Uma pirueta, duas piruetas…

Duplo Twist Carpado / Foto original: Photo by Clive Brunskill/Getty ImagesÀs vezes acontece da sua vida dar uma cambalhota. É, acontece com todo mundo. E nem posso reclamar muito, a última vez que passei por isso foi há dez anos.

Também é verdade que, daquela vez, não foi bem uma cambalhota, nem mesmo uma estrela. Foi mais como um duplo twist carpado e invertido. Virou tudo de cabeça pra baixo, de uma ponta a outra da vida, tudo ao mesmo tempo. E tudo se resolveu.

Dessa vez, foi uma pirueta semianunciada. Mesmo assim, dá um trabalho danado, a cabeça chega a parar de funcionar, a gente se perde como pensando na morte da pobre bezerra, fica tudo meio desorganizado e demora um bom bocado pros queridos neurônios voltarem a fazer suas sinapses. As mais simples, ora vejam.

Imaginem que há 15, 16 dias, o Armando me ligou. Eu estava dirigindo na hora, daqui a pouco ligo. Pode parecer mentira, mas só lembrei agora há pouco, já mais de 10 horas da noite de domingo, mais de duas semanas depois. Sei que parece mentira. Sem contar que ele já tinha me pedido um favor, coisa das mais simples, ainda há mais tempo. Estou devendo, vou pagar até terça, se é que ainda é necessário.

E não é só isso não. 1º de agosto foi aniversário da minha mãe. E da Aline, amiga há 25 anos, pouco mais. Tem como esquecer? Pois é… E sábado, o aniversário do Grilo. Como é que não liguei?

É claro que algumas noites sem sono com a cabeça fervendo e muitas aporrinhações para resolver ajudaram a enrolar a cabeça. Mas as coisas vão começar a voltar ao seu lugar, tenho certeza.

Então é isso. Basicamente um jeito estranho voltar a movimentar o cafofo e de pedir desculpas a quem preciso, mesmo que não tenha citado. Tô precisando trabalhar, to precisando velejar. Já passou da hora de colocar a vida pra andar de novo.

Lona… nuvens
Tomba no hospital
Uma pirueta
Uma cabriola
Uma cambalhota
Não tô bom da bola
E o pessoal
Delira…

Crônica de sexta-feira (15)

Conheci o d’Alverga na faculdade. É, faz tempo. Fotógrafo dos bons, entre outras coisas. Bom de papo, com ou sem copo. E trabalhamos juntos, incluindo uma aventura um tanto rocambolesca com um jornal de Maricá. Boas histórias…

Hoje a crônica de sexta-feira é dele. Que publicou há duas semanas. Mas foi numa sexta, então vale.

Meus sapatos

Sapato marromDe tanto meus familiares reclamarem que meus sapatos já estavam feios, que aqueles sapatos não eram de gente decente e o que não sei mais, tomei coragem de me separar deles, com muita pena. Afinal de contas, já éramos muito amigos.

Resolvi seguir as recomendações da família e, com vários nomes de sapatarias situadas em ruas próximas ao Largo de São Francisco, comecei a escolher os sapatos. Na realidade, algumas lojas vendem barato. Não sei se o produto é de boa qualidade, mas que é barato e bonito é. As ofertas eram tantas que começaram a me deixar em dúvida.

Olhava um sapato marrom, lindo de morrer, quando alguém fala próximo ao meu ouvido:

– Estou observando o senhor, e noto seu desejo em comprar um sapato.

– Perfeito, meu amigo, aquele par marrom, não é bonito? O que o senhor acha?

– Realmente o sapato é bonito, o senhor deve levar, e para combinar com o sapato, que tal o senhor dar uma olhada na vitrine ao lado e comprar umas camisas para combinar com seu sapato?

Achei a sugestão daquele senhor muito boa, era um senhor muito educado. A maneira como fui tratado foi sensacional. Comprei dez lindas camisas.

Voltei para namorar o sapato e uma mulher maravilhosa, dessas de capa de revista, para do meu lado e puxa conversa:

– O senhor está na dúvida, não?

– É, realmente estou.

– Isto pode ser algum problema nos olhos, sabia?

– Não, minha filha, não é não. Eu não tenho nada nos olhos.

– O senhor não gostaria de fazer um exame? O exame é grátis, o senhor pode estar com algum problema e não saber.

– Será que vale a pena?

– Eu garanto, o senhor não se arrependerá. Trabalho em uma ótica e quero ajudá-lo.

Olhei a mulher de cima a baixo e vi sua beleza… Era mais linda do que pensava. Fui fazer o exame, não custava nada mesmo. Além disso, eu ficaria mais alguns momentos com ela.

Aquela mulher era uma santa. Não é que eu estava mesmo ruim da vista!!! E se não fosse ela, nunca saberia que precisava usar três pares de óculos: um para quando houver sol, outro para quando não houver e o terceiro para usar à noite.

Com as camisas debaixo do braço e os óculos no devido lugar, já enxergava bem melhor para escolher os sapatos. Minha dúvida não era causada pelo preço ou pela qualidade, e sim pela visão. Voltei para a vitrine da sapataria, um rapaz se aproximou e começou a me explicar as vantagens terapêuticas de uma bicicleta. Interessei-me pelas condições de saúde proporcionadas pelo uso de bicicleta e comprei uma própria para competição, aro vinte e seis, de alumínio, vinte e uma marchas, cujo preço foi uma bagatela: três mil e quinhentos reais. As condições de pagamento não podiam ser melhores: duzentos e cinqüenta reais por mês, com sessenta meses para pagar, sem juros e sem correção monetária. Fora o seguro pessoal… Genial, não?

Só falta agora eu aprender a andar de bicicleta. Comentei isto com o rapaz, ele me falou para não utilizar essas áreas de lazer, porque todo mundo que lá já sabe andar de bicicleta. “O senhor tem carro?”

– Não, não tenho.

– Ora, eu também trabalho em um consórcio. O senhor vai comprar um carro lindo, um carro do ano. O que o senhor acha?

– A ideia é boa. Como é esse negócio de consórcio?

Depois de explicar como era simples, que só aumentaria duzentos por cento em cada mês durante um ano, que saía uns três carros por mês, dois por lance e, se não tivesse dinheiro para fazer o lance, com um pouquinho de sorte, poderia tirar no sorteio. O rapaz me felicitou por ter entrado para o consórcio:

– O senhor agora já pode ir para sua casa de campo andar de bicicleta.

– Mas eu não tenho casa de campo.

– Não? Oh!

Simplificando a conversa com esse rapaz, muito prestativo com a saúde do próximo, além da bicicleta e o consórcio, eu ainda fiz um negoção: coloquei uma dentadura, e comprei um terreno na beira da praia, um terreno em clima de montanha, três apartamentos na planta financiados pela Caixa Econômica Federal, uma casa em Cabo Frio, outra em Búzios, uma barraca de camping e o título de um clube campestre.

No caminho de volta para casa, comprei ainda uma televisão em cores de sessenta polegadas, um aparelho de som, DVDs, vários CDs de música gospel e encontrei a salvação para a minha alma em uma igreja neopentecostal, cujo dízimo mensal é só de trinta por cento do meu salário.

Voltei para casa feliz da vida e comecei a explicar como consegui a salvação para a minha alma, a maneira pela qual eu havia feito “um negócio da China” e as condições de pagamento, uma tranqüilidade.

– Imaginem vocês, cinquenta anos para pagar, tudo sem juros e sem correção monetária, as mensalidades acima do meu salário, só quatrocentos mil reais!

O pessoal em casa ficou maravilhado e, na euforia de tanto conforto, tanta salvação, tanta vantagem, ainda alguém achou um momento para perguntar:

– E os sapatos?

– Sapatos? Que sapatos?!

Everaldo d’Alverga, do livro Sem Compromisso, adaptado para o blog Reflexos do Imaginário.

Tijolo com tijolo num desenho lógico. Será?

Como vocês podem ver no post anterior, ontem eu arrisquei e me dei mal. Quer dizer, mais ou menos no fim das contas. Pelo menos, eu preciso e gosto de acreditar que aquele golzinho vá fazer realmente alguma diferença no jogo da volta. E não custa acender uma velinha pra São Judas, o Tadeu, porque – a bem da verdade – fomos massacrados e não levamos uma goleada daquelas por sorte. Sorte sim, o Felipe estar num dia inspirado é sinal de muita sorte. Enfim, ainda dá pra torcer e até acreditar na vitória no jogo da volta.

Mas não é da Copa do Brasil que trata esse post. Desde que a nova diretoria assumiu (aliás, quando é que devemos parar de chamar a nova diretoria de nova diretoria?), estávamos cansados de saber que teríamos um ano duríssimo pela frente. Ninguém nunca escondeu nada, a realidade não foi maquiada, e mesmo assim a turba apoiou. Parabéns pra todos.

Por caminhos mais tortos que o necessário, no final das contas, hoje temos um treinador que sabe o que está fazendo, que tem um plano de onde e como quer chegar. Ok, ele também faz suas cagadas como as substituições no jogo do fim de semana e a escalação inicial de ontem. Mas isso faz parte e vale aceitar que por mais planos que se tenha, às vezes eles não dão certo (como acontece com qualquer um de nós). Principalmente quando se depende dos outros.

E esses outros são os jogadores que ele tem à disposição. A realidade é que temos um elenco de médio para fraco que, num dia muito inspirado como no Fla-Flu, pode ter boas jornadas assim como pode ter dias terríveis. No mais das vezes, teremos atuações entre médias e fracas, essa é a nossa realidade. E daí?

Daí que a grande maioria dos 20 clubes que disputam o Brasileirão também tem times e elencos que variam entre o médio e o fraco. Portanto, numa grande conjunção astral, é até possível que o Flamengo conquiste alguma coisa ao final do ano. Mas se tudo seguir dentro da normalidade, não ganharemos a Copa do Brasil e terminaremos ali pela meiúca da série A, sem sofrimento pelo rebaixamento (time grande não cai), sem maiores aspirações.

O que gostaria de saber é como anda a administração da dívida do clube. A auditoria contratada apresentou uma conta de R$ 750 milhões. Desses, foram pagos 40 para conseguir as tais certidões de débito. E o que mais? Como estão fechando as contas mês a mês (salários etc.)? As arrecadações do clube estão sendo realmente potencializadas? Em tese ainda há espaço para um patrocinador na manga; desistiram ou ninguém quis? Quanto se arrecada de verdade com o sócio-torcedor? Onde está, para onde foi o dinheiro do Morro da Viúva? A Adidas lançou o uniforme, mas nada de linha casual; isso não ajudaria na arrecadação? Algo está sendo feito a respeito? E o preço dos ingressos? Será que, em alguns jogos especiais, não dá pra fazer uma promoção? Será que 70 mil pessoas a R$ 10 ou 15 não é melhor do que 10 ou 12 mil a R$ 40 (valor médio)? Que tal fazer um teste sobre isso na partida contra o Cruzeiro, na próxima quarta?

Por fim, a pergunta mais importante: quais as perspectivas reais para 2014? A massa comprou o barulho, entendeu a situação, aceitou que seria um ano de paciência. Mas tudo na vida tem limite e se no horizonte não houver alguma luz… O ano é de reconstrução, mas isso não pode virar obra de igreja.

Obra

O jogo

Como não sou sócio do clube, não adianta nada ficar dando pitaco na mais que rasa política rubro-negra. Em ano de eleição, o pau está comendo solto. Crises reais e plantadas e o diabo, tudo o que estamos acompanhando pelos jornais de folhas ou não.

Se dependesse de mim, do dentuço ao vice de futebol, além da equipe de maquetchim completa, colocava todo mundo na rua, a despeito de multas e quaisquer outros problemas. Mas, se sócio não sou, que dirá presidente… E como não tenho que arcar com multas, dívidas e outras conseqüências, é fácil falar.

De qualquer maneira, se alguém quiser ler o que um torcedor relativamente racional pensa sobre tudo isso, basta clicar aqui.

Então, vamos ao que importa. Lembro muito bem da entrevista que o profexô deu em 2010, dizendo que o plano para o ano seguinte era conquistar o hepta brasileiro. Declarações com clima de promessa. Que foi mudando conforme o time começou a desandar no meio da disputa. Confiando na falta de memória crônica do brasileiro em geral, inclusive e principalmente torcedores, começou o discurso que o projeto mirava a Libertadores.

Assim, o Flamengo entra em campo, logo mais, para jogar a penúltima partida de 2011. A última será na próxima semana. As duas, contra o horroroso Real Potosí – que só faz farofa graças aos 4.000m de altitude – decidirão o futuro do clube na competição continental.

Basicamente, é o resultado dessas duas partidas que dará sentido (ou não) ao resto do ano. Objetivamente, hoje é o jogo mais importante dos anos. Passado e atual.

A essa altura (com trocadilho), o recado é óbvio: que se dane o disse-me-disse; que se dane a grana em atraso; que se dane a ridícula queda de braço entre o profexô, o dentuço e seu irmão mercenário; que se dane a falta ou a chegada de reforços; que se dane todo o resto que não seja a postura de homens que os jogadores devem ter hoje.

Apesar do morro, o adversário é galinha morta. Então, basta entrar em campo para honrar o manto que o resto vem naturalmente. Dadas as circunstâncias, um empate ou até uma derrota simples não seriam resultados ruins. Desde que o Flamengo seja Flamengo.

P.S.: Luxemburgo já deu entrevista falando em cautela, se apoiando na desculpa da altitude. Vai ser ridículo, mas preparem-se para ver um time com 58 volantes hoje.

Perguntas (2)

Enquanto a Europa (especialmente a zona do Euro) vai para o saco e vemos países como Grécia, Itália e Espanha em frangalhos com taxas de juros que podem chegar aos 7%, gostaria – muito sinceramente – da ajuda de um especialista.

Como é que o Brasil será viável a médio e longo prazo praticando taxas sempre superiores a 10% (hoje, a Selic é de 11,5%)? Ou será que uma coisa não tem nada a ver com a outra?

Eu não entendo bulhufas disso.

Pro alto e avante

Antes que os ataques de pelanca prevaleçam, antes que calcinhas e calções sejam arrancados pela cabeça, vamos deixar uma coisa clara: só faltam 18 jogos para o hetpa.

Estamos no fundo do poço, o bagulho ficou esquisito. Perdemos a terceira partida no ano, a segunda no campeonato, estamos a cinco jogos sem vencer, nosso craque é desfalque na próxima rodada, tem um monte de gente machucada, não temos zagueiros suficientes. Ah, e estamos na quarta posição a quatro pontos do líder com 54 em disputa pela frente. Estamos em crise, né não? Chegamos ao fundo do poço.

E estar no fundo só tem um significado: não há outro caminho além da subida. Portanto, parem de chorar pelos cantos. Coloquem as louras pala gelar, caprichem nos acepipes e sorriam. Pro alto e avante!

Sobre o jogo, algumas conclusões óbvias: nosso banco não tem nem um terço da capacidade técnica do time titular; com essa quantidade de desfalques que estamos tendo nos últimos dias, não há time capaz de se entrosar; ninguém entra em campo com Rodrigo Alvim e fica impune; está provado, mais uma vez, que não há levantador de defuntos maior do que o Flamengo no futebol brasileiro.

O profexô – de quem não gosto mas sou obrigado a admitir – entende do riscado. Vai arrumar o time, colocar a bagaça em ordem e tudo voltará ao seu devido lugar.

Nosso próximo compromisso é contra o poderoso Bahia, time contra o qual empatamos vexaminosamente no primeiro turno, jogando em Salvador. Chegou a hora de mostrar a real diferença entre um time de futebol de verdade e uma coleção de renegados.

Durma com um barulho desses

Não entendo, juro que tento, mas não entendo. O Vasco venceu, parabéns. O Fluminense ganhou fora para tentar uma recuperação, parabéns. O Botafogo, como quem não quer nada, venceu de novo. Parabéns também.

Mas sabem o que a turma que diz torcer para esses times está fazendo desde ontem à noite. Ao invés de comemorar suas respectivas derrotas, estão pulando de alegria pela derrota rubro-negra. E, além de não entenderem as piadas, ficam passando recibo em listas e blogs por aí. Como até o Tchaka fez aqui.

Será que algum psicanalista passará por aqui e conseguirá nos explicar esse fenômeno?

A grana que ergue e destrói coisas belas

Falaê Kleber Leite, dizaê Plínio Serpa Pinto. R$ 65 milhões em dívidas jogados no colo da presidenta por conta do projeto de construção de estádio e shopping center na Gávea, que nunca saiu do papel. Na época, o tal consórcio que faria a obra adiantou R$ 6 milhões que foram gastos para trazer Edmundo. A obra não existiu e o clube não devolveu a grana.

O departamento jurídico do clube defendeu a tese de que foi doação. Pombas, se eu que sou um cara bom, de ótimo coração, não dou dinheiro nem pra minha mãe, por que esses caras dariam dinheiro pro Flamengo?

Da decisão de ontem, ainda cabe recurso. Mas, com o bom senso como referência, faz sentido o Flamengo ganhar essa causa?

Zico tá no Vasco, com Pelé

Ando meio chato, eu sei. O reflexo disso é que já há alguns dias não falo sobre nada agradável por aqui, como o fato de ter chegado em casa no outro dia e ver que minha filha aprendeu a colocar a língua pra fora e fazer careta pra gente. É de rolar no chão de rir.

O problema é que, muito por causa dela, ando meio exasperado com nossas possibilidades para o futuro próximo. No último post, em que me declarei absolutamente alarmado, escrevi que a candidata do governo anda tentando reescrever a história do Brasil, confiando na falta de educação e memória de nosso povo inzoneiro. Parece que passou em branco. Mas aí, a Miriam Leitão publicou o texto abaixo em sua coluna no Globo de ontem.

Em nome dos fatos

Inflação fora de controle quem enfrentou foi o Plano Real. O acumulado em 12 meses estava em 5.000% em julho de 1994. Quando a inflação subiu em 2002, no último ano do governo Fernando Henrique, pela incerteza eleitoral criada pelo velho discurso radical do PT, ficou em 12%. Ela foi reduzida pelo instrumental que o PT havia renegado. Isso é a História. O resto é propaganda e manipulação.

O PT e o governo Lula têm dito que receberam o país com descontrole inflacionário e a candidata Dilma Rousseff repetiu isso na entrevista do Jornal Nacional. O interesse é mexer com o imaginário popular que lembra do tormento da inflação. A grande vitória contra a inflação foi conquistada no governo Itamar Franco, no plano elaborado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, como todos sabem. Nos primeiros anos do governo FH houve várias crises decorrentes, em parte, do sucesso no combate à inflação, como a crise bancária. Foi necessário enfrentar todas essas ondas para garantir a estabilização. Nada daquela luta foi fácil. A inflação havia derrotado outros cinco planos, e feito o país perder duas décadas.

Todos sabem disso. Se por acaso a candidata Dilma Rousseff andava distraída nesta época, o seu principal assessor Antonio Palocci sabe muito bem o que foi que houve. Ele ajudou a convencer os integrantes do partido a ter uma atitude mais madura e séria no combate à inflação. O PT votou contra o Plano Real e fez oposição a cada medida necessária para consolidar a nova ordem. As ideias que o partido tinha sobre como derrotar a alta dos preços eram rudimentares.

Em 2002, a inflação subiu principalmente nos dois últimos meses, após a eleição. A taxa, que havia ficado abaixo de 6% em 2000, subiu um pouco em 2001 e ficou quase todo o ano de 2002 em torno de 7%. Em outubro daquele ano, o acumulado em 12 meses foi para 8,5%. Em novembro, com Lula eleito, subiu para 10,9% e em dezembro fechou em 12,5%. É tão falso culpar o governo Fernando Henrique por aquela alta da inflação — de 12,5% repita-se, e não os 5.000% que ele enfrentou — quanto culpar o governo Lula pela queda do PIB do ano passado, que foi provocada pela crise internacional.

Recentemente, conversei com um integrante do governo Lula que, longe dos holofotes e da campanha, admitiu que essa aceleração final foi decorrente do fato de que a maioria dos empresários não acreditava que o governo Lula fosse pagar o preço de manter a estabilização. Esse foi o mérito do PT. Foi ter contrariado seu próprio discurso, abandonado suas próprias propostas, por ter percebido o valor da estabilização. Esse esforço foi liderado por Palocci e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. A inflação entraria numa rota de descontrole que poderia até ter destruído o esforço feito nos oito anos anteriores se o governo Lula tivesse persistido nas suas propostas. A História foi essa e não a que a candidata Dilma Rousseff apresentou.

No caso da dívida, também a versão apresentada em palanque é diferente dos fatos. Por medo do governo Lula houve fuga de capitais e dificuldade de renovação de empréstimos a empresas brasileiras. Na negociação com o FMI, o Brasil acertou um empréstimo em que quase todas as parcelas seriam liberadas no governo Lula. Era para garantir um começo mais fácil para a nova administração. A conquista da confiança na condução econômica pela dupla Palocci-Meirelles fez com que a maior parte do dinheiro do Fundo nem fosse sacada porque os financiamentos voltaram. No final de 2008, houve de novo uma drástica suspensão do crédito externo para empresas brasileiras, mas não se pode culpar o governo Lula por isso. Como se sabe, foi a crise bancária americana e europeia. Com alguns números se pode construir versões fantasiosas, ou se ter a coragem de dizer a verdade, mesmo em época eleitoral, para não negar o mérito do passado, e mostrar o que se avançou.

Há virtudes na política econômica do começo do governo Lula. Nos últimos tempos há muitos defeitos também. Mas o importante agora é constatar que não é verdade que o país tenha crescido abaixo da média dos outros durante o governo Lula por culpa do governo anterior. O Brasil cresceu 1% em 2003. Depois cresceu forte em 2004. Nos anos de 2005 e 2006 o PIB variou 3,16% e 3,9% e o mundo crescia bem mais. Não é possível responsabilizar o governo anterior por isso, evidentemente. Depois de crescer 6% e 5% em 2007 e 2008, o Brasil teve uma pequena queda do PIB, de 0,19%, no ano passado, por causa da crise externa e não de qualquer erro do governo Lula. Um número melhor do que o da Rússia, e abaixo dos outros Brics.

Enfim, a História é o que a História é. Essas distorções da realidade de época de campanha são tentativa de manipulação da opinião pública. Ofendem a memória e a inteligência das pessoas. Seria preferível que a candidata governista falasse da boa notícia de que em 2010 o país cresce forte, com inflação baixa, e criando emprego. E não que menosprezasse as vitórias de países menores ou que falsificasse tão grosseiramente os fatos recentes da História do Brasil.

Quer dizer, além de se enrolar em números e outros dados sobre o que o seu governo fez de bom, ela se concentra em falar mentiras sobre o trabalho dos outros. É essa figura que você quer como presidente do Brasil?

Pois é, não é à toa que ando mesmo de mau humor.