Hora da escola (6)

Uma escola diferente não se faz apenas dentro de sala de aula, mas em todas as suas dimensões. Não adianta, por exemplo, discursos lindos ou projetos político-pedagógicos que, bem escritos em seus sites, não passam de publicidade ruim se não são colocados em prática em todos os níveis.

Felizmente há cada vez mais escolas tentando praticar essas “novidades”. É o caso da escola das minhas mocinhas, a Oga Mitá. Ela faz isso há 38 anos. Só.

Não, isso não quer dizer que seja perfeita. Isso não existe. Mas quando o discurso é colocado em prática, as coisas realmente acontecem. É o caso do reajuste zero, pelo segundo ano seguido. Dá pra imaginar como seria aguentar as mensalidades, mesmo com algum desconto, se tivéssemos acompanhado a inflação de mais ou menos 20% nesses dois anos?

Já contei em outros posts (a série completa está aqui) como funcionam as coisas por lá, a comissão de planejamento, as assembleias, a participação dos pais em todos os temas da escola. Porque a educação dos nossos filhos não pode se restringir a entrega-los e busca-los no portão. Precisamos nos envolver. E precisamos ser parceiros, trabalhar juntos. E muitas vezes é muito trabalho. Mas vale a pena, é mais um pedacinho do legado que vamos deixar para nossas crianças.

E a experiência mostra que a relação não pode ser Pais/Responsáveis contra a escola, mas Pais/Responsáveis COM a escola. Se a instituição em que seus filhos estudam não permitem isso, será que não está na hora de buscar alternativas? Pense a respeito.

Andamos falando tanto de mobilização, de democracia… Que tal praticar?

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Hora da escola

O texto abaixo foi publicado originalmente no dia 20 de novembro de 2010. Mas até hoje ele é disparado o post mais visitado, mas lido e comentado do blog, com mais de 5 mil visitantes únicos. E é por isso que resolvi republicá-lo, não por acaso na época de busca por escolas, de matrículas e rematrículas.

Na época procurávamos a primeira escola da Helena. Hoje, ela e Isabel seguem felizes suas vidas escolares. E é bem fácil deduzir que a Oga Mitá foi a escolhida.

Esse texto tem quatro filhotes e vocês podem encontrar todos eles clicando aqui e espero que sejam todos úteis.

E aos que decidirem visitar a escola, tenham a certeza que – além de serem muito bem recebidos – vão se surpreender. Basta estarem dispostos. E não esqueçam de dizer como chegaram à escola, que foi uma indicação do Gustavo, pai da Helena e da Isabel. A casa agradece de joelhos  ;).

Sabe aquela frase sobre o futuro de nossas crianças que já virou clichê: “não importa que mundo vamos deixar para nossas crianças, mas que crianças vamos deixar para o mundo”. Pois é, foi uma semana bem interessante essa que passou. Já peço desculpas antecipadas pelo texto longo que escrevi, mas achei que dividir essas experiências seria importante.

Já há alguns meses desde que a Mari começou a visitar escolas próximas de casa em busca de um bom lugar em que Helena comece sua vida acadêmica. E nesta semana fizemos um pequeno roteiro juntos. Como estou muito longe de ser um especialista em educação, minhas impressões refletem – simplesmente – o que percebi como pai em função do que gostaria para minha filha.

Construção

Foram cinco visitas nos últimos dias, teremos mais uma na segunda-feira. E em cada uma delas, olhos e ouvidos atentos às qualidades e defeitos. Como quando o ano letivo começar, em fevereiro, ela terá um ano e quatro meses, além de entender como é o processo pedagógico de cada uma, muita atenção às pessoas que possivelmente lidarão com nossa menina e com a estrutura oferecida, instalações etc.

A primeira visita foi à Oga Mitá. E algumas coisas interessantes chamaram muito a atenção. O primeiro ambiente, logo após passarmos o portão, é a biblioteca. A partir daí, não deveria ter sido surpresa encontrar, no sofá próximo à secretaria, uma menina confortavelmente instalada e concentrada no livro em suas mãos. Em horário de aula! Ao mesmo tempo, na pequena quadra, meia dúzia de quatro ou cinco crianças jogavam bola. A essa altura, Helena já andava pra lá e pra cá. E quando fomos fazer a visita propriamente dita e conversar com a coordenadora, ela já tinha se enturmado com as crianças de sua idade e ficou junto com a turma. Hummm…, foi o que pensei.

A linha de atuação da escola é baseada no construtivismo, o que – entre muitas outras coisas – incentiva a autonomia das crianças.

Hummm, continuei ruminando, quer dizer que é possível incentivar minha filha a pensar para que serve a tabuada ao invés de simplesmente fazê-la decorar que 7 X 9 = 63? É possível, mais do que ensinar, incentivar minha filha a decidir o que é certo para ela? Hummm…

Muitas questões

A segunda visita foi à Meimei, outra escola muito bem conceituada e que, em tese, também segue uma linha progressista. Fomos muito bem recebidos por todos e Helena, rapidamente, já estava mais uma vez entre as crianças. A estrutura da escola é bem legal, todas as pessoas muito simpáticas e tal, crianças nitidamente muito bem educadas, mas sabe aquela sensação de que algo não bate?

O que me incomodou foi um certo artificialismo, presente principalmente no discurso da coordenadora que nos recebeu. É que para ela tudo era uma questão. A questão do leve e pesado, do doce e salgado, do quente e do frio etc etc etc. Eram tantas questões e nenhuma resposta que fiquei ensimesmado. Alguém poderia dizer que o problema, então, não era a escola mas aquela pessoa. Mas, como lembrou a Mari, quem colocou aquela moça ali?

Três sapos

A sexta-feira foi bem movimentada, com visitas a três escolas. A primeira foi à J’Alevi. Mari já tinha visitado essa antes e, de certa forma, gostado. Na verdade, uma pequena escolinha tradicional, onde tudo funciona bem, profissionais simpáticos, crianças sorridentes e bem educadas. E bem perto de casa, pra ir andando. Mas aí, quem implicou fui eu. Um sobradinho acanhado, onde tudo é apertadinho e cheio de escadas. Pra mim, coisas que não combinam com crianças.

Logo depois, andamos mais 50 metros e chegamos à Sindicato da Criança. Fomos muito bem recebidos por uma das sócias da escola. A visita não ia mal não, muito pelo contrário, estava gostando mesmo do que via. Tudo muito simples, mas tudo bem feito e resolvido, até que entramos em uma sala e… “Haviam (sic) três sapos”.

A frase estava lá na parede, em um quadro em que as crianças, aparentemente, estavam aprendendo as primeiras noções de matemática. Depois dessa, precisa dizer mais alguma coisa?

Grande empresa

A última visita foi ao Mopi. É bem possível que, lá em 1973, quando a professora Regina Canedo fundou a escola, sua proposta fosse realmente brilhante. E se é inegável que a escola é conceituadíssima e acumula muitos bons resultados em sua história, minha impressão é de que – em algum momento de seus 37 anos – algo saiu dos trilhos.

Tudo é superlativo, o gigantismo é característica que grita aos olhos de quem circula pela escola. À primeira vista, a estrutura é sensacional e apesar de ser uma “escola vertical”, há espaço pra tudo. Mas como em tudo o que é grande demais, é nítida a impessoalidade no lidar com as pessoas. Sabe a diferença entre viajar e ficar numa pousada ou no Hilton? Foi o que senti.

Listo alguns detalhes que chamaram nossa atenção, infelizmente, sempre negativamente. Das escolas que visitamos juntos, foi a única em que Helena não conseguiu interagir com outras crianças. Foi a única em que vimos crianças correndo pelos corredores estabanadamente, esbarrando nos outros e sequer se preocupando em olhar pra trás para ver se estava tudo bem (pedir desculpas, então, nem pensar). Foi a única em que, antes mesmo de avaliar o desenvolvimento de Helena, já fomos avisados que ela teria que repetir a série (maternal 1 ou algo assim) em função de sua idade (porque ela teria 1 ano e quatro meses e o certo seria um ano e seis). Não fomos apresentados e não vi biblioteca, simplesmente não sei se existe. Funciona como uma grande corporação, terceirizando serviços como a alimentação, aulas de laboratório de ciências, aulas de inglês e sei lá mais o quê. É a única que em todas as suas salas há instalado um quadro board (primeira vez que vi uma redundância bilíngüe), usando a tecnologia como grande bandeira mas esquecendo que ela deve ser ferramenta ao invés de princípio.

Por fim, além de não encontrar qualquer coisa positiva, ainda é a escola mais cara.

O que queremos?

Nos recusamos a participar da neurose que tem tomado conta de muitos e muitos pais de nossa geração e escolher a escola em que Helena entrará com menos de um ano e meio imaginando em como isso se refletirá em sua colocação no vestibular. Também não queremos uma grife.

Em compensação, fazemos questão de um ambiente que seja agradável a ela, em que ela se divirta e aprenda de maneira natural, em que seja tratada como gente e não como a criança número 9 da lista de chamada.

Ainda lembro de uma troca de cartas entre meu pai e uma professora de português na minha quinta série, sobre uma questão de prova. Não acho que esse distanciamento funcione, não quero passar por algo parecido. Procuramos uma escola à qual tenhamos acesso, em que participemos ativamente do processo de educação de nossa moça, como parceiros que devemos ser, ao invés de entregá-la e buscá-la nas horas marcadas e vocês que se virem.

Ainda não tomamos qualquer decisão, ainda há outras escolas para visitar e algum tempo para pensar. Mas, como vocês podem ver, eliminar opções tem sido bem fácil.

Volta ao passado?

Largada Melbourne 2014Claro que não completamente, ou seria jogar fora todos os avanços realizados, conquistados até hoje. Mas as expectativas que as mudanças na F1 geraram, já foram para o saco. E olhem que estou escrevendo isso após o treino de classificação para a terceira corrida do ano. E serão 19.

Todo o regulamento é tão amarrado e tão cheio de detalhes que o espaço para desenvolvimento é limitadíssimo. A Mercedes nasceu de tal forma tão eficiente e com sua unidade de força tão superior às outras que, sem fazer força, colocam um segundo de vantagem no resto da turma.

E ninguém vai conseguir tirar essa diferença. Não tem jeito. E é por isso que falo em volta ao passado. Mas apenas conceitual, no sentido de ser um pouco (na verdade muito) mais aberto.

O negócio tem que ser interessante para as montadoras, pelo desenvolvimento de tecnologias que sejam úteis aos seus carros de rua? A categoria precisa passar uma imagem de que se preocupa com o resto do planeta?

Então o negócio é o seguinte:

– Todos os carros tem de ter motores híbridos, que gerem ao menos 30% de sua energia por meio de fonte alternativa.

– Todos os motores (ou unidades de força) podem gerar, no máximo, 700cv a 16 mil RPM.

– Todos os carros só podem consumir 120kg de gasolina por prova e 60kg por sessão de treinos, livres ou classificatórios.

– Todos os carros terão apenas seis unidades de força para toda a temporada.

– Limite-se as dimensões das asas, o número de jogos de pneus e o uso da eletrônica embarcada, e regula-se as questões de segurança (inclusive a proibição do efeito solo).

Daí pra frente, tudo liberado. Cada equipe desenha seu carro ao seu bel prazer, com difusor soprado ou não, por exemplo. O mesmo para os motores: se terão 6 ou 12 cilindros, em V ou em linha, turbo ou aspirados, não importa. Basta ficar dentro dos limites impostos de cavalaria e giros. Se vai usar diesel, etanol, metanol, elétrica ou água como fonte alternativa, problema de cada um.

Também libera-se a competição de borracha, com cada equipe encontrando seu fornecedor. A medida dos pneus, inclusive, apenas com limites mínimo e máximo. E permita-se a volta da equipe cliente de chassis.

Outra coisa que poderia voltar a acontecer é o aumento do número de equipes, ao máximo de 16, mas só 24 carros largam (no máximo). Aplique-se a regra dos 107% e pronto. Se só 22 conseguirem, largam os 22. Se os 32 marcarem tempos válidos, os 24 primeiros vão para a corrida.

Por fim, a cada três provas, uma sessão de treinos livres para quem quiser, nas segundas-feiras pós-GPs (além das 4 de pré-temporada).

No final do ano, a premiação é dividida entre todas as equipes, de acordo com suas colocações, que conseguirem largar e percorrer ao menos 75% de 5 provas.

E pronto, bota pra andar. Desconfio que ficaria mais divertido.

De palhaços a martinis

Sabem como é, o carnaval acabou mas não acabou. Então, o ano começou mas não começou. E já que é assim, vamos falar de algumas das coisas desimportantes mais importantes do mundo. Pelo menos pra mim, claro. Escola de samba e Fórmula 1. Não, e não vou falar da campeã carioca que homenageou Senna.

2014, nos dois mundos, se desenha diferente. Ora vejam que a União da Ilha foi a quarta colocada.

Quando foi campeã pela última vez, em 1982, a Império Serrano já avisava:

Super Escolas de Samba S/A
Super-alegorias
Escondendo gente bamba
Que covardia!

Os bons entendedores sabem que esse S/A aplicado ao samba é muito mais amplo que no mundo dos negócios. Taí a Vila que não nos deixa mentir. E não é por acaso que as surpresas sempre foram raríssimas. A mesma Vila Isabel, com a Kizomba de 1988, e a Tijuca, em 2010, foram as últimas escolas tradicionais a levar o caneco. E a Viradouro, com uma época fora da curva comandada por Joãozinho Trinta, venceu em 1997.

União da Ilha / Foto: Marcio Cavalcanti - facebook.com/marcio.fotogQuando assisti o desfile da Ilha, fiquei realmente emocionado. Nas devidas proporções, foi um espécie de Kizomba. Um desfile alegre, um enredo muito bem contado, um samba muito bom, e sem os luxos e ostentações das grandes escolas. Pelo contrário, muita originalidade e bom gosto. Conseguir se classificar entre as melhores não deixa de ser, mesmo que involuntariamente, uma espécie de recado do velho carnaval. Sim, é possível.

E o que isso tem a ver com a F1?

É que com o passar dos anos, os garagistas foram sumindo e as equipes se transformando em grandes corporações. Nada diferente do resto do mundo capitalista, não é mesmo? Mas temos ali um sobrevivente daqueles: Sir Frank Williams.

Aos trancos e barrancos, conseguiu garantir a sobrevivência de seu time e teve, em 2013, um dos piores resultados de sua história. Mas veio o ano novo, o regulamento novo, o acerto com a Mercedes e…

Não é que dentre os carros mais feios do mundo, o FW36 é bem nascido pra caramba? De quebra, fecharam um contrato com a Martini e o carro terá uma das pinturas mais bonitas do grid e, comemorando os 150 anos da marca italiana, traz de volta um ícone do automobilismo.

É fato que a equipe não tem a grana de uma Ferrari, Mercedes, McLaren e Red Bull para desenvolver o carro na quantidade e velocidade necessárias ao longo de todo o ano. Mas certamente vai fazer um estrago, especialmente no início, primeira metade da temporada. Será que conseguirá terminar entre as três ou quatro primeiras? Sinceramente, torço muito pra isso. E não, não tem relação direta com a presença de Massa no time. Mas também acredito que ele terá uma grande parcela do sucesso do time, se esse sucesso realmente acontecer. A ver, a ver. E boa sorte.Williams FW36 / Divulgação

Hora da escola (2)

O Quarto / Reprodução: Vincent van GoghUm dia, a mocinha de 3 anos chegou em casa contando:

– Pai, fui na Holanda!

Pois bem, essa história é pra turma – pediatras e educadores, inclusive – que continua achando que escola, pra molecada que ainda não está na fase de alfabetização, só serve mesmo pra passar o dia enquanto os pais são obrigados a trabalhar, brincando, comendo, tomando banho e tirando uma sonequinha. Basicamente, pouco mais que um guarda-móveis divertido.

Também vale praquelas escolinhas que gostam de discursos bonitos sobre projetos pedagógicos, apesar de professoras e coordenadoras que mal sabem falar português. E que, no final das contas, só servem mesmo pra passar o dia enquanto os pais são obrigados a trabalhar, brincando, comendo, tomando banho e tirando uma sonequinha.

No início do ano chegou a informação que o projeto do primeiro semestre seria baseado nos vegetais. E aí começaram a falar das plantas, plantaram feijãozinho no algodão e alpiste na meia, e fizeram uma visita ao Jardim Botânico. E daí, não sei como (pois não sou a mosquinha que gostaria), chegaram às frutas.

– Papai, você sabia que a Carmem Miranda morou no Arco do Teles?

Não, não sabia. E também não sabia de outras coisas sobre a cantora, que a mocinha ia descobrindo e nos contando. Só sei que, entre um tico-tico no fubá aqui e um bambu-bambu-lá-lá ali, não foram poucas as sementes de frutas plantadas lá em casa. Infelizmente, para meu bolso e meu paladar, o pomar não vingou.

E segue o baile e das frutas às flores, das flores ao girassol, do girassol a van Gogh, de van Gogh à frase lá do início.

– Pai, fui na Holanda!

Bendita internet. Aproveitando o interesse das crianças, usaram a rede para dar um passeio pelas ruas de Amsterdam, visitar o Museu van Gogh e sei lá mais o quê. O fato é que sem se aporrinhar para tirar passaporte, a mocinha ficou feliz da vida por sua primeira “viagem internacional”.

E o assunto não morreu. Num almoço de família, enquanto conversávamos a respeito, alguém lembrou que o pintor tinha um irmão, mas ninguém lembrava o nome dele. A mocinha, que a essa altura, mais pra lá do que pra cá, esparramada no sofá quase dormindo, levantou a cabeça só para ensinar:

– Theo!

Eu não sabia. Mesmo. E a cada dia sigo descobrindo que não sei muitas coisas interessantes e importantes. De quebra, enquanto fazia uma limpeza no armário na semana passada, já mais de dois meses depois, encontrei uma reprodução. Quando ela viu, reconheceu o estilo de pronto.

– van Gogh! – E sim, é sempre com exclamação mesmo, isso ainda me impressiona.

Mas, voltando a meados do primeiro semestre, enquanto descobriam o pintor, as crianças se encantaram pela tela O Quarto. E daí, uma bela reviravolta. Aproveitando o interesse dos pequenos, o professor usou o projeto Onde as crianças dormem, de James Mollison, para falar das diferenças, especialmente culturais, que existem. Daí, caminharam até o quarto do homem do campo e daí para o boi e daí para os folguedos das festas que encerraram o semestre.

Boi / Foto: Gustavo Sirelli

“O meu boi morreu
O que será de mim?
Manda comprar outro, ó maninha
Lá no Piauí”

Há dois dias, à mesa para o jantar, entendi que voltaram aos quartos e às diferenças. E sim, já estou curioso pra ver onde é que isso vai parar.

Não acho que tudo isso seja um assombro, muito pelo contrário. E a escola da mocinha não é a única em que se encontra esse tipo de trabalho. Mas por conta das conversas e experiências de muitos amigos, achei que era importante falar sobre isso. É um tipo de relato, de informação, que talvez ajude a alguém na hora de escolher uma escola ou mesmo na hora de se relacionar com a escolhida, do que se pode esperar e cobrar da escola cara que se paga por aí.

Entre alienações e perguntas

Você sabia que o Brasil pode ter, no futuro, 39 unidades federativas – 34 estados e quatro territórios, além do Distrito Federal? Você sabia que no dia 11 dezembro, daqui a pouco mais de um mês, poderemos já ter dois novos estados, com a divisão do Pará em três? Pois na tal data acontecerá um plebiscito em que a população local aprovará ou não a criação dos estados de Carajás (cuja provável capital será Marabá) e Tapajós (Santarém deverá ser a capital).

Alienado que sou, fiquei surpreso ao receber a notícia de amiga tão alienada quanto eu. Junto com a notícia, ela mandou algumas perguntas.

Será que faz sentido? O que leva um estado a querer se separar?

Não sou, nem de perto, especialista no assunto. Mas entendo que uma das justificativas seria a impossibilidade de desenvolvimento homogêneo, principalmente nesses estados gigantes em que – muitas vezes – há distâncias muito superiores a 1.000km de alguns municípios às suas capitais. Se em estados ‘desenvolvidos’ como o Rio as diferenças entre capital e interior são gritantes, imaginem nos rincões do Pará, Piauí, Maranhão etc.

Somem às questões político-econômicas, diferenças sociais e culturais entre algumas regiões e há aí um belo suco do qual um técnico competente construiria argumentos suficientes pró-divisões (para justificar os territórios, penso que estariam envolvidas questões de fronteiras, meio-ambiente, direitos sobre o solo etc.).

Mas a moça, a tal alienada como eu, mandou mais duas perguntas.

É questão de verba? Por que isso não sai nos jornais?

Aí, as análises partem da divagação. À última questão, sempre haverá alguém para gritar que “sim, saiu nos jornais sim! E na TV também!”. Mas é válido sublinhar que os dois alienados, eu e minha amiga, somos leitores um tanto compulsivos de notícias. Mesmo conscientes de que nunca é possível saber de tudo, também é fato que algo importante assim não teria nos escapado se tivessem recebido o devido destaque.

E chegamos às verbas: quem teria interesse na criação de todos os cargos – do governador ao oitavo escalão, passando pelas assembléias legislativas – que existem em um estado? Quem teria interesse em administrar verbas? Quem teria interesse em eleger mais três senadores por cada estado novo?

E voltamos aos jornais: quem não tem interesse em dizer para o resto do país que tudo o que é proporcional, do repasse de verbas ao número de deputados federais, precisará ser recalculado com óbvio prejuízo para os já existentes?

Enfim, só um amontoado de coisas para se pensar na cama, no sofá, no banco do carona…

P.S.: clique aqui para ver um infográfico sobre a evolução da demarcação territorial do Brasil.

O monstro da hidromassagem

E não é que esse meu canto anda bem freqüentado? A arquiteta e ex-secretária municipal de urbanismo Andréa Albuquerque G. Redondo deixou um comentário no post Verbetes e expressões (14), em que falo sobre a revisão do Plano Diretor da Cidade do Rio de Janeiro.

Além de muito atrasada e sendo preparada quase como um plano secreto do Cebolinha para derrotar a Mônica, sem as devidas consultas e participação dos cidadãos cariocas, Andréa conta que o vem por aí é um monstrengo. Abaixo, o artigo que publicou no dia 3 de julho, no Tinypaste.

P.S.: a foto com nuvens negras sobre a cidade não é por acaso.

O plano diretor e a sauna

O Rio tem Plano Diretor desde 1992. A lei está em vigor e em pauta. Como definido pela Constituição Federal, o plano “é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana”, uma lei de diretrizes cujos resultados dizem respeito a todos.

Os fluxos de crescimento urbano da cidade sempre foram seguidos de normas e projetos urbanísticos. Aqui a legislação urbanística é vasta e intrincada, sobram regras para construir. Além de compilar normas dispersas existentes, o Plano Diretor Decenal da Cidade do Rio de Janeiro teve outros méritos: incluiu novos mecanismos de controle do uso do solo, consolidou conceitos sobre Projetos de Estruturação Urbana, Preservação do Meio Ambiente e Proteção do Patrimônio Cultural já adotados, e fortaleceu princípios das políticas sociais.

Chama-se Decenal porque sua execução se daria em dez anos, prazo otimista para realizar tarefas complexas, tais como elaborar vários regulamentos. Previu-se também uma revisão a cada 5 anos, base para atualizações conforme a dinâmica da cidade exigisse.

A revisão e os regulamentos não foram feitos, mas não há lacunas. O Plano Diretor aprovado pela Lei Complementar 16/1992 e as normas correlatas vigoram, exceto as disposições revogadas automaticamente. Se cabível, a revisão deveria respeitar a essência de um Plano Diretor e ater-se às diretrizes de desenvolvimento urbano, acrescentadas de instrumentos previstos no Estatuto da Cidade.

Não é o que ocorre. A matéria que tramita na Câmara Municipal deveria tratar somente de questões urbanas, mas, por exemplo, uma estranha emenda versa sobre saunas conjugadas (?!). O que está em votação pelos edis é um Frankenstein criado com 1257 itens – emendas, subemendas e sugestões costuradas ao Substitutivo nº 3. Adiante surgiram 87 emendas anônimas e polêmicas. A volumetria livre para hotéis e o fim das áreas de Proteção do Patrimônio Cultural são novidades que pedem atenção: o cancelamento das propostas sem autor após clamor geral não evita o ressurgimento oficial ou sua apresentação em outro projeto de lei.

Recentemente a imprensa revelou a permissão para abrir ruas até a cota +100m, apontada como solução para evitar a ocupação irregular nos morros. Muitos consideram que a medida, ao contrário, estimulará mais invasões e desmatamento nas nossas frágeis encostas, aumentando riscos ambientais, prenúncio de novas tragédias.

Há mais: templos ficarão livres da prévia análise de impactos; prédios de 25 andares serão construídos em comunidades da Zona Norte; projetos não examinados em 30 dias estarão automaticamente aprovados; licenças de obras não serão canceladas mesmo que desrespeitadas.

O que poderia ser o aperfeiçoamento de um plano urbanístico de caráter geral está em vias de se transformar em nova lei, colcha de retalhos fruto da mistura de artigos, parágrafos, incisos, alíneas, itens, mapas e tabelas e adendos que somam quase 2000 itens, usados como base para a inserção de temas não pertinentes, o que torna impossível para a sociedade civil sequer vislumbrar o resultado, que pode ser danoso.

Mas, nem só de saunas e benesses trata o projeto: será obrigatório licenciar banheiras de hidromassagem domésticas, bizarrice que não cabe num Plano Diretor e o desmoralizam. Precisamos conhecer o texto final antes da aprovação, ou o monstro andará com as próprias pernas.

Andréa Albuquerque G. Redondo
www.twitter.com/andrearedondo