julho de 1982 aconteceu a tragédia do Sarriá. Um dia em que um time capaz de fazer sonhar perdeu para um time muito bom. Um dia que é apontado por muita gente como o início da discussão ‘futebol arte X futebol de resultados’. Uma injustiça com times excelentes que foram às finais daquela copa, inclusive a Itália.

Ainda recito a escalação do ‘meu’ Brasil. Waldyr Peres; Leandro, Oscar, Luisinho e Junior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho (e o Roberto no banco…!) e Éder. Sim, o ‘meu’ Brasil. Foi com esse time que aprendi a torcer pela seleção, que aprendi a aproveitar cada jogo de cada Copa do Mundo, foi com esse time que aprendi que o melhor não ganha sempre e que essa é apenas uma das graças da coisa.

Faz 28 anos. Já não moro em Vila Isabel mas estou sempre por perto. E cada vez que desço a Souza Franco em direção à Teodoro da Silva, me lembro do fusquinha, do álbum duplo de Simon & Garfunkel no Central Park, da minha Monark, da bolinha de Bombril, do Sítio do Pica Pau Amarelo, do Maverick azul e do Puma conversível e vermelho que ocupavam vagas na garagem do prédio (o Veca está lá até hoje). E lembro do meu pai falando de um jogador italiano desesperado e com as mãos na cabeça quando empatamos em 2 a 2. E lembro daquele time e como, apesar daquela derrota tão doída, como ele é capaz – até hoje – de me ajudar a lembrar de tanta coisa boa.

*Post publicado, originalmente, no dia 5 de julho de 2010.

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Cala a boca, Galvão

Ah, aquele capacete amarelo no carro preto e dourado… Se você gosta de F1 e só consegue assistir às corridas pela emissora oficial, prepare-se para ouvir frases parecidas muitas e muitas vezes até, pelo menos, o fim deste ano. Um oferecimento de Galvão Bueno, claro.

O problema é que Bruno Senna nem é tão bom quanto foi seu tio nem ruim como tentam fazer parecer seus detratores. O lado bom é que o próprio piloto sabe e – dentro do possível – consegue esquivar-se dessas tolas comparações. E se você é daqueles que só sentido em acompanhar as corridas porque há brasileiros por quem se pode vibrar, torça muito por ele, pois é – sem dúvidas – nossa maior chance nos próximos anos.

Bruno fez uma corrida corretíssima ontem. Teve a sorte de não ser acertado pelo quiprocó da largada, foi consistente e marcou seus primeiros pontos na categoria. E por enquanto é só. Porque, vale lembrar, ficou seis meses parado e seu  ano de estréia, a bordo da Hispania, não foi bem ao volante de um F1.

Sobre a Renault, para 2012, paira a sombra de um possível retorno de Kubica. E mesmo que o polonês não volte, Bruno teria que garantir uma boa grana com seus patrocinadores (Gillete, Embratel e OGX – leia-se Eike Batista) para fazer a temporada completa.

No mais, é andar bem para mostrar que é sim excelente piloto. Na comparação Petrov, seu companheiro de equipe, ele tem boa vantagem. Sempre o bateu nas categorias em que se encontraram e, nesse ano e apesar do tempo parado, já está prestes a colocar o russo no bolso. Voltamos, então, à questão financeira.

Monza

Há duas semanas, dei loas a quem teve a brilhante idéia de voltar das fériasem Spa. Poisa despedida da Europa também é uma bela idéia. Monza é pista daquelas de verdade. E se não há curvas desafiadoras, se não tem um traçado seletivo como o autódromo belga, é pura história a toda velocidade.

E se a corrida em si não foi muito movimentada, além da excelente briga de várias voltas entre Schumacher e Hamilton, não ache que foi por acaso que os cinco primeiros lugares tenham sido conquistados pelos cinco campeões mundiaisem atividade. Porquetambém não foi por acaso que isso aconteceu pela primeira vez na história.

Bicampeão

Estamos, então, contando os dias para ver a farra oficialmente decidida, o que deve acontecer no Japão. Pode acabar em Cingapura, próxima prova? Até pode, mas é muito pouco provável. Pista de rua comum, não deve causar maiores problemas a ninguém. Então, mesmo que Vettel vença de novo, não deve abrir os tais 125 pontos de vantagem que precisa. Faltam 12.

A vitória de ontem mostrou, mais uma vez, que o alemão não é mais aquele garoto que se perde por bobagens que chegaram até a colocar em risco o título do ano passado. Perdeu a posição na largada, mas reconquistou a liderança sem sustos logo depois que o safety car saiu da frente. E não deu chances a ninguém, confirmando – também – que a Red Bull é o melhor carro em qualquer condição.

Button

Fodástico. Precisa dizer mais alguma coisa?

O que falta

Cingapura, Japão, Coréia do Sul, Índia, Abu Dhabi e Brasil. Fora Susuka e Interlagos, só corridinhas insossas. Vai ser duro acompanhar o final da temporada…

Ululante

Escrevi alguns posts usando a Líbia e outros países do Oriente Médio e norte da África como exemplos. Basicamente, no sentido geral de todas as citações, deixo a pergunta: “que direito tem os organismos multilaterais como ONU e OTAN, e seus principais membros, de meter a colher em problemas que são absolutamente internos?”

Porque o que aconteceu na Líbia, entre outros, foi isso. Um problema interno. Contra um imbecil que governava, torturava e matava seus inimigos, surgiram levantes que se transformaram em uma guerra civil de opositores tão imbecis quanto o anterior. Até que as superpotências sem dinheiro decidiram qual era o lado mais legal e largou bala.

A resposta óbvia surgiu em todos os jornais e principais portais do mundo, com uma ou outra letra ou vírgula diferente da manchete do Estadão.

Potências definem em Paris futuro da Líbia, de olho em contratos e petróleo

Tai o belo, doce e democrático mundo em que vivemos. Ah, e não achem que acabou. Porque a crise mundial continuará por muito tempo e ainda há vários ditadores sanguinários com suas bundas delicadamente sobre muitos e muitos barris.

Foto do dia: F150

É impossível para um sujeito que gosta de carros não ficar impressionado com uma Ferrari. É um mito e não é à toa. Para quem gosta de Fórmula 1 então…

A nova Ferrari, como sempre, é linda. Se vai andar, é outra conversa. A pré-temporada dá a partida na semana que vem e vamos começar a descobrir. Mas Luca di Montezemolo já deu seu recado: “neste ano temos que vencer”. Recado para a turma dos boxes e os dois motoristas.

O nome do carro é F150 em homenagem ao sesquicentenário da unificação da Itália. Homenagem que também aparece na pintura da parte de trás da asa traseira. De frente, dá pra notar um carro com menos curvas, muito mais agressivo. E que, como sabemos, vai evoluir muito durante o ano.

Tudo aberto, quem merece ser campeão?

E bastou uma corrida para que todo mundo que se mete a fazer qualquer comentário sobre Fórmula 1, de certa forma, quebrasse a cara.

Se depois da prova disputada em Spa-Francorchamps, na Bélgica, a opinião quase unânime era de que o campeonato apontava para a disputa apenas entre Webber e Hamilton, bastou uma nova corrida para o cenário mudar quase completamente.

Do GP da Itália, no último domingo, apenas três destaques de verdade. O trabalho fantástico da Ferrari ao devolver a Alonso a liderança perdida na largada, a estratégia nada usual de Vettel fazendo sua parada na última volta para terminar em quarto e o acidente da largada, que tirou Hamilton da prova. Soma-se o mau resultado de Webber, chegando apenas em sexto, e temos cinco pilotos lutando pelo título de novo.

Apenas 24 pontos separam Sebastian Vettel, o quinto colocado, do líder Mark Webber, faltando cinco provas em que a vitória vale 25 pontos. E então, alguém vai voltar arriscar, nessa altura, o que vai acontecer? Minha aposta (e torcida, vá lá) ainda é pelo australiano da Red Bull.

Curiosidade

Uma das novidades do campeonato deste ano foi o novo sistema de pontuação, que pretendia valorizar as vitórias. Quando a mudança foi anunciada, muita gente fez contas de campeonatos passados e chegou-se a dizer a novidade não faria lá muita diferença. E aí, com mais de dois terços da temporada cumprida resolvi fazer um teste. E não é que eu descobri que se o campeonato terminasse hoje, teríamos um campeão pelo sistema atual e outro pelo sistema anterior?

Se vocês clicarem na tabela abaixo, poderão vê-la ampliada. Nas faixas laranjas (ou algo assim), as pontuações de cada um pelo sistema antigo (10-8-6-5…); nas brancas, as contas atuais (25-18-15-12…). De uma maneira, a anterior, Lewis Hamilton seria o líder com um ponto de vantagem (75 a 74) sobre Webber; de outra, sabemos que a vantagem do australiano sobre o inglês é de cinco pontos. Os outros três que estão na briga ocupariam as mesmas posições, com o detalhe que de um jeito Alonso venceria Button nos critérios do desempate contra os 11 pontos de diferença da conta real.

E se a intenção da FIA era valorizar a vitória, Webber venceu quatro vezes contra três vitórias de Hamilton.

E outra curiosidade dessa tabela insana é que os quadros verdes marcam quando o líder após cada corrida seria o mesmo, independente do sistema. Por exclusão, os azuis mostram a possibilidade de líderes diferentes. É claro que se, daqui pra frente, um dos pilotos emplacarem duas ou três vitórias, o resultado em qualquer dos sistemas tende a ser o mesmo. Mas achei bom ver a possibilidade.

Eu sempre achei que a regularidade deveria ser um dos pontos fortes de um campeão de F1 ou qualquer outra categoria, mas saber que já houve um campeão, Keke Rosberg, que venceu apenas uma corrida no ano me incomodava. Então, parece que a solução encontrada foi boa mesmo. Confiramos no final do ano.

O meu calendário

Virou notícia entre hoje e ontem a apresentação do traçado do novo autódromo de Austin, que receberá a F1 a partir de 2012. Mais uma obra de Herman Tilke, o sujeito que desenhou todos os últimos circuitos homologados pela FIA para as principais categorias do mundo nos últimos anos. E como quem acompanha sabe, um monte de pistas sem personalidade, sem gosto.

Dessa vez, no entanto, ele saiu do padrão reta-cotovelo-retinha-muitas curvas de baixa-reta. Pelo contrário, ao invés de tentar desenhar algo novo, fez bom uso do relevo do terreno e ainda usou referências de outras pistas que deram certo, como Silverstone, Hockenheim e Istambul. De quebra, uma reta de 1,2km. Resumindo, cheiro bom. Tomara que se confirme.

Inspirado pelo novo desenho e pela passagem da F1 por Spa, resolvi olhar os autódromos que estão por aí, levando em conta a máxima de que “pista boa, corrida boa”.

Ao longo dos anos, especialmente nos últimos 20 anos, algumas circunstâncias provocaram mudanças significativas no calendário, excluindo corridas clássicas e incluindo novos circuitos em locais nada afeitos ao automobilismo. Entre eles, a segurança, especialmente após a morte de Senna. Mas o dado mais importante, a grana.

Graças a isso e mais alguma coisa, um campeonato que era praticamente todo disputado na Europa, com viagens a América do Norte (Canadá, EUA e México), América do Sul (Brasil e Argentina), Japão, Austrália e África do Sul (apesar do apartheid), hoje passa pelo Oriente Médio (Bahrain e Abu Dhabi) e passeia pela Ásia (China, Malásia, Cingapura e Coréia do Sul, além do Japão), em locais em que é comum ver arquibancadas vazias. Afinal, países que não tem qualquer tradição automobilística. E a Índia ainda vem aí.

Enquanto isso, pistas como Hockenheim foram mutiladas e países tradicionais como França e Portugal não recebem mais a Fórmula 1.

Tentei, então, separar que pistas ainda valem realmente a pena, no calendário deste ano, e cheguei a cinco circuitos que, quase sempre, nos dão boas corridas de presente: Interlagos (Brasil), Montreal (Canadá), Spa (Bélgica) e Suzuka (Japão). Mas aí, como um campeonato não seria bom se disputado em looping em apenas quatro lugares, separei mais cinco que – pela tradição, por boas provas mesmo num circuito bobo ou por uma boa idéia, como sua famosa curva 8 – poderiam fazer parte do calendário: Istambul (Turquia), Melbourne (Austrália), Mônaco (Monte Carlo), Monza (Itália) e Silverstone (Inglaterra).

Como em 2011 o campeonato promete ter 20 provas (a Índia vem aí…), fui procurar mais 11 circuitos que, ao meu gosto, poderiam nos divertir ao longo do ano. Sem saudosismos inúteis, tentei separar entre os autódromos que poderiam ser usados imediatamente, com poucas adaptações, afinal a ordem é gastar pouco.

Meu campeonato, então, ficaria assim: Kyalami (África do Sul), Buenos Aires (Argentina), Interlagos (Brasil), Hermanos Rodrigues (México), Watkins Glen (EUA), Montreal (Canadá), Silverstone (Inglaterra), Estoril (Portugal), Jerez (Espanha), Mônaco (Monte Carlo), Ímola (San Marino), Nurburgring (Europa), Melbourne (Austrália), Suzuka (Japão), Paul Ricard (França), Zandvoort (Holanda), Istambul (Turquia), Spa (Bélgica), Hockenheim, o antigo (Alemanha) e Monza (Itália).

E aí, alguém tem alguma outra idéia?

Jogos 43 e 44: para tudo há limites

O número de cada jogo da Copa do Mundo não segue a lógica do momento em que acontece. Por conta disso, me enrolei com a programação. Porque, no grupo F, os jogos 43 e 44 acontecem antes das partidas 41 e 42, do grupo G. Como as partidas já começaram, não vou me alongar. Apenas acredito que até para zebras há limites, seguem meus palpites enquanto tudo está 0 a 0.