Novela da bola

Tudo é pressão. O C13 ameaçou os clubes dissidentes de publicar o ganharam até hoje com TV e quanto passariam a ganhar a partir da licitação que foi colocada na rua. O objetivo é constranger dirigentes frente a sócios e torcedores dos clubes, afinal é um negócio com muito, muito dinheiro. Tudo isso sem falar na dívida de todos com o Clube.

De quebra, o único que realmente anunciou sua desfiliação, não pode simplesmente bater a porta e dar o fora porque há uma carência de dois meses após o anúncio. De quebra, no caso do Corinthians, a desfiliação ainda precisa ser aprovada pelo conselho do clube.

Mas a concorrência está na rua e foram convidadas a Globo, Record, Bandeirantes, Rede TV e SBT. Pelos valores anunciados, só entrariam de verdade as duas primeiras. Mas a Rede Globo anunciou nessa sexta que está fora, que não apresentará proposta.

Assim, pressiona os dissidentes a continuar dissidentes e esvazia a tal concorrência. Porque seria necessário apenas o valor mínimo de R$ 500 milhões (algumas avaliações apontavam que o valor final poderia alcançar cifras entre R$ 800 milhões e R$ 1 bi). E com a saída dos dois clubes de maior torcida, acompanhados de outros de bastante relevância para audiência, será que o campeonato realmente interessaria à Record (ou qualquer outra)?

Enquanto isso, Ricardo Teixeira dá gargalhadas por ter desestabilizado a única entidade minimamente organizada que poderia lhe fazer frente.

Agora, e se os clubes se entenderem e a Record (ou outra) comprar os direitos? Porque após a recusa, entendo que a Globo não poderia voltar atrás. Como ficariam Ricardo Teixeira e a vênus platinada?

Estou realmente curioso pra saber como vai terminar essa novela, porque tenho a certeza absoluta que, no final, são os próprios clubes (todos) que sairão perdendo. Dos cartolas (todos), é impossível dizer o mesmo. Ou alguém duvida que eles nunca jogam pra perder?

Hora de voltar pra casa

Ainda falando de esportes, agora só de futebol. Desde a confirmação de Ronaldinho Gaúcho no Flamengo venho pensando a respeito da volta de jogadores que foram para a Europa, não importando se para o Barcelona ou o CSKA.

A verdade é que estamos vivendo um período, que se estenderá até 2014, de interesse pelo Brasil. E estou falando de grana. Por conta da realização da Copa, todo mundo que puder tirar uma casquinha, vai tentar. Isso quer dizer que se os clubes forem relativamente inteligentes saberão maximizar suas parcerias com empresas, patrocinadoras. Em valores e quantidade.

Afinal, será muito interessante, do ponto de vista publicitário, ter contrato com jogadores que vestirão habitualmente a camisa amarela ao longo dos próximos anos. Mesmo que, no final das contas, o cara não jogue a Copa. Afinal, só cabem 23.

O que estou tentando dizer (e sinceramente não sei se estou sendo claro) é que o negócio futebol tende a crescer muito nos próximos anos e trouxas serão aqueles que não souberem aproveitar as oportunidades. É hora de abrir o caixa para segurar quem ainda não cruzou o Atlântico ou trazer de volta quem foi dar umas bandas por lá.

Mudando de assunto sem sair do tema, sempre foi discutido por aqui se realmente valia a pena o cara largar um Flamengo, um Grêmio, um Corinthians para jogar por clubes menores do velho continente. Porque se o sujeito vai jogar no Sevilla, ele sabe que nunca vai ganhar nada, título nenhum. Se vai para um CSKA, não aparece nem na TV. Ou seja, a carreira do sujeito dá adeus a inúmeras chances que estão diretamente relacionadas a estar em evidência em um grande clube.

Pois o Rica Perrone publicou belo texto sobre o tema.

Aqui se ganha, hoje, perto do que se ganha lá. O cara não sai mais para ganhar 500 ao invés dos 100 aqui. Ele vai ganhar 450 ao invés dos 300 aqui. O que na minha opinião já se torna discutivel, pois certas coisas não tem preço.

Vai jogar no Real? Porra, sensacional! Milan? Manchester? Ótimo.

Agora… tu vai trocar um Inter, um Santos, um Flamengo pelo Besiktas, pelo Shalke 04 e vem chamar isso de realização profissional?

Nem no bolso, meu camarada. Porque daqui 6 meses só sua mãe lembra de você. E isso é DESVALORIZAÇAO, não crescimento profissional.

Clique aqui para ler o texto inteiro. Concordei em gênero, número e grau. E acrescento: para jogar em time médio da Europa, faça o mesmo por aqui. Porque a grana está disponível e não será entregue apenas aos 12 grandes. Ou seja, todos os outros clubes da Série A e vários da Série B têm potencial para receber bons investimentos.

De quebra, bons marqueteiros saberiam fazer render belamente os contratos mais longos por aqui para criar identificação entre jogadores, clubes e torcidas, usando o antiquado amor à camisa como argumento.

2ª Edição

O Marcelo Barreto é um cara que admiro. Não o conheço, na verdade, estou falando de pontos de vista, de textos, do jornalista. E ao dizer que não sabe se é diferente, ele mostra o quanto é diferente. Vale clicar aqui para ler sua análise sobre o mesmo texto do Rica Perrone que citei aí em cima.

O dono do carro, o vendedor e o garoto mimado

Por tudo que acompanhei até o momento e também por algumas conversas, parece claro que o Flamengo procurou o dono do carro e depois foi atrás do motorista, ao contrário de seus rivais na disputa que só conversaram, praticamente, com o motorista. Quando o dono do carro entrou em cena, o caldo entornou. Que fique a lição para nossos clubes: transferências têm que ser negociadas com os clubes detentores dos direitos federativos dos atletas, primeiro. Ou, no máximo, simultaneamente.
Emerson Gonçalves (Olhar Crônico Esportivo)

São 16h de segunda-feira, 10 de janeiro, e Ronaldinho ainda não é jogador do Flamengo. E eu já tinha falado antes na postura da diretoria rubro-negra durante toda a negociação com Assis, irmão e empresário do craque que não parece ter vontade própria.

Enfim, tomando como fato que o dentuço será o novo 10 da Gávea (será anunciado hoje à noite, no Jornal Nacional, segundo o twitter do Fábio Azevedo, é a notícia que acaba de chegar), há pelo menos mais três pontos neste negócio que merecem alguma atenção  e, até, reflexão. O primeiro, mais óbvio, é quanto será para bom para o Flamengo tê-lo em suas fileiras. Pois já faz alguns anos que seu futebol deu uma bela caída. O que era rotina no Paris Saint Germain e Barcelona, entre 2001 e 2005 (ou 2006, tá bom), virou lampejo digno do mais serelepe vagalume.

Mesmo assim, a torcida rosso-nera fez faixa de despedida para Ronaldo, lhe agradecendo e desejando boa sorte. Porque se na temporada atual as coisas não vão bem, na última ele foi um dos principais jogadores do Milan. Ainda que vivesse de momentos. Como, em terra de cego quem tem olho é rei, é bem possível que por essas nossas plagas ele tenha um bom desempenho. Afinal, até o xará gordo conseguiu jogar.

De qualquer maneira, a discussão sobre o futebol de Ronaldinho vive recaindo no dilema ‘ele pode’ e ‘ele quer?’. Porque já está todo mundo cansado de saber que ele pode. E se ele quer, a aposta pelo Flamengo pode ser um bom sinal, para estar próximo da Seleção Brasileira e lutar pela possibilidade de se despedir da amarelinha sendo campeão do mundo em casa. Nesse caso, ele se dedicaria como louco nos próximos anos. E, a partir daí, a discussão seria entre o ‘ele quer’ e o ‘ele consegue?’. Sei lá…

As contas

Outro aspecto da contratação de Ronaldinho é a grana. Dirigentes, empresários e marqueteiros insistem que o negócio, apesar dos cerca de R$ 60 milhões investidos pelo clube, é superavitário. Será mesmo? É provável que sim, basta um bom planejamento. O exemplo gritado pelos quatro cantos do país é a contratação de Ronaldo pelo Corinthians. Teoricamente, já mais do que se pagou. Mas você viu os números? Nem eu. Então, é natural que desconfiemos ao menos um pouquinho disso. Além disso, o contrato assinado pode até gerar um boom de bons e novos negócios, mas que só serão mantidos ao longo do tempo caso seu desempenho seja compatível com a expectativa da torcida.

O Flamengo não vai ter gastos com Ronaldinho. Ele é que vai trazer recursos. Já surgiram várias oportunidades de negócio. Quem paga o jogador é a torcida
Luiz Augusto Veloso, diretor de futebol do Flamengo, em entrevista à Rádio Globo.

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A volta do dentuço ao Brasil virou um circo e quem armou a lona foi Assis. Com isso, todo mundo concorda. E não faltam críticas e afirmações duras, de vários envolvidos ou não no caso, de que o irmão empresário está fazendo mal à imagem de Ronaldo. Eu inclusive, se não falei isso, pensei. Mas há que se pensar fora da curva (ou do quadrado, como gostam os moderninhos corporativos). E gosto muito de quem faz isso.

Assis é genial. Conseguiu fazer que o Ronaldinho, sem jogar bola, conseguisse a mesma mídia que ele tinha quando campeão do mundo.
Rica Perrone (Blog do Rica Perrone)

Não sei quanto de ironia o Rica colocou nessa frase, mas a verdade é que Assis conseguiu provar por A mais B, mesmo com um monte de cagadas, que Ronaldinho ainda tem um imenso valor comercial, que é capaz de fazer muito dinheiro. Vale dizer que havia mais de uma centena de profissionais de imprensa e quetais na tal coletiva do Copacabana Palace na semana passada. E que essa novela já está no ar há muito tempo. E não há site ou jornal ou rádio ou TV no Brasil que, ao menos uma vez, não fale do dentuço diariamente. Mesmo que todo mundo saiba que já há muito tempo que ele não faz em campo metade do que já fez.

Mas mesmo saindo como o grande escroto de toda essa história, o mesmo Rica lembra que Assis é, além de irmão, apenas o empresário de Ronaldo e não o seu dono. E que se as coisas chegaram a tal ponto, não se pode colocar toda a culpa apenas nas costas do irmão mais velho.

Cabe ao Assis negociar, ouvir, arrumar grana. Se ele por acaso faltar com a palavra, cabe ao RONALDINHO trocar de empresário, ou, consertar a bobagem. (…) Mas quando você paga pra alguém te representar e esta pessoa faz aquilo que você não concorda, você está sendo representado? Se não está, porque mantém e diz amem? Assis é apenas um revólver sem bala. Quem dá munição pra ele atirar é o Ronaldinho, real responsável por tudo que está acontecendo. Não se posiciona, não sabe o que quer, não participa das reuniões, deixa tudo nas mãos de um cara que cuida da parte COMERCIAL dele e, portanto, só enxerga o lado comercial. Culpem o Assis do que quiserem. Só não esqueçam de quem ele REPRESENTA.
Rica Perrone (Blog do Rica Perrone)

A verdade é que Ronaldinho foi mimado e cercado desde muito jovem, virou uma estrela mas nunca chegou a ser um homem, pois sempre teve tudo e todos ao seu redor para fazer suas escolhas, lhe apontar o que seria melhor, lhe dizer o que fazer e tomar suas decisões. O problema é que isso vem acontecendo já há algum tempo com boa parte dos jogadores de futebol que tem, em sua grande maioria, origem pobre e sem formação, e com suas famílias praticamente vendendo suas almas aos empresários engravatados e de boa estampa que assediam as divisões de base de TODOS os clubes do Brasil, pois “eles sabem o que fazem”.

Só se esquecem que nem 2% dos jogadores de futebol alcançam o sucesso, mesmo em território brasileiro. E um dia terão que parar com a bola e levar uma vida de gente comum, precisando tomar decisões, fazer escolhas e sem ninguém para lhes apontar o rumo.

Sou o que sou, e sou tudo o que sou

Em pé: Leandro, Zé Carlos, Andrade, Edinho, Leonardo e Jorginho; agachados: Bebeto, Aílton, Renato, Zico e Zinho.

Agora é oficial, a festa (é, teve festa de entrega de faixas e medalhas) foi hoje, e a CBF distribuiu um monte de títulos por aí. Tentei não me aprofundar muito quando escrevi sobre isso, mas a verdade – e penso que falarei o óbvio – é que penso não ter havido muito critério da CBF na decisão de equiparar todos os campeões da Taça Brasil e Robertão aos campeões brasileiros.

Na verdade, acho que o Robertão faria sentido, mas a Taça Brasil não. E é bom que se diga que isso não diminuiria em nada a qualidade, a história, as conquistas, as glórias do Santos, que levou a Taça para a vila famosa em cinco anos seguidos ou do Bahia, o primeiro campeão. Isso porque são competições com conceitos e alcances diferentes.

Mas como disse da outra vez, cada um acredita no que quer. E agora é, além de tudo, oficial, tá bom.

Mas aí, no meio da confusão, surgiu a questão de 87, sobre o reconhecimento do Flamengo como legítimo campeão brasileiro daquele ano. E surgiu um parecer do departamento jurídico da CBF sobre uma decisão da justiça pernambucana (ohhhh!) de 94, proibindo o tal reconhecimento.

Se vocês gostam de bola e ainda não conhecem a história da Copa União, é só clicar aqui. Um ou outro detalhe discutível ou carente de confirmação, mas não há erros de informação.

E vale dar atenção a uma história muito pouco divulgada sabe-se lá porque. O Sport (declarado campeão brasileiro pela CBF) não ganhou nem o módulo dele, pois na decisão contra o Guarani, em disputa de pênaltis que estava empatada em 11 a 11, os dois times entraram em acordo e decidiram parar e deixar tudo como estava.

Como assim, um título decidido em acordo? Pois então, esse é o tamanho da cagada que a CBF fez na época.

Aí, eu que vi meu time disputar o título contra os maiores clubes do país – além dos 12 grandes, Bahia, Santa Cruz, Goiás e Coritiba eram os de melhor desempenho técnico em suas regiões, além do forte apelo de público – e vencer o campeonato jogando semi-finais e finais históricas, ganhando na bola, não posso dizer que ele é campeão brasileiro?

Então, que se dane a CBF e seus carimbos, selos, diplomas e o diabo a quatro. Eu sou Hexa! Como reconhece qualquer sujeito que entende o mínimo de bola e – rivalidades a parte – prima pelo bom senso.

Crise na Gávea

A foto de Cezar Loureiro (O Globo) é um bom resumo do que foi o jogo entre Flamengo e Vasco ontem à noite. Pelada de dar gosto… Não vi o jogo ao vivo por compromissos familiares, mas o silêncio que ouvia a três quateirões do Maraca era sintomático. Até que, já próximo das 20h30, ouvi um certo estrondo no maior e mais belo estádio do mundo, acompanhado de alguns gritos e até buzinas nas janelas ao redor da varanda em que eu estava. No meio daquele barulho, consegui perceber que a palavra Vasco (desculpem) foi dita por duas ou três pessoas.

Pensei: foi pro saco, perdemos o jogo.

Mas qual não foi minha surpresa quando, ao acessar o computador disponível mais próximo, descobri que os caras estavam comemorando o fato de não levar um gol. Como assim? Desde quando torcida de time grande comemora 0 a 0 de meio de campeonato?

E aí caiu a ficha. Crise na Gávea!

Pombas, empatamos com os caras que já entram em campo derrotados, com os caras que há trocentos anos não conseguem ganhar nada, nenhum jogo importante da gente. Imaginem se quebrariam a sina justamente no jogo de despedida do Mário Filho? Claro que não.

Ou seja, apesar do mau momento, do time fraco e do técnico ruim, algumas coisas na relação entre o Flamengo e a turma da colina são mais fortes que fanfarras momentâneas como estréias de ‘craques’ que nosso clube recusou. A incapacidade deles de vencer é uma delas. E os caras estão até agora soltando fogos por conta da boa atuação de seu goleiro.

P.S.: e eu caí na asneira de assistir ao VT do jogo.

Como será o amanhã?

Durante muito tempo eu fui um dos muitos e muitos rubro-negros que conheço que diziam que o Flamengo precisava de alguém para dar um jeito no clube, mesmo que isso significasse ficar alguns anos aturando resultados chinfrins. Afinal, seria o preço a pagar pela organização que nos daria um futuro ainda mais rico de conquistas do que já foi nosso passado. Dito assim, quase um épico.

Só que o que parecia um sonho, aconteceu. Quer dizer, começou a acontecer. Zico voltou ao Flamengo como diretor e começou a organizar o clube. E se é verdade que os novos reforços não exatamente uma coca-cola, parecem suficientes para se manter na média desses campeonatos muquiranas (em termos de qualidade de futebol) que andamos disputando por aqui.

O senão dessa linda história de final feliz que esperamos ver um dia é que para colocar o Flamengo no prumo será preciso atacar alguns feudos e mesmo uma referência como o Galo enfrentará problemas. Nada demais se imaginarmos que o Flamengo é uma nação dentro de outra, mas com a mesma origem básica. E vocês sabem bem como anda o país que é dirigido de Brasília.

Lúcio de Castro faz bela análise do caso. Leiam com atenção, mesmo aqueles que não forem rubro-negros. Porque em menor escala, muitos clubes passam pelos mesmos problemas. E se você não sabe quem é o Cabo Anselmo, clique aqui ou aqui.

Zico deve tomar cuidado com o Cabo Anselmo

Valdemar Lemos não é um técnico consagrado. Como qualquer profissional, merece todo respeito, mas, convenhamos, o Flamengo talvez tenha sido um pouco demais pra ele. Tamanho e currículo à parte, Valdemar teve um grande mérito no Flamengo, que talvez tenha passado despercebido para a maioria, que, na maior parte das vezes, desconhece o submundo que é o bastidor desse negócio chamado futebol. Pois esse mesmo Valdemar, sem a estatura devida para comandar o Flamengo, teve enorme estatura, se opondo a negócios escusos que se constituíam livremente na feira em que o Flamengo havia se transformado. Não conheço Valdemar nem sei como ele é, mas sei de fontes seguras que, convocado a escalar fulano ou sicrano que beneficiavam esse ou aquele empresário, negou-se a tomar parte da pouca vergonha e disse não. Seguiu escalando o time com suas convicções. Acertando, errando, mas com suas convicções.

No meio da tormenta daqueles dias, estava eu na sala de embarque do Galeão. Avistei um conhecido torcedor rubro-negro, daqueles que vivem profissionalmente do clube. Carregando uma faixa numa bolsa, pronto para embarcar para outro destino. No caso dele, onde o Flamengo ia jogar, se a memória não me falha, Natal, contra o América local. Pergunto pra ele sobre a faixa. Sem pudor nenhum, me conta que um cartola do Flamengo pagara para ele a confecção da faixa e a passagem de avião para estender no estádio um vistoso “Fora Valdemar”. Um cartola prejudicado pelo pé firme do treinador em não ser cúmplice da negociata. Assim funcionam as coisas nos bastidores do futebol, e o torcedor comum, esse ingênuo na maior parte das vezes, desconhece que muitas coisas são encomendas, “matérias pagas” se fizermos uma analogia com o linguajar do jornalismo. Protestos muitas vezes não são espontâneos e atendem a interesses prejudicados, e por aí vamos no mundinho do futebol. E eu me pergunto várias vezes como, mesmo sabendo de coisas assim, gosto cada vez mais do tal do futebol…

A lembrança do episódio, nem tão velho assim, não é gratuita. O amigo logo verá, e possivelmente irá ficar estarrecido. Não devia. Os bastidores são isso aí mesmo. E muitas vezes quando apontamos, o camarada vê perseguição, clubismo, ser do contra, etc. Bobagem. Por dentro, as coisas são muito piores.

Pois não é que alguns desses torcedores profissionais já se articulam pra começar a jogar fervura contra Zico no Flamengo? Quem conhece os bastidores da Gávea anda impressionado com o jogo que começa a se desenhar, os mesmos torcedores profissionais de sempre já sendo articulados pelos mesmos cartolas de sempre também, jogando veneno aqui e ali, vazando negociações para que Zico não tenha tanto sucesso assim, etc…Como Zico é marca acima de qualquer suspeita e de muita força, o jogo é mais sujo ainda, feito nas alcovas e em tom de conspiraçãozinha barata. Mas já acontece.

Vale lembrar que é semana de Flamengo x Vasco, propícia a esse tipo de coisa. E vale lembrar muito mais: em seu pouco tempo de Flamengo, Zico já questionou a ordem anterior, o modo de fazer anterior, e, talvez tenha passado despercebido para alguns, questionou a predominância e força de alguns empresários na Gávea, com o fatiamento de jogadores inclusive na base. As discussões disciplinares, mais rasas, talvez tenham feito muitos perderem a essência de algumas linhas de ação de Zico, já contrariando alguns interesses. È muito impossível imaginar, por exemplo, que um empresário como Eduardo Uram siga, com Zico presente, a conquistar sempre generosas fatias de jogadores rubro-negros. Vale lembrar ainda que Zico herdou um departamento das mãos de Marcos Brás. É, de Marcos Brás. É esse o Flamengo que recebeu.

Muita gente será contrariada nesses novos tempos. Muitos interesses, muitas relações entranhadas já há anos na Gávea. Hélio Ferraz, vice de futebol, o homem que recebeu o empresário Pina Zahavi de braços abertos e tapete vermelho na Gávea, e depois ficou com a conta do helicóptero pra pagar, não apareceu na posse de Zico nem para apertar sua mão.

Falta dinheiro. Vai faltar mais. Assim que o goleiro Bruno foi preso, Hélio Ferraz já pulou para lembrar que existe ainda uma dívida do Flamengo com Pina Zahavi pelo goleiro. Faltam atacantes. Ainda assim, Zico resiste a prática usual do Flamengo dos últimos anos: ser barriga de aluguel para os produtos dos mesmos empresários de sempre.

A memória me leva até outro bastião rubro-negro e seus dias de Gávea, com um monte de interesses sendo contrariados e jogando contra. Leovegildo Júnior, o Maestro Júnior, assumira o futebol. Para limpar. Faltava atacante. Qualquer semelhança…Um cartola se mexe por conta dele e apresenta Dimba (!), ganhando muito acima do que Dimba merecia, e dinheiro na mão, enquanto os salários do time estavam atrasados. Rachou o time, claro. Mas para os interesses contrariados deve ter sido bom. Júnior não resistiu e o Flamengo se atrasou mais ainda no tempo. Puxando pela memória, alguns irão lembrar dos profissionais nas arquibancadas, os coros contra um mito da história rubra-negra, todo esse filme.

Contei aqui recentemente e num programa na ESPN sobre minha experiência sobre a ação de empresários em categorias de base. Em 2003, em parceria com o grande repórter e amigo Fellipe Awi, fizemos uma série para o jornal O Globo chamada “Nos Porões do Futebol”. Entre outros assuntos, mostramos com provas, contratos, depoimentos, que vários jogadores das divisões de base do Flamengo eram obrigados a assinar com alguns empresários. Alguns jogadores que não aceitaram ficaram no caminho. Pois bem: a geração que está aí subindo, é essa, de 2003, 2002, quando estavam no mirim ou infantil. O preço está aí. E Zico tem tocado no assunto do descalabro que encontrou para reposição de peças.

O vespeiro é grande. No meu entender, como sempre disse, só lamento que Zico tenha assumido o Flamengo sem ser a última palavra. Ainda assim, por sua inquestionável morar e ética, pode fazer a única coisa que o Flamengo precisa agora: uma desratização, uma faxina geral. Que já parece ensaiar. Mas o vespeiro é grande, e já começa a se articular, asseguro. Veremos muita gente boa nas arquibancadas da vida e botequins sendo usada como massa de manobra, manipulada e incendiada por torcedores profissionais da vida. Os Cabos Anselmo da vida. Ateiam fogo e saem de cena. E quando a casa é destruída, voltam para seus lugares e seguem rindo de tudo, e gozando dos privilégios de sempre. Com suas quatro décadas de janela, Zico saberá e precisa utilizar seu único instrumento quando os Cabos Anselmo soarem as trombetas do apocalipse e começarem a minar seu trabalho, como já fazem: sua enorme credibilidade para gritar e avisar que tem traíra na área.

Lúcio de Castro

A volta dos cabeças de área

Foi preciso um dia inteiro para me reacostumar à rotina de trabalho, cidade grande, poluição, trânsito, metrô apertado e problemas congêneres.

E no recomeço das bobagens que costumo publicar por aqui, resolvi falar de Mano Menezes. Afinal, quando foi ‘confirmado’ o nome de Muricy, tratei de baixar o sarrafo. Mal sabia eu que o circo estava apenas começando. E infelizmente falarei o óbvio. Que falta de habilidade, que presunção, que prepotência de seu Ricardo, achando que bastava estalar os dedos e todos cairiam a seus pés.

No fim, por conta de uma briga política, o Fluminense fez questão de segurar seu técnico. E por falta de garantias de que seria o técnico da seleção até 2014, não importando os resultados do caminho, Muricy não fez muita força.

Para mim, como todos vocês podem ver dois posts abaixo, o que aconteceu foi muito bom para a seleção.

Se é verdade que não tenho grandes elogios a Mano, também é fato que não tenho grandes aversões. E até que me prove o contrário, é apenas um pouco menos retranqueiro que seu colega de profissão que trabalha no Fluminense.

Enfim, saiu ontem sua primeira lista e foi realizada sua primeira coletiva. E independente das minhas impressões sobre o sujeito, sua convocação e seu discurso (educado e simpático) apontam para uma melhoria significativa no modo de jogar do time nacional, se preparando – inclusive – para desmentir a mim e a muitos outros que o tem como retranqueiro.

Nomes estranhos à parte, como Jucilei e Renan (goleiro do Avaí), sua convocação e seu discurso prometem um time com meio de campo talentoso, substituindo brucutus e cabeças de bagre por armadores de verdade e cabeças de área (versão original, daqueles que sabem tocar a bola e sair jogando).

É claro que, como sempre, ninguém nunca estará satisfeito com todos os eleitos do técnico e, principalmente no início do trabalho, teremos de nos acostumar com alguns personagens estranhos. Apenas reflexo do período de testes natural. Deixemos o sujeito trabalhar.