Fim de papo

Já faz uma semana que acabou a bagaça e que o Flamengo conquistou o hexa. A ressaca está quase curada…

O campeonato foi, sem dúvida, o melhor dos últimos muitos anos. De toda a série de pontos corridos, certamente. Infelizmente, o equilíbrio que fez um campeão com menor aproveitamento da história e com a menor diferença de pontos para a turma que foi rebaixada. Isso é bom? Em tese.

A verdade é que, a cada ano, o nível técnico de nossos times é cada vez menor. Ou não teríamos um gordo, um farrista e um coroa de 37 anos entre os melhores do Brasil.

Apesar de muito inchado, nosso calendário está estabilizado já há algum tempo, o que deveria facilitar o planejamento dos clubes – equacionando dívidas, fortalecendo as divisões de base etc. – e a atração de novos investidores. Mas parece que nossos dirigentes não estão muito aí pra isso, o que não é de causar surpresa.

Independente disso, e apesar do que meu primo atleticano, recalcado e invejoso, disse, a conquista rubro-negra não foi uma cagada. Afinal, o Flamengo foi o que teve o melhor aproveitamento nos confrontos diretos entre os oito primeiros do campeonato. Assim como é fato que, principalmente, Palmeiras e São Paulo fizeram muita força para perder o campeonato. E perderam.

Pra encerrar minha participação no Brasileirão 2009, resolvi dar uns pitacos – o post ficou comprido demais, eu sei –  sobre todos os clubes que participaram dessa edição e sobre os quatro que vão subir. Apenas pequenas opiniões sobre alguns detalhes.

Série B

– Vasco: fez o que tinha que fazer, mas o time precisa melhorar muito para não correr risco de voltar;

– Guarani: quase foi grande um dia, até que virou io-iô. Será um dos enigmas de 2010;

– Ceará: se não voltar para a segundona, correrá riscos até o fim. É a sina dos clubes nordestinos, sem poder econômico para formar um grande time;

– Atlético-GO: absolutamente imprevisível. Time de empresários, como o Barueri. Pode surpreender e pode não fazer nem cócegas.

Série A

20º: Sport (31pts / 7V / 10E / 21D / 27%)

Se foi rebaixado na última posição, não se pode falar em injustiça. O time é horroroso e, para completar, sua queda é uma benção para todos os clubes, pois não precisarão jogar naquela campo de roça da Ilha do Retiro.

Como a campanha do clube foi um fiasco, seu presidente resolveu tapar o sol com a peneira e tirar o foco de suas mazelas tentando criar um onda sobre o título do Flamengo. Disse que processaria todos que apontassem que o Flamengo é hexacampeão.

A discussão provocada pelo presidente do clube pernambucano só serve pra criar mais confusão, acirrar ânimos etc., em função de algo que não tem qualquer justificativa lógica: o Sport ter sido proclamado campeão brasileiro de 1987 quando não foi, sequer, campeão da segunda-divisão. A história completa do que aconteceu está aqui.

19º: Náutico (38pts / 10V / 8E / 20D / 33%)

Não há o que dizer sobre Timbu, além de destacar o Carlinhos Bala (que não acredito ser capaz de ser destaque em um time grande de verdade) e o alívio de todos os clubes por não ter que jogar no gramado ridículo dos Aflitos, mesmo caso do Sport. Não por acaso, junto com o eterno rival, levaram Pernambuco embora da primeira divisão.

18º: Santo André (41pts / 11V / 8E / 19D / 35%)

A única coisa relevante em sua história é a conquista da Copa do Brasil sobre o Flamengo. Apesar do vexame rubro-negro, não é estranho nas copas nacionais que juntam times de todas as divisões, a conquista por clubes nanicos. Não se tornam relevantes por isso e esse é o caso. Deus sabe como chegou à Série A, mas o importante é que já foi embora.

17º: Coritiba (45pts / 12V / 9E / 17D / 39%)

Um exemplo clássico de um time pequeno que se acha grande. Talvez seja grande no Paraná, estado que – verdade seja dita – não tem qualquer relevância para o futebol nacional. Se acha grande porque ganhou um brasileiro no longínquo 1985, algo tão estranho quanto ter o Bangu como adversário na final. Foi tão insólito que o Maracanã ficou absolutamente lotado por torcedores de todos os clubes do Rio, em prol de um clube que tinha, sim, um grande time bancado por um bicheiro. Enfim, como último ato de sua participação no certame de 2009, sua torcida fez o favor de confirmar o quanto o clube, o time e ela própria são pequenos.

P.S.: Alguém reparou a grande escolha que fez o Marcelinho Paraíba, trocando o Flamengo pelo Coxa?

16º: Fluminense (46pts / 11V / 13E / 14D / 40%)

É verdade que, com a épica arrancada, não merecia mesmo cair. Mas é bom não esquecer a dívida que o Fluminense tem com o futebol brasileiro, pois disputou a terceira divisão e, com a criação da Taça João Havelange, pulou direto para a primeira. Também é fácil compreender a comemoração, mas é bom colocar o pé no chão e entender que, se muita coisa não mudar, o ano que vem será igual ou pior.

15º: Botafogo (47pts / 11V / 14E / 13D / 41%)

Depois de voltar à primeira divisão, vinha evoluindo, mas… Só não dá pra entender porque estão comemorando tanto. É bom que abram bem os olhos, não ganharam nada. Só não caíram de novo. Para o futuro, a receita é a mesma do Fluminense: mudar muita coisa, se organizar, planejar etc.

14º: Atlético Paranaense (48pts / 13V / 9E / 16D / 42%)

Não fede nem cheira. Chamado de furacão, na verdade não passa de uma brisa. Mesmo assim, só quando jogaem casa. Comoseu rival alvi-verde, só é grande localmente. Também já ganhou um brasileiro (a história da humanidade tem mesmo mistérios insondáveis), mas o conjunto da obra não é nada relevante na história. Como sua campanha em 2009. Pelo menos, não caiu.

13º: Vitória (48pts / 13V / 9E / 16D / 42%)

Apesar de muita gente achar que aquele canto do mundo é uma dimensão paralela, a Bahia é um estado do nordeste. Quando lembramos onde está seu arqui-rival, então, só o fato de estar na série A já é uma vitória (com trocadilho). Seu único mérito no campeonato foi ter o saldo de gols melhor que o Atlético Paranaense:-6 a-7. Graças a isso, se classificou para Copa Sulamericana.

12º: Santos (49pts / 12V / 13E / 13D / 42%)

Quando falo que os paulistas, em geral, são um povo bem estranho, meus amigos que moram do lado de lá da Dutra reclamam. Mas que outro povo seria capaz de chamar seu clube de Peixe e adotar uma baleia como mascote. Será que eles faltaram a aula de biologia no primário? Enfim, esse enorme nariz de cera reflete bem o que foi o Santos nesse campeonato: quase nada a declarar. A campanha medíocre serviu para duas coisas: se livraram do presidente (apesar do tumulto euriquiano nas eleições) e de Wanderley Luxemburgo.

11º Barueri (49pts / 12V / 13E / 13D / 42%)

Baruequem??? Pois é, uma distorção provocada pelo poder da grana que ergue e destrói coisas belas, como diria um baiano. O time do interior de São Paulo, criado por empresários apenas para dar lucro, até que fez campanha razoável. E só. Ficou à frente do Santos graças ao saldo de gols. Foi o clube com a menor média de público do campeonato e, no primeiro turno, o “clássico” contra o Santo André,em Santo André, foi assistido por 847 testemunhas.

10º Corinthians (52pts / 14V / 10E / 14D / 45%)

2009 foi o ano da volta, depois da passagem pela segundona. A base do time campeão da Série B foi mantida e chegaram alguns reforços, o gordo entre eles. Ganharam o paulistinha e a Copa do Brasil. Aí, com a vaga para a Libertadores garantida e a saída de alguns jogadores no meio do ano, não houve Mano Menezes que conseguisse reorganizar o escrete e, pior, manter os jogadores interessados em um campeonato que não conseguiriam conquistar. Resumindo: passou pelo Brasileirão a passeio.

9º Goiás (55pts / 15V / 10E / 13D / 48%)

Um dos cavalos paraguaios de 2009. Com uma base razoável, fez algumas contratações interessantes, como Fernandão, e até pareceu que cumpriria a eterna promessa de ficar entre os grandes. Alguns excelentes resultados e, de repente, lá estava o time do cerrado no G4. Não durou muito. Fraquejou pelo meio do segundo turno e abandonou a disputa pelos primeiros lugares. No final, acabou como fiel da balança. Empatou com o Flamengo no Maracanã e parecia ter sepultado o sonho do hexa. Na semana seguinte, quando ninguém esperava, sapecou4 a2 no então líder São Paulo, deixando a disputa do título praticamente limitada a Flamengo e Inter.

8º Grêmio (55pts / 15V / 10E / 13D / 48%)

Um time de extremos. Terminou o Brasileirão invicto em casa, mas só ganhou um jogo como visitante. Por fim, classificado para a sulamericana, uma copinha que todo mundo comemora quando faz campanha pífia no brasileiro, mas que todo mundo reclama na hora de jogar. Acabou chamando a atenção pela confusão ‘entrega X não entrega’ o jogo contra o Flamengo, na última rodada. Tudo isso porque o rival colorado precisava de, ao menos, um empate no Maracanã para que superasse o time da Gávea. A torcida do Grêmio, então, começou a campanha do entrega. No final, nada demais aconteceu. Apesar de um mistão, os gaúchos deram um belo susto do Flamengo, fazendo um a zero. Mas não aguentaram a pressão e todo mundo sabe o que aconteceu.

7º Atlético Mineiro (56pts / 16V / 8E / 14D / 49%)

O pai de todos os cavalos paraguaios. Depois da glória de conquistar o primeiro brasileiro em 1971, tudo o que o Galo conseguiu foram três vices. Neste ano, prometeu, prometeu, prometeu… Liderou o certame e fez até um dos seus artilheiros, mas – como de hábito – não conseguiu nada. Nem a vaga na Libertadores.

6º Avaí (57pts / 15V / 12E / 11D / 50%)

Tai uma surpresa agradável. Deus sabe se continuará assim em 2010, mas muita gente duvidava que o time catarinense faria algo além de brigar para não cair. No final, uma campanha mais do que digna sob o comando de Silas, que se mandou para o Grêmio. Os destaques do time, além do técnico, são curiosos: o atacante Muriqui foi quem mais apanhou durante o ano, enquanto seu companheiro Ferdinando, volante, foi o segundo que mais bateu.

5º Palmeiras (62pts / 17V / 11E / 10D / 54%)

O grande campeão do Grande Prêmio de Assunção. Liderou metade do campeonato, teve cinco pontos de vantagem por várias rodadas, disputou o título até o último jogo e, no final, nem se classificou para a Libertadores. Parabéns ao presidente Beluzzo por suas declarações fabulosas, parabéns ao Muricy pela autosuficiência transbordante, parabéns ao time que não agüentou a pressão. Resumindo, um puro-sangue paraguaio.

4º Cruzeiro (62pts / 18V / 8E / 12D / 54%)

Um daqueles clubes que sempre começam o campeonato dando pinta de favorito. Claro, segundo todos os especialistas de jornais, rádios e tevês. O time realmente não é ruim (para o nosso nível, claro) mas oscilou muito durante o ano. E até craque freqüentando festa de torcida organizada de adversário aconteceu. Apesar de uma miniarrancada nos últimos jogos, chegou à última rodada dependendo de combinação de resultados para chegar à (pré)libertadores. E o porco paraguaio entregou a vaga de mão beijada.

3º São Paulo (65pts / 18V / 11E / 9D / 57%)

Deitou sobre a fama de time eficiente, que mesmo jogando mal, faz ao menos um gol e não leva nenhum. Enfim, um modo medíocre de pensar o futebol. Entre os times da ponta, foi o que menos ganhou pontos dos outros líderes enquanto perdia poucos pontos para os pequenos. O problema é que neste ano, com o campeonato nivelado (por baixo), não foi tão efetivo mesmo contra os pequenos. Além disso, um elenco extremamente limitado, com atletas (paulista adora chamar jogador de futebol de atleta) que jogam como robôs. Como Ricardo Gomes não é tão bom quanto Muricy, o time não teve força para chegar ao título que esteve em suas mãos. Só valeu porque se classificou para sua trocentésima Libertadores consecutiva.

2º Internacional (65pts / 19V / 8E / 11D / 57%)

Já há algum tempo é apontado como um dos favoritos todos os anos. Mas como é que um time que, hoje em dia, pode ser descrito como a versão gaúcha da fusão entre Vasco e Botafogo pode ser campeão? E ainda por cima com Mario Sérgio Pontes de Paiva como técnico.

Comparei a Vasco e Botafogo porque, com o resultado deste ano, o Inter conseguiu a expressiva marca de ser penta-vice. Além disso, desde que o inter perdeu o título para o Corinthians, no campeonato da máfia do apito, só faz chorar. Neste ano, seu vice de futebol chegou a divulgar um DVD com os pseudo-erros cometidos por árbitros contra o time do sul. Isso, às vésperas da final da Copa do Brasil. Resultado? Vice.

1º Flamengo (67pts / 19V / 10E / 9D / 58%)

No meio do campeonato estava na 14ª posição e ameaçava passar o ano fugindo do rebaixamento. Além disso, um monte de confusões dentro do clube, em ano eleitoral, só fazia atrapalhar. Pra completar, Cuca e sua estranha relação com os jogadores.

Aí Kleber Leite deu o fora, Cuca caiu, Andrade foi efetivado e começou a recuperação de vários molambos do time, chegaram Pet, Maldonado e Álvaro. O time encaixou e, como quem estava na ponta não demonstrava querer o título, parecendo até que não queriam ser campeões, o Flamengo foi chegando, foi chegando… O resto vocês já sabem.

Agora é rezar que não seja feito um desmanche, que cheguem três ou quatro reforços de verdade e que a nova presidente Patrícia Amorim consiga dar um jeito no Flamengo. Porque se tudo for feito como deve, no futebol, nos esportes olímpicos e no resto do clube, poderemos nos preparar para comemorar durante muitos e muitos anos, começando pela participação na próxima Libertadores.

•••

Depois desse quase testamento, poderia prometer ficar um bom tempo sem falar de futebol por aqui. Mas como o risco de não cumprir é enorme, é melhor ficar quieto. Afinal, a programação inicial é estar no Maracanã, na festa de fim de ano do Zico, em que será formado um time com jogadores que participaram dos seis títulos do Flamengo. Sinceramente, é bem provável que não resista a fazer algum comentário depois disso. A ver.

Anúncios

Cinema é a maior diversão

Nada como um clássico da tela grande para animar o final de semana.

Foi tudo arranjado

Fatos:

– O Flamengo teve a melhor campanha do 2º turno;

– O Flamengo teve a 2º melhor defesa do campeonato;

– O Flamengo teve o artilheiro do campeonato e o craque do campeonato: Adriano e Petkovic;

– O Flamengo tem apenas 1 derrota nas últimas 17 rodadas ( 12 vitórias, 4 empates e 1 derrota) e ficou invicto nas 6 últimas (5 vitórias e 1 empate);

– O Internacional perdeu de 4X0 no Maracanã com time misto para ajudar o Flamengo;

– O Atlético MG perdeu em casa (com gol olímpico de Pet), diante de 65 mil torcedores, só para ajudar o Flamengo;

– O Santos perdeu em casa só pra dar o título para o Flamengo. Aliás, no jogo do Maracanã, o meia do Santos perdeu 2 pênaltis só para ajudar o Flamengo;

– Lúcio Flávio perdeu um pênalti só para ajudar o Flamengo;

– O Náutico perdeu em casa, aceitando assim ser rebaixado, só para ajudar o Flamengo;

– O Palmeiras, até então líder do campeonato, perdeu em casa (com gol olímpico de Pet), só para ajudar o Flamengo. E Vagner Love ainda ajudou com a perda de um pênalti;

– O Corinthians que vinha de derrotas consecutivas para timaços como Náutico, Santo André e Avaí, só não ganhou do Flamengo para dar o título ao rubro-negro carioca;

– E, até (pasmem) o São Paulo Fashion Week perdeu para o Goiás de propósito, abrindo mão do tetra consecutivo, porque tinha em mente ajudar o Flamengo;

– Além disso, o São Paulo Fashion Week, nos dois jogos com o Flamengo empatou no Morumbi e perdeu no Maracanã;

– Para culminar esse hexa discutível, o Grêmio, time de pior campanha como visitante (12 derrotas e apenas 1 vitória em 19 jogos), contrapondo sua ótima* campanha no Olímpico, jogou com time misto, como o Internacional fez no Maracanã, para ajudar o Flamengo;

Concluímos, a partir dos dados supracitados, que o Estado do Rio Grande do Sul mancomunado com a CIA, o FBI, a ABIN, a ANVISA, a CBF, a FIFA, o STF, a NASA, o Obama e a Comunidade Européia conspiraram para dar o hexa ao Flamengo.

Quem não tem o que falar, fala o que quiser…

Rogério Delfino e Cristiano Alves

*correção feiata pela Ana Paula

Um mundo perfeito

Confirmando a tese do juiz Eliezer Rosa (publicada no post anterior), Sérgio Besserman – que além de rubro-negro e economista, é irmão do Bussunda – afirma categoricamente que, a partir das 19h do dia 6 de dezembro de 2009, o mundo caminhará definitiva e naturalmente em direção à salvação, à libertação de todos as suas mazelas.

O Mengão somos nós, nossa força, nossa voz

O Mengão é campeão! O Mengão é campeão e em Copenhague vamos vencer o aquecimento global, no Oriente Médio haverá paz, Ahmadinejad, Netaniahu e Eurico Miranda nunca mais, as favelas do Rio serão pacificadas, libertadas e admiradas, a corrupção no Brasil vai ter padrão norueguês, políticos só serão eleitos se tiverem duas ou três idéias na cabeça, tudo vai mudar e melhorar, porque o Mengão é campeão!

Sim, nós podemos! Nós, urubus, somos o vermelho e o preto, somos o impossível, somos o homo sapiens saindo da África, somos a alma libertária, o desejo de transcendência, o humano e em sua essência transgressora. O primeiro rubro-negro surge quando Deus diz a Abraão que vá, deixe sua terra, sua gente e parta em busca da Terra Prometida.

O Mengão é como a Enterprise de Jornada nas Estrelas, nós somos o espírito guerreiro dos Klingons, a lógica dos Vulcanos, a criatividade e curiosidade dos humanos, a paixão dos andorianos, nós somos a raça e a jovem, charanga e dragões, nós somos São Gonçalo e Leblon, somos morro e asfalto, somos a essência do ser.

A nação rubro-negra é a nação do futuro, sem território ou estado, mas real, duvide disso pra você ver. Vermelho e preto é Stendhal, é Toró, é o MPLA de Angola, a Frelimo de Moçambique nos tempos do anticolonialismo. Vermelho e preto é a alma libertária, é São Judas Tadeu, é EXU, feminino e masculino, que transforma tudo à sua volta e abre e fecha os caminhos, conforme for tratado. É Mengão e somos nós. Viva a Servia! Viva Vila Cruzeiro!

O hexa foi como em Verdun, Stalingrado, Kursk, Ho Chi Mim, o desembarque da Normandia ou mesmo um daqueles Flamengo e Atlético-MG da década de oitenta. Andrade é o nosso comandante Giap, nosso Sun Tsé, nosso Clausevitz. Andrade é o comandante que nos lembrou o tempo todo a sabedoria da Grécia antiga: “Aquele a quem os deuses querem perder, primeiro enlouquecem com o orgulho”. Salto alto nunca mais!

O povo unido, jamais será vencido! O Mengão somos nós, nossa força, nossa voz! Ricardo Teixeira, vai ser na peixeira! (entrega o diplominha burocrático do nosso glorioso hexa logo e deixa de conversa besta). Aliás, depois do hexa, nossa próxima Jihad é a Libertação das Américas, a verdadeira, não esse populismo bolivariano chavista que não leva nem à conquista de uma Série B.

A conquista do hexa assegura a viabilidade econômico financeira dos Jogos Olímpicos de 2016 e abre caminho para o desenvolvimento sustentável em todo o planeta Terra. E, acima de tudo gente, vocês notaram o milagre do Rio?

Nós, urubus, torcemos pelos bacalhaus na Série B e para que pó de arrozes e estrelados solitários escapassem da segundona. E estrelados solitários, pó de arrozes e bacalhaus, não que tenham torcido pelo hexa, claro que não, não é assim que a banda toca, mas, vocês viram galera? Não nos hostilizaram e andam sorrindo para a gente.

Paz no Maraca aos homens de boa vontade. Feliz Natal!

Sérgio Besserman (O Globo – 7 de dezembro de 2009)

O cara, o manto e a história

Esperei, eu e outros quase 35 milhões de rubro-negros, 17 anos pelo dia de hoje. Isso porque, se Nelson Rodrigues estava certo ao dizer que o Fla-Flu nasceu 40 minutos antes do nada e, então, as multidões desperteram, mesmo os flamengos (flamenguista é invenção de neologista) que não completaram os 17 anos de idade, já eram Flamengo muito antes de nascer.

E algumas derrotas absurdas ao longo desses anos de fila fizeram crescer em mim um pessimismo quase compulsivo, aflorado com força total nos momentos em que o Flamengo chegava às decisões. Para o jogo de hoje, não foi diferente. Durante a semana mais longa, mais arrastada dos últimos 17 anos, mesmo sem procurar, encontrava razões para acreditar (e sofrer por isso, claro) que alguma coisa daria errado hoje no Maracanã.

A primeira delas, a história do Grêmio entregar o jogo. Depois, todo os comentaristas do Brasil darem como favas contadas a conquista flamenga. Adicione a isso a falta de profissionalismo de Léo Moura (ao sacanear publicamente os tricolores pela derrota para a LDU), o mole que Adriano deu ao autografar uma bandeira da LDU que um torcedor levou à concentração do time na Granja Comary e o Bruno resolver jogar com um uniforme em homenagem a Zé Carlos…  Estava tudo fácil demais e apesar da diretoria tentar segurar a onda, vazavam pequenos sinais de que o time poderia acreditar que realmente seria fácil, que estava mesmo tudo resolvido. Essas coisas nunca me cheiraram bem.

Mas havia bons sinais também, não dá pra negar. Quem diria que até Márcio Braga, o presidente mais fanfarrão e falastrão que poderíamos ter, falou sério, que não poderíamos achar que estava ganho, comemorar antes da hora etc. O outro bom sinal, o mais significativo, era Andrade.

O cara ganhou cinco títulos brasileiros como jogador (quatro deles pelo Flamengo) e também buscava o hexa. Durante os muitos anos que jogou ao lado de Zico e Adílio, entre outros, usou a camisa seis. E o mais grave: Andrade foi o cara que selou a maior revanche da história do futebol mundial. Aos 42 minutos (4+2=6), usando a camisa seis, o Tromba (seis letras) fez o sexto gol sobre o Botafogo, devolvendo a goleada sofrida 9 (6 ao contrário) anos antes.

Certamente, todo mundo já ouviu dizer que notícia ruim vende mais jornal que notícia boa. O mesmo aconteceu comigo. Entre os bons e os maus sinais, me peguei com os errados. Porque era óbvio que hoje, dia 6 de dezembro (mês 12, dobro de 6), Andrade comandaria o time na conquista do hexa.

Outro detalhe da conquista de hoje é que o melhor jogador em campo foi a camisa do Flamengo, o Manto Sagrado. Se no time há ídolos, hoje não jogaram bem. Petkovic e Adriano foram meros coadjuvantes em um time do jogadores comuns, empurrados pela magnética. Como na partida contra o Goiás, o time entrou em campo misturando o nervosismo e a ansiedade, resultando em uma apatia digna de pelada de domingo à noite. Pra completar, o Grêmio saiu na frente… Conseguimos o empate ainda no primeiro tempo, mas o que valeu mesmo foi que o time voltou transfigurado para disputar o final do jogo.

É fato que no intervalo, além de um belo esporro, Andrade evocou toda a tradição da camisa do Flamengo, um manto mais que sagrado, envergado por anjos como Leônidas, Zizinho, Almir, Doval, Garcia, Dequinha, Figueiredo… E nem é preciso citar o time mágico que conquistou o mundo na década de 80.

Por último, o sinal mais importante de todos: “deixou chegar, fudeu!”, uma expressão que é sinônimo de Flamengo, que é a história do Flamengo (apesar dos tropeços dos últimos anos). Só pra não deixar ninguém esquecer: o Flamengo nunca perdeu uma final de Campeonato Brasileiro.

Pois bem, hoje o Flamengo voltou a ser Flamengo. Apesar dos pontos corridos, a decisão na última rodada deu ares de final à partida contra o Grêmio. E foi difícil, sofrido, com dois gols de dois zagueiros (ave Rondi), na raça. Como sempre foi com o Flamengo. O Pernambuquinho Almir, Rondinelli e Anselmo que o digam. O Brasil voltou a ser nosso, o povo está feliz, o sorriso voltou a desfilar nos rostos.

Flamengo não é somente um clube, uma agremiação esportiva. O flamengo é uma religião, uma seita, um credo, com sua bíblia e seus profetas maiores e menores. O Flamengo é um amor, uma devoção, uma eterna comunhão de sentimentos. Por ele muitos deram a vida, alienaram a liberdade, destruíram amizades, arruinaram lares, com homicídios e suicídios. O Flamengo dá febre, dá meningite, da cirrose hepática, dá neurose, dá exaltação de vida e de morte. O Flamengo é uma alucinação. Deveria ser feita uma Lei Federal que obrigasse o Flamengo a jogar em todo Brasil, toda semana e ganhar sempre. Quando o Flamengo vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração nas ruas, a vida canta, os ânimos se roboram, o homem trabalha mais e melhor, os filhos ganham presentes. Há beijos nas praças e nos jardins, porque a alma está em paz,está feliz. O Flamengo não pode perder, não deve perder. Sua derrota frustra, entristece, humilha e abate. A saúde pública, a higiene nacional exigem que o Flamengo vença, para bem de todos , para felicidade geral, para o bem-estar nacional.

Trecho de uma carta do Sr. Ex°. Dr. Juiz de Direito Eliezer Rosa, apaixonado torcedor do América, dirigida ao Jurisconsulto João Antero de Carvalho

Evoé! O Flamengo é hexacampeão brasileiro.

Deixou chegar