Conspiração

Então aconteceu o esperado. Nós que levantamos muitos e muitos defuntos ao longo de dez rodadas fomos para o jogo para enfrentar um time tido como favorito. Aí, meu amigo, o manto grita, urra. E se é verdade que quase jogamos bem, também é verdade que os deuses se apresentaram e ajudaram a colocar as coisas nos seus devidos lugares.

E um time que coloca um Carlinhos Paraíba em campo e mantém um Rivaldo (independente da idade) no banco merece mesmo ser punido.

Além disso, não poderíamos esperar nada diferente de uma vitória contra uma equipe que conseguiu perder em casa para todos os nossos fregueses habituais. Afinal, hierarquia está aí para ser respeitada.

Para completar o bom domingo, os líderes provisórios empataram em casa com o ex-líder provisório – aquele time de são Paulo que vai construir um estádio cheio de incentivos fiscais que insistem em dizer não ser dinheiro público.

Faltam seis pontos e já me acostumei a sonhar com a idéia de chegar à última rodada, aquela que realmente importa, com o Vasco líder e nós a dois pontos dos caras. Mas, antes disso…

Pra começar, no próximo domingo, tem FlaFlu. Graças ao aluguel do estádio municipal para o show de Justin Bieber, é provável que seja em Volta Redonda (apesar do estatuto do torcedor dizer que a rodada esteja programada com pelo menos sete dias de antecedência, ainda não foi definido o local da partida). E graças ao técnico reserva do Corínthians, um tal de Mano Menezes, os dois times jogarão sem suas principais estrelas, Ronaldinho e Fred.

Como eles têm reserva para o moço e nós não, e como também não teremos nossa dupla de pitbulls (Aírton e Williams estão suspensos), é claro que eles são favoritos. E eu acho isso ótimo. Porque, do confronto de domingo, o derrotado estará fora do páreo e o empate ferra os dois. Ou seja, tudo conspira a nosso favor. Pelo jeito, só faltam 11 jogos para o hepta. Quem diria isso há duas semanas?

Desce mais uma gelada

A sociedade brasileira lutou durante anos para institucionalizar essa regra e, após um longo período de conscientização e adaptação, a população em geral e os freqüentadores dos estádios em particular entenderam que é uma medida benéfica. Ao abrir essa exceção, vamos retroceder décadas em 30 dias. Além disso, vamos abrir um precedente para que a CBF e outras federações nacionais exijam o livre comércio em jogos da sua competência. (…) Essa droga lícita amplifica rivalidades e facilita a expressão da agressividade. Em jogos de futebol isso pode ser ainda mais evidenciado, já que há grupos de torcedores em oposição. (…) É preciso resguardar os interesses da população no que diz respeito à saúde pública e à segurança nos estádios, independentemente dos interesses e intervenções de alguns grupos.

O que você vê acima são declarações do psiquiatra Carlos Salgado, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). Salgado se manifestou por conta do anúncio de que a Lei Geral da Copa pode permitir a venda de cerveja nos estádios durante a competição em 2014.

É claro que essa liberação vai acontecer, a Budweiser é uma das patrocinadoras da FIFA. Eu mesmo já tinha falado nisso durante o mundial de 2010, nesse post.

Sobre esse assunto, há duas questões. A primeira, que é a proibição de venda de bebidas nos estádios e, em muitos estados e/ou cidades, no seu entorno. Sou absolutamente contra isso. Durante boa parte de minha vida, freqüentei estádios. No maior deles, não foram raros os jogos com mais de 100 mil pessoas.

Nesses casos, e fazendo uma conta burra e modesta, vá lá que apenas 30% das pessoas bebesse. Chegaríamos à marca de 30 mil bebedores. Desses, quando havia brigas e outros problemas, os contentores talvez chegassem a 100 ou 200 (nos grandes tulmutos). Nem 1%!!!! Mesmo assim, a massa pagou o preço numa clara ação do estado babá. Basicamente, as pessoas não tem mais o direito de escolher o que fazer de certo ou errado e arcar com suas conseqüências.

Salgado, ao gritar contra a cerveja e dizer que ela seria uma das causas da violência entre torcidas, não lembra que as brigas entre organizadas continuam acontecendo dentro e fora de estádios. Muitas vezes, marcadas com auxílio das redes sociais. Ou seja, seguindo sua lógica, deveríamos proibir o uso da internet.

Salgado diz ainda que é preciso olhar os interesses da população. Que interesses de qual população? Porque não conheço ninguém nos meus círculos de amizade que seja a favor da proibição. E não conheço ninguém que, enquanto era permitido, tenha bebido em um estádio e colocado o mundo ou mesmo o síndico de seu próprio prédio em perigo.

No meu quintal, mando eu

O outro ponto desse problema diz respeito à soberania nacional. Mesmo discordando da lei, ela existe e deve ser cumprida. Ou seja, a abertura de uma exceção por exigência dos organizadores de um evento – qualquer que seja – não deveria existir. Pois além de afronta clara ao Estado, abre precedentes para que qualquer organizador de qualquer evento possa solicitar e esperar que receba o mesmo tratamento. Daí pra virar zona, falta um pulo.

Nesse caso, cabe a pergunta: “quem manda na minha casa?”. Se a lei é vagabunda e deve cair, é problema nosso, discussão que nós temos que fazer. Se a Copa será um pretexto para tratar do tema, ótimo. Mas no dia do ponta-pé inicial, a coisa tem que estar decidida da seguinte forma: ou a lei é mantida e vale inclusive para o mundial, ou ela não presta e a cerveja está liberada, tanto para a Copa quando para os jogos da quarta divisão do campeonato roraimense.

Nesse sentido, a tal Lei Geral da Copa ainda vai mexer em mais vespeiros, como a não existência de meia-entrada durante o torneio. Basicamente, vem mais confusão por aí. Ou será que a UNE, só para dar um exemplo, patrocinada pelo governo que bate palmas para a Copa, vai colocar o rabo entre as pernas e aceitar essa imposição?