Ah, 2014…

Mussum_KeanuÉ, sei que a piada é velha e que todo mundo já cansou de ver a montagem aí ao lado, mas não resisti. E desde que recebi a imagem no zapzap que ela não me sai da cabeça, que comecei a pensar em como foi de verdade o meu 2014.

Que ano da porra… Não ganhei na mega sena, perdemos a Copa daquele jeito, o Flamengo foi ridículo, não velejei nenhuma vez e a Dilma ainda foi reeleita. Piadas à parte (a Dilma não é piada!), a turma que me conhece sabe que sou um bocado ranzinza, beirando o raivoso. Definitivamente não sou um seguidor de Pollyanna, “copo meio cheio é o cacete, o bicho tá quase vazio”.

Pois bem, resolvi tentar fazer um tantinho diferente e olhar com calma para o que aconteceu neste ano. E vou contar pra vocês, não tem sido nada fácil. Especialmente o segundo semestre. Tudo por conta duma feladaputa duma mentirosa, capaz de dizer uma coisa em cena aberta, com a sala cheia, olhando nos olhos de todo mundo, e depois não cumprir a palavra. Pra terminar o serviço com classe, ainda soltou alguns boatos ‘carinhosos’.

É, estar desempregado é uma bosta, ninguém tem dúvida disso. E eu estou. Mas comecei a olhar com mais carinho para toda a situação. Sim, a moça ainda é uma feladaputa sem palavra, mas não dá pra negar que – no fim das contas e apesar das dificuldades que não parecem estar perto de acabar – ela acabou me fazendo uma espécie de favor. Porque eu já estava há dez anos no mesmo lugar, tentando encontrar um jeito de sair, muito muito cansado. Então, essa confusão não deixou de ser uma espécie de oportunidade pra me mexer.

Vida que segue, pois. E seguiu bem bem, apesar das circunstâncias, vejam só.

Minhas filhas continuam crescendo bem e felizes, apesar do susto que foi a “cavíbula” da Isabel. E da família, pai, mãe, sogro, sogra, e todos os parentes e aderentes possíveis e imagináveis, não há o que falar, não tenho palavras pra agradecer.

De quebra, reencontrei uma turma que nunca saiu do meu coração, mas que não via há anos, décadas até. E os amigos mais próximos e até mais recentes… Definitivamente, não tenho do que reclamar. É claro que não vou nomear todo mundo, não caberia aqui.

Mas tem o Zé Luis e a Mayra e o Giorgio, sempre por perto, tomando conta mesmo. Tem o Alvaro e o Lucas, amigos velho e novo que tem feito todo o possível, o Saulo e a Moema, apresentada pela Alessandra, que mesmo com a distância de Brasília, também tem feito força. Sem contar a Isabela, amiga que virou uma parceira daquelas que aturam até minhas complicações. E a Paula, o Zuzo, o Octavio, a turma do Boteco 1 etc etc etc, e bota gente.

E trabalhos diferentes também apareceram, de ghost writer a professor, papel que não cumpria há muitos anos, quando substituí um amigo, e que definitivamente não posso mais deixar de lado. E nessa onda veio a Elephas e o presente gigantesco do Ricardo, toda a identidade visual da empresa.

Falando nisso, que belos regalos a vida entregou com as chegadas do Luciano (e sim, estou em dívida com Giorgio e Renata) e do Luis, filho do meu irmão MP e da Elísia.

Então é isso, o que comecei com a intenção de um exorcismo capaz de colocar todos os meus fantasmas pra fora, termina como um baita dum agradecimento a Papai do Céu.

No melhor clima tá ruim mas tá bom, até achando que o copo está pra lá de meio cheio, me despeço desse 2014 certamente inesquecível. Que todos nós possamos ter um Natal de paz e sorrisos e um 2015 muito melhor, quem sabe até redentor.

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Tudo tem limite

Eu que implico com Dunga e sua seleção até não poder mais, fiquei razoavelmente mais sorridente no dia em que o time da CBF passou por Brasília para o beija-mão antes da viagem para a África do Sul. Na foto oficial, nosso técnico aparece de cabeça baixa e nitidamente constrangido, sabedor de que aquilo ali era uma grande besteira que poderia ajudar muita gente, menos o seu time.

Pois hoje é um dia em que, não apenas Dunga, mas todo e qualquer brasileiro deveria ficar constrangido. Nesse momento está começando, em Harare, o primeiro de dois jogos-treino que a seleção faz antes da estréia na Copa.

Harare é a capital do Zimbábue. O presidente Robert Mugabe, apoiado por empresas duvidosas de países duvidosos, investiu US$ 1,8 milhão nessa partida, enquanto sua população tem 88% de desempregados, 25% dos adultos do país têm AIDS e a expectativa de vida da população é de 42 anos. E é claro que esse dinheiro não resolveria os problemas, mas qualquer tostão bem aplicado ajudaria muito.

Além disso, Mugabe (o sujeito sorridente da foto aí em cima) está no comando do país desde 1980, reeleito seguidamente em pleitos notadamente fraudulentos. Mas apesar de se apresentar como democrático, três milhões de cidadãos do Zimbábue estão refugiados na África do Sul, com medo de morrer mesmo estando além das fronteiras.

Mas alguém há de dizer que o futebol não pode se deixar influenciar por questões políticas. Então deve ser por isso que trocentas seleções foram convidadas para amistosos e para encerrar sua preparação para a Copa no Zimbábue e nenhuma aceitou. E deve ser pelo mesmo motivo, que futebol não tem nada a ver com política, que o ditador e seus ministros estão pajeando, desde o desembarque no país, jogadores que são ídolos mundiais.

Mas a gente sabe que há muita gente que não fica constrangida com nada. E muitas delas ocupam posições de destaque em organizações nacionais e têm até aspirações internacionais. Mas o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, deveria saber que para tudo há limites. Até para pão e circo.

Um modo novo de encher a barriga

bolsa-familiaCARISMA, CAPACIDADE de conquistar a confiança e o voto do eleitor é uma coisa; capacidade de governar, administrar, é outra. Esse é um dos percalços do regime democrático: a possibilidade de eleger-se um candidato carismático, que ganha a simpatia do eleitor, mas que não é um administrador competente ou não é honesto ou não tem gosto pela tarefa administrativa. Dependendo de alguns fatores conjunturais ou da habilidade desse personagem, pode ele se manter no poder por anos a fio, fazendo da preservação de sua imagem e da confiança do eleitor, sua tarefa precípua. Caso as circunstâncias o favoreçam, essa capacidade inescrupulosa de manipular a boa fé do povão pode gerar consequências altamente negativas para a sociedade, que terá sérias dificuldades para evitá-lo.

Esse tipo de líder surge, com maior frequência, em países onde a desigualdade social é mais acentuada, o que propicia o uso de medidas assistencialistas e demagógicas, que lhe garantem a popularidade e os votos. Certamente, atender a necessidades vitais da população carente tem seu lado positivo, desde que seja feito em caráter emergencial, seguido de medidas visando inserir o cidadão no mercado de trabalho, em vez de mantê-lo como um indigente que vive às custas do governo.

Como essa reconquista da autonomia do desempregado não interessa ao líder populista, a tendência é ampliar e manter os programas assistencialistas como investimento a fundo perdido, em prejuízo do crescimento econômico, da ampliação do mercado de trabalho e do progresso social.

O programa assistencialista, como toda intervenção no processo social, pode ter aspectos positivos e negativos. Os positivos, sabemos quais são; os negativos, às vezes, nos surpreendem, ainda que, se nos detemos a refletir, veremos que são quase inevitáveis. Tomemos como exemplo o programa Bolsa Família, que nasceu para servir politicamente ao presidente Lula. Isso ficou evidente, desde o início, quando ele mandou fundir os programas Bolsa Alimentação e Bolsa Escola, para fazer de conta que um programa novo estava sendo criado pelo seu governo.

Pouco lhe importou o fato de que a fusão dos dois programas, com objetivos essencialmente diferentes, prejudicaria a execução de ambos e dificultaria sua fiscalização. O resultado previsível não se fez esperar: parentes de prefeitos, de vereadores e deputados passaram a receber os benefícios a que não tinham direito nem deles necessitavam. Mas a coisa não parou aí: a engenhosidade popular pôs-se logo a serviço dos oportunistas. Hoje, à exceção talvez do governo, todo mundo sabe o que ocorre com o Bolsa Família, que abrange nada menos de 40 milhões de pessoas.

Inventaram-se os mais diversos modos de burlar as normas que o regem, chegando-se ao ponto de, quando o beneficiado pelo programa consegue um emprego, pede ao patrão que não lhe assine a carteira de trabalho, para que possa, assim, fazer de conta que continua desempregado. Vejam vocês a que leva esse tipo de ajuda demagógica, quando sabemos que ter a sua carteira de trabalho assinada pelo patrão sempre foi uma aspiração de todo trabalhador. A carteira assinada é imprescindível para comprovar o tempo de serviço e garantir a aposentadoria.

Aqueles, porém, que abrem mão disso, estão certos de que o Bolsa Família os sustentará pelo resto da vida, sendo, portanto, desnecessário aposentar-se. É como se já estivessem aposentados, uma vez que ganham sem trabalhar.

Um conhecido meu, que cria algumas cabeças de gado, contou-me que o vaqueiro de sua fazenda separou-se aparentemente da mulher (com quem tinha três filhos) para que ela pudesse receber a ajuda do Bolsa Família, como mãe solteira e sem emprego.

Ao mesmo tempo, embora já tivesse decidido não ter mais filhos, além dos que já tinham, mudaram de ideia e passaram a ter um filho por ano, de modo que a filharada, de três já passou para sete, sem contar o novo que já está na barriga.

Esse procedimento se generaliza. Um médico que atende num hospital público aqui do Rio, declarou na televisão que uma jovem senhora, depois de sucessivos partos, teve que amarrar as trompas. Com medo de morrer, aceitou a sugestão do médico, mas lamentou: “É pena, porque vou perder os R$ 150 do Bolsa Família”.

Pois é, ter filhos se tornou, no Brasil do Lula, um modo fácil de aumentar a renda familiar.

Em breve, o número de carentes duplicará e o dispêndio com o programa, também.

O Brasil precisa urgentemente de um estadista.

Ferreira Gullar

Fonte: Arquivo de Artigos etc.

Concordar que o Brasil precisa de um estadista é fácil. Difícil é achar o sujeito…