Hora da escola (4)

Foto: Gustavo SirelliQuem tem o hábito de visitar o cafofo, já sabe que sou desses que bate palmas pra escola das filhas, que abraçam a proposta e defendem os caminhos adotados. Mas nem tudo são flores, claro. Por exemplo, já houve discussão sobre a doação de livros para determinada organização, ação social embolada e embalada por proselitismo político.

Outra discordância sempre aparece nessa época do ano, final do primeiro semestre, hora de acender a fogueira das festas juninas. Ou, na visão pretensamente progressista e politicamente correta da escola, uma asséptica festa no campo.

Aqui, abro parênteses que se mostrarão úteis mais à frente. Ontem à noite, na abertura do programa Saia Justa do GNT (não sei se era reprise ou episódio do dia), o professor Sérgio Cortela disse duas coisas óbvias: “o estado brasileiro é laico mas não é ateu” (basta ler nossa constituição pra descobrir isso) e “ter religiosidade não é a mesma coisa que ter religião”. É o ululante, sei disso, mas quando dito por um catedrático como Cortela, ganha peso e (talvez) seja mais levado a sério. Sigamos pois.

2014 é o nosso terceiro ano na escola, e no primeiro ainda dei-me ao trabalho de levantar algumas bolas com a professora da Helena de então, a Camila. Depois desisti, sinceramente deu preguiça. E talvez tenha errado nisso, deveria ter insistido. Ora bolas, por que festa do campo e não festa junina? Por que não vestir as crianças como os matutos tradicionalmente representados em qualquer festa junina?

 Sacro

Foto: Gustavo SirelliO que é sagrado para você? Pra mim, um monte de coisas. Em termos de religião, sou católico apostólico baiano. Mas não é isso que vem ao caso. As festas juninas, sem esse nome, são bem anteriores à era cristã. Têm relação direta com o solstício de verão, na Europa, e a relação das sociedades de então com a terra e seus deuses. Era nessa época do ano, ali entre o que seriam os dias 22 e 25 de junho do nosso calendário juliano, que eram feitas oferendas e pedidos em busca de uma boa colheita.

Se não pode derrota-los, junte-se a eles. Foi assim que a Igreja Católica, sem conseguir frear a tradição, criou as datas em homenagem aos santos. Isso foi pelo século X. Daí que além da referência óbvia ao mês de junho, o termo junino também seja apontado por estudiosos como uma corruptela de joanino, posto que 24 de junho é dia de São João.

Curiosamente, ao chegarem por aqui, os portugueses – católicos fervorosos – encontraram entre os índios, celebrações realizadas na mesma época (por aqui, o solstício de inverno) e pelas mesmas razões: agradecimento aos deuses pelo sucesso obtido e oferendas e pedidos por uma nova boa colheita. E é por isso que, nas festas juninas brasileiras, pela convivência de costumes entre nativos e europeus, as comidas típicas das nossas festas tenham tanto milho.

Foto: Gustavo SirelliPara cada detalhe, é encontra-se uma explicação, todas elas ligadas às origens das festas. É assim com os balões (usados para avisar a comunidade do início das festas), as fogueiras (tradição pagã, para iluminar os caminhos dos deuses, e católica, pela lenda de que uma fogueira seria o modo de comunicação entre Maria e Isabel), o casamento (referência clara a Santo Antônio) e a pescaria (brincadeira em homenagem a São Pedro).

Sinceramente, não sei como a escola trata desses assuntos com os alunos do ensino fundamental em diante (ainda estou na educação infantil a acredito que tudo isso ainda está fora do espectro de compreensão dos pequenos). Mas seria absurdo negar a relação sagrada dos povos com a terra, tanto na Europa medieval e anterior, quanto entre os índios brasileiros. Também seria absurdo negar a relação sagrada (nesse caso, de origem católica) dos fiéis celebrando seus santos. Porque tudo isso é sagrado e – antes de religião – é história da formação do nosso povo.

O matuto

Foto: Gustavo SirelliQuando era criança, lá estava eu de calça jeans puída com remendos coloridos, camisa xadrez, chapéu de palha e um dente “faltando”. As meninas, de vestido de chita quase sempre floridos, maria-chiquinha e outros detalhes. E foi aqui que me peguei com a escola e sua festa do campo. Há um discurso que isso é uma visão deturpada do homem do campo, que não deve ser disseminada.

Oi? Ou não sabem história ou estão com preguiça de contextualizar o mundo para as crianças ou são mais realistas que o rei. Mais ou menos como tentar mudar a letra de “atirei o pau no gato”. Basicamente, se esse for o caso, tristemente reconheço uma visão boçal.

Pra começo de conversa, no início não eram todos que iam fantasiados às festas. Apenas aqueles que dançariam a quadrilha e tinham lá seus personagens: padre, noivo, noiva, pais do noivo, pais da noiva, madrinhas, padrinhos, delegado e sacristão. Esse é o significado geral do negócio que, apesar das regionalidades, se mantém.

Não sei vocês, mas já vivi algumas (muitas) festas juninas na roça. E eles adoram as quadrilhas e as fantasias, a carnavalização de si próprios, que sempre foi celebração e crítica simultâneas. Uma vez que “isolados” dos recursos das grandes cidades, não conseguem comprar roupas novas para as festas (por isso os remendos e calças pescando siri, e as camisas xadrez feitas com o tecido barato disponível) nem tem acesso a alguns serviços básicos, como saúde (e por isso um ou outro dente pintado de preto, como se não existisse).

Foto: Gustavo SirelliA evolução desse cenário foi uma espécie de glamourização dos figurinos, como se Joãozinho Trinta assumisse a produção, também com coreografias a cada ano mais elaboradas, para os grandes concursos de quadrilha.

Tudo isso pode parecer uma grande bobagem, “são só festas juninas”. Não acho, especialmente nesses nossos tempos pós-modernos, em que as crescentes cidades do interior e a expansão do agronegócio aproximam cada vez mais as experiências de quem vive no campo e na cidade. Porque fechar os olhos a essas tradições, tentar negar que isso existe e tem um significado muito forte, é fechar os olhos para a formação do povo brasileiro. É um jeito progressita-intelectualóide, em que se tentar igualar tudo e todos para não ferir suscetibilidades, quando na verdade deveríamos estar preocupado em resguardar tradições, nos esforçando para explica-las e, assim, usar o passado para entender nosso presente e pensar o bendito futuro.

Anúncios

Ao piano

Nina Simone / Arte: Ananda NahuTenho uma amiga que diz que é impossível namorar alguém que não conheça algumas coisas básicas. Uma delas, Nina Simone – sua voz e sua música. Lembrei disso porque comecei o dia ouvindo a moça. Bendito Grooveshark que nos permite trabalhar com bom repertório nos fones de ouvido.

A cantora e pianista viveu exatamente 70 anos e dois meses. E Durante 50 deles, Nina foi a identidade de Eunice Kathleen Waymon.

Sexta criança de oito filhos de uma empregada doméstica e um mestre de obras, aprendeu a tocar piano ao lado das irmãs na igreja metodista liderada pelos pais. E por causa deles, aos 20 anos, adotou o nome artístico para tocar blues, a música do diabo, em cabarés e pequenos pubs no circuito Nova Iorque, Filadélfia e Atlantic City. E começou a cantar por acaso, para manter o emprego. De quebra, se tornou uma baita compositora.

Negra, foi impedida de ingressar em um conservatório na Filadélfia. E com a proibição, não realizou o sonho de ser uma grande concertista. E abraçou a luta contra o racismo e foi perseguida por isso. Chegou a cantar no enterro de Martin Luther King e algumas de suas canções sobre o tema – como Mississipi Goddamn, sobre o assassinato de quatro crianças negras – tornaram-se clássicos hinos ativistas.

Nina Simone / Ilustração: Chicho LorenzoA parte de sua vida tocando para platéias díspares e, muitas vezes, desinteressadas, se reflete no repertório de estilos variados. Também nunca aceitou o rótulo de musa do jazz, dizendo que “É o título que todo branco concede, piedosamente, aos cantores negros”. Do balaio de gatos foi sua formação na igreja e em bares e suas posturas políticas, saíram seus 19 discos (LPs) de estúdio e 14 ao vivo. Neles, é possível passear pelo gospel, soul, blues, folk, funk e jazz.

Nina também passou pelo Brasil e em 1990 gravou Pronta pra cantar (Ready to sing) e Tomara (God grant) com Maria Bethânia, faixas do álbum Canto do Pajé.

Se você ainda não conhece a moça, uma boa maneira de entrar em contato com o universo de Nina Simone é ouvir o álbum Anthology e suas 31 canções que passam por todos os estilos que ela experimentou.

Habemus Chico!

Papa Francisco / Foto: Gregorio Borgia/APO que mais me impressionou nesse conclave foi o climão de copa do mundo que a cobertura da imprensa brasileira deu à coisa. Depois da fumaça branca, cheguei a imaginar que no momento em que Dom Odílio aparecesse na sacada, ouviríamos a vinheta: Brasil-il-il!!! Logo depois, a nova versão para marcha famosa: “o Trono de Pedro é nosso, com o brasileiro não há quem possa”… Gostaria muito de saber se no resto do mundo também foi assim.

Ficou um certo ar de surpresa com a rapidez da eleição, apenas um dia e meio, uma das mais rápidas da história. Mas pensando bem, como lembrou a dona da minha vida, faz um mês que o Bento anunciou a renúncia e aconteceram trocentas reuniões antes do conclave começar. Então não tinha muito porque demorar mesmo. Mesmo assim, reza a lenda que o novo papa só não foi anunciado logo na primeira votação por culpa do próprio Odílio.

Informações fidedignas contam que o cardeal gaúcho recebeu os votos necessários logo de primeira. Aí, veio o ritual. Aceita? Aceito. Qual será seu nome? Lula II. Por motivos óbvios, fumaça preta…

Piadas quase ruins a parte, a escolha do argentino tem muito mais a ver com o desejo de renovação expressado por Bento do que com origem geográfica do novo ungido. A chave da questão, me parece, é que ele é um jesuíta.

A Companhia de Jesus (e seus membros) é missionária, catequista, educadora, adepta da simplicidade e absolutamente ciosa da doutrina. Tudo ao contrário do que, nos últimos anos, se tornou a cúpula da igreja, envolvida em escândalos sexuais, financeiros e políticos. Mais mundano, pois, impossível.

Se serve de consolo para a turma da rivalidade, o certo é Bergoglio – doravante, Chico –, com o trabalho que terá que fazer, entrou pelo cano. Pensando no que aconteceu com João Paulo I (e até hoje não foi explicado), chego a ter dúvidas se vai conseguir dormir tranquilo daqui pra frente. Que Deus o abençoe.

Cooooorre!!!

Enviado pelo amigo Rial, vulgarmente conhecido por José Carlos Roque, com comentário ferino: “a vida inteira ouvi esse ditado e só agora entendi”.

Eu não vim do macaco

homem e macacoHá algumas semanas, não lembro em que circunstância, quase provoquei meu divórcio – por motivos óbvios – quando disse que ainda tinha lá minhas dúvidas sobre a teoria de Darwin, sua “Origem das Espécies”. Afinal de contas, não vou admitir que meu tatara-tatara-tatara-tatara-avô é um macaco, ou na primeira briga mais animada, é de troglodita pra baixo.

Além disso, existe toda essa nossa relação muito estranha com Deus. Estranhamente simples na verdade, posto que cada um se relaciona com ele de uma maneira, como cada um de nós se relaciona com qualquer pessoa de uma maneira. Sempre única. E, afinal, não fomos feitos à sua imagem e semelhança?

Eis que, quando não queria mais me dar ao trabalho de pensar sobre o assunto, encontrei o texto abaixo. Divirtam-se imaginando que – se todos que ele cita estão certos – sua árvore genealógica é muito maior do que você imagina.

Por onde anda Deus?

Porque as explicações científicas fascinam, mas testam nossa capacidade de aceitação?

A resposta é simples: uma explicação científica para um fenômeno qualquer acaba com toda a ilusão da crença e da tradição.

Giordano Bruno, Galileo e Darwin que o digam. O primeiro foi queimado vivo, alegadamente por prática de bruxaria, mas, na verdade, o que botava medo na Igreja eram suas teorias sobre um universo infinito e um princípio de heliocentrismo. Galileo, como todos sabem, entrou para a história por um consolo menos corajoso que Bruno: “…per se muove”. Para finalizar, Darwin matou Adão, Eva, Caim, Abel (este, mais uma vez, apenas) e toda a família com a sua “Origem das Espécies” e, coitado, foi excomungado.

Recentemente, Watson e Crick apresentaram o modelo do DNA e tornaram totalmente sem graça qualquer tentativa de refugar Darwin. E, atualmente, Richard Dawkins tem sido, não só um evolucionista capaz de calar os argumentos de místicos e religiosos de forma contundente demais para que estes não tornem a questão como pessoal, como um belo incorporador da genética na teoria de Darwin e colocar as espécies num segundo plano, pois, segundo ele, o que manda mesmo neste mundo são os códigos genéticos. Todo corpo, para Dawkins, inclusive o meu e o seu, é um hospedeiro, uma forma adaptativa que faz os genes sobreviverem. Faz sentido, já que os indivíduos morrem e os genes atravessam gerações. Mas que tornou a vida extremamente desinteressante, se analisada unicamente sob este prisma, ahhh… isso ele conseguiu.

Não é muito difícil olhar para seu corpo e aceitar que ele está sendo somente um veículo para os genes, aquele montulho de DNA, crescerem, sobreviverem e se multiplicarem?

Outra teoria que deixou muita gente triste foi de um astrônomo e biólogo, cujo nome agora me foge completamente à lembrança, que afirmou que as chances de se encontrar um outro planeta com as condições de abrigar vida como na Terra é muito remota. Muito mais remota que o previsto por Carl Sagan, que apresentou um modelinho probabilístco interessante, levando em consideração o fator tempo para defender a existência de alguma outra civilização no Universo. Este outro cidadão elencou uma série de outros fatores, desde a concentração de alguns gases na Terra que possibilitaram o surgimento de vida, até o formato do escudo protetor que o cinturão de asteróides que envolve Mercúrio, Vênus, Terra e Marte, somente, exerce para evitar choques constantes e desagradáveis de outros corpos celestes com o Sol e os sortudos quatro planetas mencionados. Tudo isso para dizer que a vida na Terra é uma possibilidade tão remota quanto ganhar duas vezes na Mega-Sena em duas semanas consecutivas, sozinho.

Não liquida totalmente com o charme de acreditarmos em seres de outros planetas?

Pois é, colegas humanos, estamos sozinhos no Universo, abandonados a uma série de regras da Física e da Química, que vem nos protegendo há alguns milhares de anos, e ainda por cima, não passamos de invólucros de substâncias químicas replicantes.

Ciência é chata, mas crença é complicada. Por exemplo, no caso da evolução das espécies conjugada com a “exclusividade” que temos de fazer parte de uma civilização única no Universo, a ciência me trouxe quietude em relação a uma questão complicada: se Deus existe, porque criaria, ou na pior das hipóteses, seria um bom administrador da evolução dos homens, e, ainda por cima, trabalharia exclusivamente para nós, homens?

Porque Deus se importaria tanto conosco se tem tanta coisa para cuidar num Universo infinito?

Muito agnóstico? Muito ateu? Muito reducionista?

Sem dúvida. É ótimo conhecer pensadores científicos. Mas não é difícílimo apenas ler a frase abaixo?

Deus não existe.

É mais confortável acreditar que Ele existe.

Já o que anda fazendo com o enorme Poder a Ele atribuído, isso sim, é difícil de entender e até de acreditar. Mas os tempos pedem que demos um crédito a Ele.

Só que seria muito bem-vindo um sinal claro de que Ele anda preocupado com o bicho-homem.

Luis Octavio Bernardes
With a little help from my friends