Jogos 12, 13 e 14: promessa de muitos gols

Fizeram uma bola para arrebentar com os goleiros. O problema é que não contavam com a falta de intimidade dos jogadores de linha com a pelota. Se você pensa que, pela tradição, França e Uruguai foi uma ofensa à Copa do Mundo, é porque não viu como a Jabulani foi maltratada por italianos e paraguaios na tarde de hoje. Não é por acaso que a média de gols, até agora, é a pior da história das copas.

Mas há que se ter esperanças e esta terça deve ajudar muito a melhorar as estatísticas. Afinal, estréiam neozelandeses e norte-coreanos, mais dois daqueles times que ajudam a comprovar a tese de que o que mais existe no futebol é bobo.

Pela ordem da programação, a primeira partida é entre Eslováquia e Nova Zelândia. Não sei o que falar ou esperar da equipe européia além de ser sua primeira copa após a separação da República Tcheca. Em compensação, todos sabemos que a maior contribuição que o time da Oceania deu ao futebol foi ajudar Zico a aumentar sua coleção de belos gols na carreira, com um voleio e uma falta magistralmente batida na partida que terminou 4 a 0 para o Brasil, em 1982.

Pela hora do almoço, começa disputa do grupo do Brasil com a partida entre Portugal e Costa do Marfim. Desde a saída de Felipão do comando do time, a seleção portuguesa não conseguiu grandes resultados. Só chegou à copa depois de uma reação digna de um Fluminense na fase de grupos européia, batendo a Bósnia na repescagem. Seus destaques são o presepeiro Cristiano Ronaldo e três brasileiros: Deco, Liédson e Pepe.

A seleção africana chegou à última copa como promessa, mas não foi cumprida. Acho que dessa vez vai acontecer o mesmo. Liderada por Drogba (que quebrou o cotovelo em amistoso de preparação contra o Japão), tenta provar que é o melhor time da África, mas não deve conseguir. Pela lógica, esse é o jogo que definirá o segundo classificado do grupo e eu acho que será Portugal.

No fim do dia, finalmente, a estréia do Brasil. E apesar do Dunga e de ter todo aquele blá-blá-blá sobre estréia, tem a obrigação de atropelar a Coréia do Norte. Por mim, só vale a pena torcer após o terceiro gol, porque menos que isso é inaceitável. Um bom exemplo a seguir é a Alemanha, que passou por cima da Austrália.

Sobre a seleção asiática, não há muito a dizer, ninguém sabe muito. Sei que fez uns amistosos com o time B da Venezuela e não foram muito bem. Dá pra imaginar a qualidade do time… O astro, se é que se pode chamar assim, é um japonês filho de sul-coreanos que foi educado em escola norte-coreana. Segundo o rapaz (que eu não faço idéia de quem seja), o futebol é imprevisível e um “time de corações valentes podem surpreender”. Tá bom. A história da Coréia do Norte no futebol chama a atenção porque em sua primeira copa, em 1966, deixou todos de boca aberta quando eliminou a Itália e quase atropelou Portugal (com Eusébio e tudo). Mas sua cota de milagres se esgotou naquele ano e deverá ser o saco de pancadas do grupo.

Pelo cheiro, Coréia do Norte, Nova Zelândia e Grécia disputarão o posto de pior time do mundial. Abaixo, meus palpites para jogos de amanhã.

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Tudo tem limite

Eu que implico com Dunga e sua seleção até não poder mais, fiquei razoavelmente mais sorridente no dia em que o time da CBF passou por Brasília para o beija-mão antes da viagem para a África do Sul. Na foto oficial, nosso técnico aparece de cabeça baixa e nitidamente constrangido, sabedor de que aquilo ali era uma grande besteira que poderia ajudar muita gente, menos o seu time.

Pois hoje é um dia em que, não apenas Dunga, mas todo e qualquer brasileiro deveria ficar constrangido. Nesse momento está começando, em Harare, o primeiro de dois jogos-treino que a seleção faz antes da estréia na Copa.

Harare é a capital do Zimbábue. O presidente Robert Mugabe, apoiado por empresas duvidosas de países duvidosos, investiu US$ 1,8 milhão nessa partida, enquanto sua população tem 88% de desempregados, 25% dos adultos do país têm AIDS e a expectativa de vida da população é de 42 anos. E é claro que esse dinheiro não resolveria os problemas, mas qualquer tostão bem aplicado ajudaria muito.

Além disso, Mugabe (o sujeito sorridente da foto aí em cima) está no comando do país desde 1980, reeleito seguidamente em pleitos notadamente fraudulentos. Mas apesar de se apresentar como democrático, três milhões de cidadãos do Zimbábue estão refugiados na África do Sul, com medo de morrer mesmo estando além das fronteiras.

Mas alguém há de dizer que o futebol não pode se deixar influenciar por questões políticas. Então deve ser por isso que trocentas seleções foram convidadas para amistosos e para encerrar sua preparação para a Copa no Zimbábue e nenhuma aceitou. E deve ser pelo mesmo motivo, que futebol não tem nada a ver com política, que o ditador e seus ministros estão pajeando, desde o desembarque no país, jogadores que são ídolos mundiais.

Mas a gente sabe que há muita gente que não fica constrangida com nada. E muitas delas ocupam posições de destaque em organizações nacionais e têm até aspirações internacionais. Mas o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, deveria saber que para tudo há limites. Até para pão e circo.

Se sapo tivesse embreagem…

…talvez não pulasse tanto. O problema é que ‘se’ não existe. Não joga, não corre, não pilota, não governa, não nada.

Hoje, Dunga revelou a lista dos 23 convocados para a Copa do Mundo. Além das discussões comuns sobre essa ou aquela posição, como os deficientes reservas de goleiro e os improdutivos laterais esquerdos, estão na lista Gilberto Silva, Kleberson, Elano, Felipe Melo, Júlio Baptista, Ramires e Josué. Além de Kaká, esses são os meio-campistas do escrete canarinho na luta pelo hexa. Para o ataque, Robinho, Luis Fabiano, Grafite e Nilmar. E daí?

Daí que a campanha de 2006 foi um fiasco. Muito mais pela postura durante toda a preparação, com indolência e festas em profusão em função do largo favoritismo, do que pela desclassificação nas quartas de final. Afinal, ser quinto colocado em um campeonato mundial nunca foi fiasco.

Assim, o principal papel de Dunga era resgatar alguns valores, como o orgulho de vestir a amarelinha, respeito, seriedade e – algo que, como diz o Calazans, os professores-doutores adoram – o espírito de grupo. Pois bem, ao longo dos últimos quatro anos (e apesar de não ter um décimo do carisma do Felipão), foi construída a ‘Família Dunga’. E aí, meus amigos, danou-se. Vamos começar com os ‘se’.

SE tudo der certo, seremos campeões mundiais. SE tudo der certo, Kaká não terá nenhum problema físico ou técnico e será o grande maestro do Brasil. SE tudo der certo, Robinho vai enlouquecer as defesas adversárias, da Coréia à Inglaterra, passando pela Espanha. SE tudo der certo, Júlio César vai ficar bem até a final e não teremos problemas sob as traves.

O grande problema dessa lista que poderia continuar quase indefinidamente é que há muitos ‘se’ para que tudo dê certo. E SE alguma coisa não der certo?

SE Julio Cesar se machucar ou não estiver bem? Doni é uma vergonha e Gomes… O que falar dele?

SE precisarmos da lateral esquerda para desafogar e resolver um jogo, dependeremos de Gilberto!!!!

SE Kaká tiver algum problema, não há ninguém capaz de substituí-lo à altura. Já pensaram no que vai acontecer SE precisarmos, em um jogo decisivo, de um meio campo formado por Gilberto Silva, Kleberson, Felilpe Melo e Elano (ou Josué ou Ramires ou Júlio Batista).

No ataque, SE Robinho – apesar do bom início de ano ao lado dos meninos da Vila – jogar o que jogou normalmente nos últimos anos, teremos um atacante a menos. E SE, além de Robinho jogar seu normal, algum outro estiver machucado? Não poderíamos, ao menos, começar a Copa com quatro atacantes?

Eu fui um dos que praguejou violentamente após a vergonha de 2006. Mas é inegável que – pelo menos em uma Copa do Mundo – não se pode abrir mão de algumas coisas. Uma delas é ter o imponderável a favor. E Dunga abriu mão disso. Porque – por teimosia ou por burrice ou por rancor ou por tudo isso junto – não teria personalidade suficiente para dar o braço a torcer e bancar as convocações de Ronaldinho Gaúcho e Paulo Henrique Ganso. Isso sem falar no gordo Ronaldo. Apesar de tudo, dois extra-classe, experientes, e um garoto que está explodindo e tem a capacidade ímpar de ler e descortinar um jogo, algo muito raro já há algumas gerações. Em comum, os três são capazes de fazer o que ninguém espera.

Pois Dunga não os chamou e nunca saberemos SE a seleção brasileira conquistaria a copa com eles. Torçamos, pois, para ganhar sem. Porque sabemos que, SE algo der errado, o projeto de técnico vai olhar para o banco de reservas e descobrir que só há mais do mesmo.

De qualquer maneira, ‘se’ não existe. Não joga, não corre, não pilota, não governa, não nada.

Bellini inventou o gesto de erguer a taça. Carlos Alberto o de beijar a taça. E o Dunga o de xingar a taça. (Marcelo Barreto, do SporTv)

P.S. 1: Para não dizerem por aí que só faço falar mal de tudo, Dunga cometeu, no ataque, seu grande acerto: a não convocação de Adriano. Não sei se Grafite seria a melhor opção, mas é fato que tem sido excelente no campeonato alemão e têm características semelhantes às do imperador da Chatuba.

P.S. 2: Se alguém tiver a paciência de pesquisar, pode me dizer se já houve na história desse país uma seleção brasileira com tantos jogadores reservas em seus clubes?

F*#%@! é o Ganso

Estou desde ontem pensando no que dizer a respeito de Paulo Henrique Ganso. Durante boa parte deste primeiro quadrimestre, com todos os campeonatos regionais acontecendo simultaneamente, não foi possível acompanhar de perto o time do Santos, o time dos meninos da vila, que aplicou goleadas históricas e encantou meio mundo. Afinal, acompanhava o Flamengo no carioca. O resto, por melhores momentos.

Mesmo assim, era possível perceber que no quarteto formado por Ganso, Robinho, Neymar e André (com auxílio luxuoso de Madson), novidade boa mesmo era o garoto do meio campo.

Robinho, todo mundo já conhece. Está jogando o fino? Claro que sim, mas não é novidade. André é um bom centro-avante, claro, que fica melhor quando há grandes jogadores à sua volta, dando bons passes e chamando a atenção dos marcadores. Mais solto, mais produtivo. Madson não é titular porque não cabe todo mundo. E aí ficam faltando as duas novas estrelas do futebol tupiniquim.

Já disse aqui que Neymar é um baita jogador (não, eu não sou louco até prova em contrário), mas ainda o acho mais presepeiro do que craque. Ainda quero vê-lo em um time que não joga pra ele ou com tantos bons jogadores ao seu redor, para ajudar e dividir a atenção dos marcadores. Além disso, é vaidoso e personalista. Ontem, ao receber passe primoroso de Ganso, fez o gol e correu a gritar que é f*#%@!.

E voltamos a ele. Paulo Henrique Ganso. O moleque só tem 21 anos, mas rege o time como se tivesse 40, com segurança, tranqüilidade, discernimento para saber o que fazer com a bola, quando e por quê. Como se não bastasse suas atuações em todo o campeonato paulista e no primeiro jogo da final, o que ele fez em campo ontem foi sacanagem. Gostaria mesmo que o seu Armando estivesse por aqui para escrever sobre o rapaz, eu sou incapaz.

É claro que um monte de gente vai dizer que foi só a final do paulistinha, contra o Santo André, e qualquer bobagem a pretexto de minimizar a conquista do Santos e a atuação de Ganso. Pura bobagem, o time do ABC jogou demais e o Santos terminou o jogo com dois a menos.

E com maio correndo e a África do Sul ficando mais perto, só resta esperar que um certo anão não perca a oportunidade.

O batível

Santo André e Atlético Mineiro deram uma grande lição aos outros 18 clubes que enfrentarão o Santos no Brasileirão que começa no próximo sábado. Se querem vencê-lo, partam pra cima, enfrentem o time dos garotos. Se ficarem atrás, esperando uma chance caída no colo, em um contra-ataque fortuito, perderão os jogos. Todos.

Nas três partidas, os adversários jogaram de peito aberto. E de três partidas, o Santos só ganhou uma. Fez sete gols (boa média), mas levou oito.

Boladas

Tenho tentado não pensar em futebol nos últimos dias, claro, graças ao papel pífio que o Flamengo tem feito nos últimos tempos. Mas o fato é que, mesmo sem merecer, começamos a disputar amanhã a segunda fase da Libertadores, em um embate que a emissora oficial está tratando como o encontro das nações, ou algo assim. Então aproveito o clássico como pretexto para fazer algumas observações sobre o violento esporte bretão.

Fla

– Depois de toda a confusão que culminou nas demissões de Andrade e Marcos Braz, o clube está momentaneamente sem vice de futebol, ainda somos obrigados a aturar o Isaías Tinoco e, interinamente, Rogério Lourenço será o técnico do time. Bom zagueiro criado no clube, conquistou – entre outras coisas – o Brasileirão de 92. Trabalhou nas divisões de base do Flamengo e, nos últimos tempos, era um dos assistentes do Tromba. Não acho que seja técnico para o Flamengo, mas se tiver sorte e passar pelo Corínthians, pode ser efetivado. Se acontecer, é bom colocarmos as barbas de molho, porque Rogério conseguiu ser vice-campeão mundial de juniores com o melhor time da competição.

– Como diz o Octavio, não está na hora de Zico parar de falar e começar a ajudar de verdade não? Assume o negócio Galo, é só dizer que quer, a presidente já abriu as portas.

Fla X Corinthians

– É um clássico e, como tal, independente de momentos e campanhas anteriores, não há favorito.

– Em tese, além do bom momento, paulistas saem na frente. Têm um padrão bem definido e sabe fazer o jogo correr, toca bem a bola. Diferente do clube carioca que tem prescindido de uma armação bem feita (e o Pet está no banco…) e acaba vivendo de contra-ataques ou fazendo ligações diretas.

– Em tese, apesar das turbulências, cariocas saem na frente. Têm um elenco melhor, que pode até mudar o time completamente durante o jogo, de acordo com as circunstâncias. O problema é que começou mal, com a escalação de três volantes. O responsável pela armação será o Michael. E ele vai ter que fazer mágica…

– Rogério ressuscitou Rômulo e o colocou ao lado de Williams e Maldonado. Em boa forma, o garoto é muito melhor que Toró (segundo o Jefferson, eu não lembro do moleque). Para mim, isso não é vantagem, qualquer um é melhor que Toró. Minha preocupação, além da presença de um cabeça de área sem ritmo, é a ausência de gente criativa no meio campo. Jogando em casa e precisando fazer resultado para administrar na segunda partida, não consigo compreender a escalação.

– Sempre que se enfrentam em um grande jogo, surgem novas pesquisas sobre o número de torcedores de cada clube. A última, do Datafolha, mostrou uma diferença de apenas 3% entre Fla e Corinthians, configurando um empate técnico A melhor resposta para isso está aqui.

– Outro amigo, o baiano Elmo, fez a seguinte declaração: “é na hora do sufoco, quando menos se espera, que os grandes times como Bahia e Flamengo nos surpreendem”. Não sei se rolo de rir ou se ajoelho a rezar para que esteja certo.

– É pouco provável, mas não estranharei se o time do Flamengo entrar em campo comendo a bola e acabar ganhando bem para dedicar a vitória ao Andrade. E com o Maracanã lotado, tudo é possível.

Flu

– Muricy arrumou confusão no Palmeiras porque a Traffic queria e conseguia escalar o time. E veio para o Fluminense, que tem uma relação ainda mais íntima com a Unimed. Tudo bem que ele quer experimentar o mercado carioca, variar um pouco, mas alguém acha que isso vai dar certo de verdade?

Dunga e Seleção

– Ainda falta uma meia dúzia de 15 ou 20 dias para a convocação final da seleção. E está todo mundo fazendo pressão para se convocar esse ou aquele. Especialmente Ganso e Neymar. Dificilmente acontecerá e, no fundo, todo mundo sabe disso. Torço, sinceramente, para que o Ganso seja levado, é bola demais e uma baita opção para o meio campo da seleção.

– Neymar também é bola, não sou louco, mas ainda é muito presepeiro. Diferente do meio campo, ainda há opções para o ataque

– Mesmo que tenhamos alguma novidade, não será nada radical. Vamos à copa com um time em que vários jogadores são reservas em seus clubes, mas que fazem parte da ‘Família Dunga’, modelo herdado de Felipão e inflado pelo fracasso de 2006. Ou seja, vamos ter que aturar os josués, julios batista, elanos e felipes melo da vida. Além disso, como o Rica Perrone lembrou muito bem, Dunga está nos dando exatamente o que pedimos depois da última copa.

– Concordo com Zico, Roberto Carlos ainda é o melhor lateral esquerdo do país. E apesar da cena do meião, não foi o culpado (pelo menos não foi o único) do fiasco alemão (ainda acho estranho ser o quinto melhor do mundo e dizer que isso é um fiasco).

Crônica de sexta-feira (2)

Eu diria que, sob os olhares da sociologia, antropologia, filosofia e – claro – botecologia, Rodrigo é uma personagem interessante.

Uma das manias que esse mineiro que gosta de corrida de automóveis tem é enviar, às sextas-feiras, um texto sobre qualquer assunto. Envia para amigos, colegas de trabalho etc. Geralmente algo divertido, às vezes chamando atenção para alguma data próxima ou usando uma data qualquer como pretexto ou sem qualquer razão específica, apenas para exercitar a escrita, manter a tradição e os contatos em dia. Como no carnaval.

Dessa vez, com o feriado no Rio, só vi o e-mail dele hoje de manhã. E sobre algo que martela minha cabeça já há algum tempo. Principalmente morando em uma cidade onde um sujeito, qualquer um, é capaz de criar um movimento contra os carros que estacionam sobre as calçadas e, pouco tempo depois, sob a desculpa do ‘é rapidinho, só pra tomar um café’, ocupar o espaço sagrado dos pedestres com seu próprio carro.

Enfim, dessa vez, Rodrigo colocou o dedo em uma ferida antiga. O brasileiro é sim capaz de se mobilizar pelo que lhe interessa. O problema é o que interessa ao brasileiro a ponto de movimentá-lo.

Faltam uns tantos dias . . .

Na televisão, no rádio, em outdoors, nos cinemas, nas conversas dos butecos, em casa, com os vizinhos, nos ônibus, . . . nesses dias está difícil não ver, ler, ouvir ou participar de uma conversa – das superficiais até calorosos debates – sobre a Copa do Mundo da África do Sul.

“O Brasil é o país do futebol”. Pode ser. Pelas características básicas deste esporte (popular, praticado em locais abertos, esporte barato para o povo, os títulos conquistados, etc) não há como negar que o nosso país e o futebol são estreitamente ligados através dos tempos.

O que me impressiona é a capacidade de mobilização da sociedade (ou de grande parte dela) em torno de mais uma Copa do Mundo, de mais uma seleção brasileira a caminho do título. Lembram-se dos (tristes) anos Médici?

Será que nós brasileiros sabemos quantos dias faltam para as eleições? Qual o prazo que temos para defender ou criticar  a aprovação de algum projeto de nosso interesse nas nossas Câmaras Municipais, nas Assembléias Legislativas Estaduais, na Câmara Federal, no Senado ou até mesmo na assembléia do nosso condomínio, nas associações de moradores de nossos bairros, nas escolas dos nossos filhos e por aí afora?

Não pensem que este texto pretende ser um protesto contra a mídia esportiva. Não, apenas pretendo registrar o fato – inegável para mim – que a sociedade brasileira consegue, sim, se mobilizar quando assim deseja. Futebol e Diretas Já podem ser citados como exemplos históricos mas na minha opinião muitas e importantes oportunidades já passaram e continuam passando em branco.

Aposto que a maioria de nós não sabe nada dos assuntos descritos acima mas também não se importa mesmo com isso, e vai levando a vida do jeito que está, pois, afinal, vem aí mais uma Copa do Mundo e é isso que interessa mesmo, né Dunga?  Nunca negaria que eu mesmo não me importo com muitas coisas com as quais deveria importar e agir, mas como sou um privilegiado, pela profissão, pelas leituras diárias de jornais, sou mais informado que a maioria da pessoas e por isso talvez devesse me importar mais. Mas pra que? Se está tudo bem comigo, por que se preocupar com o bem comum? Esta é a lição que devemos aprender.

Bem comum, êta expressão tão desconhecida, tão deixada de lado, tão fora de moda nos tempos atuais e nem por isso deixa de ser tão necessária, fundamental para uma perfeita vivência de todos nós numa democracia. Já pensaram uma reunião de condomínio (desculpem a repetição mas, para mim, o condomínio é um dos mais perfeitos exemplos da menor e mais íntima experiência democrática que uma pessoa pode ter) animada quanto um encontro para fazer o bolão da Copa? E assim por diante, depois do Condomínio poderíamos ter participações rotineiras, conscientes na nossa turma, na rua, no bairro, na cidade, na região, no estado…

Utopia? Para alguns pode ser, para outros não, pois é claro que tem muita gente se esforçando para melhorar o bem comum. Pena que fazem parte da minoria. Você conhece alguém? Participa ou apoia alguma iniciativa? Em caso negativo, não se preocupe, você é um(a) brasileiro(a) normal, procurando cuidar do que você precisa cuidar, das suas coisas, dos seus relacionamentos.

Isto não é errado. Errado é constatar manipulações puramente comerciais, algumas sem ética, da consciência coletiva, em favor de benefícios exclusivos para alguns poucos grupos sociais e não fazer nada.

Procure fazer algo, nem que seja um texto semanal dirigido à pessoas queridas. Esta é uma vantagem proporcionada pela Internet, a comunicação rápida e fácil. Faz um bem danado para o ego, ainda que seja uma atitude minúscula sob o ponto de vista geral.

Rodrigo Faria

Dondom, Andarahy, goiabada cascão em caixa…

Tenho 36 anos. Às vezes, chego a duvidar disso, pensando que são 90. Sou um sujeito quadrado, careta mesmo. Mas não é sobre isso que pretendo falar, é sobre a expressão ‘sou do tempo…’ e suas respectivas similares.

Na última segunda-feira consegui assistir a uma nesga do programa Linha de Passe, da ESPN Brasil. Claro que em ano de Copa, todas as boas mesas redondas de todas as semanas têm que dedicar o mínimo espaço à Seleção Brasileira e suas principais adversárias. E falar de seleção hoje é quase sinônimo de falar de Ronaldinho Gaúcho. Pois lá estavam Paulo Vinícius Coelho, José Trajano, Juca Kfouri, Fernando Calazans e Márcio Guedes elucubrando sobre o tema quando alguém que não me lembro solta a pérola: “quando pedimos Ronaldinho Gaúcho, não significa que pensamos que ele é o melhor para a seleção. Quando pedimos Ronaldinho, estamos reclamando da falta de brilho da Seleção Brasileira”.

E é aí que volto ao início do texto: sou do tempo em que seleção brasileira era algo quase sagrado, lugar de craques. Sou do tempo em que para ser chamado de craque, o jogador precisava ser brilhante durante alguns anos e ter grandes conquistas no seu clube e na seleção. Se não fosse tudo isso, acreditem, era – no máximo – um bom jogador.

Como não tenho os tais 90 anos, não vou falar das seleções de 38, 50, 58, 62 e 70. Como parâmetro, uso o time de 1982, que entrou para a história como uma das melhores seleções de todos os tempos, apesar de não ter conquistado o título.

Pra quem não lembra, vejam o time: Valdir Peres; Leandro, Oscar, Luisinho e Junior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Chulapa e Éder. Os reservas eram os seguintes: Paulo Sérgio e Carlos (goleiros); Edevaldo e Pedrinho (laterais); Juninho e Edinho (zagueiros); Batista e Renato (meias); Paulo Isidoro, Roberto Dinamite e Dirceu (atacantes).

Claro que toda seleção tem o seu senão. Para mim, Chulapa estava deslocado nesse time, principalmente com Roberto no banco. Mas é bom lembrar que Reinaldo tinha encerrado a carreira há pouco tempo, por causa dos joelhos, e Careca estava machucado. E quanto aos goleiros, os três eram os melhores do Brasil mesmo, mas numa época em que nossos goleiros não figuravam entre os melhores do mundo. Também vale lembrar a quantidade de craques (é, craques mesmo) que ficaram de fora.

Quem não viu ou não lembra poderá pesquisar e até perguntar: quantos cabeças de bagre havia entre os 23? Quantos entre os 23 não seriam, hoje, estrelas do futebol mundial? Quem no mundo, hoje, joga tanta ou mais bola que qualquer um dos 23? Talvez, meia-dúzia de três ou quatro, Messi puxando a fila.

Um pouco mais do ‘varandão da saudade’? Sou do tempo em que jogador de futebol, craque ou não, tinha personalidade como qualquer ser humano. Sou do tempo em que craque não precisava puxar o saco do técnico da seleção, principalmente quando passava por uma fase ruim, para garantir seu lugar e o de seus ‘amigos’.

E o que Kaká fez ontem? Vejam suas declarações:

Ele é uma pessoa muito séria, que sempre faz as coisas da maneira correta. É muito coerente dentro e fora de campo (…). Sua atitude séria e tranqüila sempre nos ajudou a manter a calma. Além disso, como parou de jogar há relativamente pouco tempo, sabe o que jogador quer e como tratá-lo.

Fonte: Globo.com

Vale dizer que o astro do time de Dunga está numa fase muito ruim no seu clube e, se ninguém imagina vê-lo fora do time, todo mundo – imprensa e torcedores – clama para que Dunga leve alguém capaz de substituir o meia do Real Madrid, caso haja algum problema, e capaz de mudar o resultado de uma partida difícil porque joga um futebol diferente da média.

Última sessão, prometo: sou do tempo que jogador de seleção era titular absoluto de seu time. Pois preparem-se, porque o time que Dunga levará para a África do Sul não terá brilho, não terá ninguém capaz de mudar um jogo sozinho, e terá um monte de reservas que – nos campeonatos locais – não sentam nem no banco. Salve Dunga!