Halloween é o cacete!

Vocês sabem o que é essa tal festa? Vocês sabem que dia das bruxas é uma tradução vagabunda feita e adotada por aqui, mas que não mostra em nenhum aspecto o que é o Halloween? Vocês sabem qual é a relação entre celtas, gauleses e britânicos com essa festa? Vocês sabem o que os druidas e Todos os Santos tem a ver com essa festa? Vocês sabem qual é o significado daquela abóbora, o Jack o’Lantern? Vocês sabem o que os portugueses, a Coca e a Cuca têm com isso? Vocês sabem o que a Peste Negra, a Conspiração da Pólvora e o dia de Finados tem em comum?

Não, ninguém por aqui sabe. Mesmo se vocês fizerem como eu, indo até à Wikipédia ler a respeito, pouco tempo depois já terão esquecido quase tudo. Simplesmente porque não faz parte da nossa realidade, da nossa história, da construção da identidade brasileira. No entanto, escolas e papais e mamães – já há algum tempo – fazem muito esforço para fantasiar nossas crianças para o dia das bruxas. Que, claro, entram na onda e vão aproveitar a festa.

E alguém há de lembrar que o fenômeno de adoção/imposição do dia das bruxas por aqui é similar ao que aconteceu com os dias das mães, dos pais, das crianças, dos namorados e mais alguns por aí.

E eu respondo que estou cansado de saber que são todas datas criadas e incensadas comercialmente. Afinal, depois de vestir o próprio Natal com uma cara muito comercial, era preciso criar novos natais ao longo do ano. No entanto, nenhuma dessas datas muda a minha realidade ou agride a minha identidade. Afinal, homenagear mãe, pai etc. nunca é ruim. E as datas acabam como bons pretextos.

Depois de tudo o que já escrevi até aqui, é possível perceber o meu grau de intolerância com o assunto. Agora imaginem a seguinte cena: você está na sua casa, domingo à tarde, jiboiando no sofá assistindo o futebol ou lendo ou só ouvindo música ou qualquer outra coisa. Ao seu lado, duas cachorrinhas também fazem muito esforço apenas para existir. E toca a campanhia. E as cachorras saem em disparada, latindo como se o mundo fosse acabar.

No corredor, duas adultas. Uma delas, você nunca viu mais magra ou mais gorda. A outra, você reconhece e sabe que é aquele tipo de vizinho que cruza com você na portaria ou nos elevadores e nunca nem diz bom dia. Mesmo assim, tem a desfaçatez de bater à sua porta. Com elas, cinco ou seis crianças (só meninas). Todas fantasiadas de bruxinhas e com cestinhas em forma de abóboras. Basicamente, todas de uniforme. E, sem que nenhuma daquela quase dezena de pessoas saiba de verdade o que é o Halloween, “doces ou travessuras!”.

Dá pra imaginar o meu sorriso?

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Fim de papo

Já faz uma semana que acabou a bagaça e que o Flamengo conquistou o hexa. A ressaca está quase curada…

O campeonato foi, sem dúvida, o melhor dos últimos muitos anos. De toda a série de pontos corridos, certamente. Infelizmente, o equilíbrio que fez um campeão com menor aproveitamento da história e com a menor diferença de pontos para a turma que foi rebaixada. Isso é bom? Em tese.

A verdade é que, a cada ano, o nível técnico de nossos times é cada vez menor. Ou não teríamos um gordo, um farrista e um coroa de 37 anos entre os melhores do Brasil.

Apesar de muito inchado, nosso calendário está estabilizado já há algum tempo, o que deveria facilitar o planejamento dos clubes – equacionando dívidas, fortalecendo as divisões de base etc. – e a atração de novos investidores. Mas parece que nossos dirigentes não estão muito aí pra isso, o que não é de causar surpresa.

Independente disso, e apesar do que meu primo atleticano, recalcado e invejoso, disse, a conquista rubro-negra não foi uma cagada. Afinal, o Flamengo foi o que teve o melhor aproveitamento nos confrontos diretos entre os oito primeiros do campeonato. Assim como é fato que, principalmente, Palmeiras e São Paulo fizeram muita força para perder o campeonato. E perderam.

Pra encerrar minha participação no Brasileirão 2009, resolvi dar uns pitacos – o post ficou comprido demais, eu sei –  sobre todos os clubes que participaram dessa edição e sobre os quatro que vão subir. Apenas pequenas opiniões sobre alguns detalhes.

Série B

– Vasco: fez o que tinha que fazer, mas o time precisa melhorar muito para não correr risco de voltar;

– Guarani: quase foi grande um dia, até que virou io-iô. Será um dos enigmas de 2010;

– Ceará: se não voltar para a segundona, correrá riscos até o fim. É a sina dos clubes nordestinos, sem poder econômico para formar um grande time;

– Atlético-GO: absolutamente imprevisível. Time de empresários, como o Barueri. Pode surpreender e pode não fazer nem cócegas.

Série A

20º: Sport (31pts / 7V / 10E / 21D / 27%)

Se foi rebaixado na última posição, não se pode falar em injustiça. O time é horroroso e, para completar, sua queda é uma benção para todos os clubes, pois não precisarão jogar naquela campo de roça da Ilha do Retiro.

Como a campanha do clube foi um fiasco, seu presidente resolveu tapar o sol com a peneira e tirar o foco de suas mazelas tentando criar um onda sobre o título do Flamengo. Disse que processaria todos que apontassem que o Flamengo é hexacampeão.

A discussão provocada pelo presidente do clube pernambucano só serve pra criar mais confusão, acirrar ânimos etc., em função de algo que não tem qualquer justificativa lógica: o Sport ter sido proclamado campeão brasileiro de 1987 quando não foi, sequer, campeão da segunda-divisão. A história completa do que aconteceu está aqui.

19º: Náutico (38pts / 10V / 8E / 20D / 33%)

Não há o que dizer sobre Timbu, além de destacar o Carlinhos Bala (que não acredito ser capaz de ser destaque em um time grande de verdade) e o alívio de todos os clubes por não ter que jogar no gramado ridículo dos Aflitos, mesmo caso do Sport. Não por acaso, junto com o eterno rival, levaram Pernambuco embora da primeira divisão.

18º: Santo André (41pts / 11V / 8E / 19D / 35%)

A única coisa relevante em sua história é a conquista da Copa do Brasil sobre o Flamengo. Apesar do vexame rubro-negro, não é estranho nas copas nacionais que juntam times de todas as divisões, a conquista por clubes nanicos. Não se tornam relevantes por isso e esse é o caso. Deus sabe como chegou à Série A, mas o importante é que já foi embora.

17º: Coritiba (45pts / 12V / 9E / 17D / 39%)

Um exemplo clássico de um time pequeno que se acha grande. Talvez seja grande no Paraná, estado que – verdade seja dita – não tem qualquer relevância para o futebol nacional. Se acha grande porque ganhou um brasileiro no longínquo 1985, algo tão estranho quanto ter o Bangu como adversário na final. Foi tão insólito que o Maracanã ficou absolutamente lotado por torcedores de todos os clubes do Rio, em prol de um clube que tinha, sim, um grande time bancado por um bicheiro. Enfim, como último ato de sua participação no certame de 2009, sua torcida fez o favor de confirmar o quanto o clube, o time e ela própria são pequenos.

P.S.: Alguém reparou a grande escolha que fez o Marcelinho Paraíba, trocando o Flamengo pelo Coxa?

16º: Fluminense (46pts / 11V / 13E / 14D / 40%)

É verdade que, com a épica arrancada, não merecia mesmo cair. Mas é bom não esquecer a dívida que o Fluminense tem com o futebol brasileiro, pois disputou a terceira divisão e, com a criação da Taça João Havelange, pulou direto para a primeira. Também é fácil compreender a comemoração, mas é bom colocar o pé no chão e entender que, se muita coisa não mudar, o ano que vem será igual ou pior.

15º: Botafogo (47pts / 11V / 14E / 13D / 41%)

Depois de voltar à primeira divisão, vinha evoluindo, mas… Só não dá pra entender porque estão comemorando tanto. É bom que abram bem os olhos, não ganharam nada. Só não caíram de novo. Para o futuro, a receita é a mesma do Fluminense: mudar muita coisa, se organizar, planejar etc.

14º: Atlético Paranaense (48pts / 13V / 9E / 16D / 42%)

Não fede nem cheira. Chamado de furacão, na verdade não passa de uma brisa. Mesmo assim, só quando jogaem casa. Comoseu rival alvi-verde, só é grande localmente. Também já ganhou um brasileiro (a história da humanidade tem mesmo mistérios insondáveis), mas o conjunto da obra não é nada relevante na história. Como sua campanha em 2009. Pelo menos, não caiu.

13º: Vitória (48pts / 13V / 9E / 16D / 42%)

Apesar de muita gente achar que aquele canto do mundo é uma dimensão paralela, a Bahia é um estado do nordeste. Quando lembramos onde está seu arqui-rival, então, só o fato de estar na série A já é uma vitória (com trocadilho). Seu único mérito no campeonato foi ter o saldo de gols melhor que o Atlético Paranaense:-6 a-7. Graças a isso, se classificou para Copa Sulamericana.

12º: Santos (49pts / 12V / 13E / 13D / 42%)

Quando falo que os paulistas, em geral, são um povo bem estranho, meus amigos que moram do lado de lá da Dutra reclamam. Mas que outro povo seria capaz de chamar seu clube de Peixe e adotar uma baleia como mascote. Será que eles faltaram a aula de biologia no primário? Enfim, esse enorme nariz de cera reflete bem o que foi o Santos nesse campeonato: quase nada a declarar. A campanha medíocre serviu para duas coisas: se livraram do presidente (apesar do tumulto euriquiano nas eleições) e de Wanderley Luxemburgo.

11º Barueri (49pts / 12V / 13E / 13D / 42%)

Baruequem??? Pois é, uma distorção provocada pelo poder da grana que ergue e destrói coisas belas, como diria um baiano. O time do interior de São Paulo, criado por empresários apenas para dar lucro, até que fez campanha razoável. E só. Ficou à frente do Santos graças ao saldo de gols. Foi o clube com a menor média de público do campeonato e, no primeiro turno, o “clássico” contra o Santo André,em Santo André, foi assistido por 847 testemunhas.

10º Corinthians (52pts / 14V / 10E / 14D / 45%)

2009 foi o ano da volta, depois da passagem pela segundona. A base do time campeão da Série B foi mantida e chegaram alguns reforços, o gordo entre eles. Ganharam o paulistinha e a Copa do Brasil. Aí, com a vaga para a Libertadores garantida e a saída de alguns jogadores no meio do ano, não houve Mano Menezes que conseguisse reorganizar o escrete e, pior, manter os jogadores interessados em um campeonato que não conseguiriam conquistar. Resumindo: passou pelo Brasileirão a passeio.

9º Goiás (55pts / 15V / 10E / 13D / 48%)

Um dos cavalos paraguaios de 2009. Com uma base razoável, fez algumas contratações interessantes, como Fernandão, e até pareceu que cumpriria a eterna promessa de ficar entre os grandes. Alguns excelentes resultados e, de repente, lá estava o time do cerrado no G4. Não durou muito. Fraquejou pelo meio do segundo turno e abandonou a disputa pelos primeiros lugares. No final, acabou como fiel da balança. Empatou com o Flamengo no Maracanã e parecia ter sepultado o sonho do hexa. Na semana seguinte, quando ninguém esperava, sapecou4 a2 no então líder São Paulo, deixando a disputa do título praticamente limitada a Flamengo e Inter.

8º Grêmio (55pts / 15V / 10E / 13D / 48%)

Um time de extremos. Terminou o Brasileirão invicto em casa, mas só ganhou um jogo como visitante. Por fim, classificado para a sulamericana, uma copinha que todo mundo comemora quando faz campanha pífia no brasileiro, mas que todo mundo reclama na hora de jogar. Acabou chamando a atenção pela confusão ‘entrega X não entrega’ o jogo contra o Flamengo, na última rodada. Tudo isso porque o rival colorado precisava de, ao menos, um empate no Maracanã para que superasse o time da Gávea. A torcida do Grêmio, então, começou a campanha do entrega. No final, nada demais aconteceu. Apesar de um mistão, os gaúchos deram um belo susto do Flamengo, fazendo um a zero. Mas não aguentaram a pressão e todo mundo sabe o que aconteceu.

7º Atlético Mineiro (56pts / 16V / 8E / 14D / 49%)

O pai de todos os cavalos paraguaios. Depois da glória de conquistar o primeiro brasileiro em 1971, tudo o que o Galo conseguiu foram três vices. Neste ano, prometeu, prometeu, prometeu… Liderou o certame e fez até um dos seus artilheiros, mas – como de hábito – não conseguiu nada. Nem a vaga na Libertadores.

6º Avaí (57pts / 15V / 12E / 11D / 50%)

Tai uma surpresa agradável. Deus sabe se continuará assim em 2010, mas muita gente duvidava que o time catarinense faria algo além de brigar para não cair. No final, uma campanha mais do que digna sob o comando de Silas, que se mandou para o Grêmio. Os destaques do time, além do técnico, são curiosos: o atacante Muriqui foi quem mais apanhou durante o ano, enquanto seu companheiro Ferdinando, volante, foi o segundo que mais bateu.

5º Palmeiras (62pts / 17V / 11E / 10D / 54%)

O grande campeão do Grande Prêmio de Assunção. Liderou metade do campeonato, teve cinco pontos de vantagem por várias rodadas, disputou o título até o último jogo e, no final, nem se classificou para a Libertadores. Parabéns ao presidente Beluzzo por suas declarações fabulosas, parabéns ao Muricy pela autosuficiência transbordante, parabéns ao time que não agüentou a pressão. Resumindo, um puro-sangue paraguaio.

4º Cruzeiro (62pts / 18V / 8E / 12D / 54%)

Um daqueles clubes que sempre começam o campeonato dando pinta de favorito. Claro, segundo todos os especialistas de jornais, rádios e tevês. O time realmente não é ruim (para o nosso nível, claro) mas oscilou muito durante o ano. E até craque freqüentando festa de torcida organizada de adversário aconteceu. Apesar de uma miniarrancada nos últimos jogos, chegou à última rodada dependendo de combinação de resultados para chegar à (pré)libertadores. E o porco paraguaio entregou a vaga de mão beijada.

3º São Paulo (65pts / 18V / 11E / 9D / 57%)

Deitou sobre a fama de time eficiente, que mesmo jogando mal, faz ao menos um gol e não leva nenhum. Enfim, um modo medíocre de pensar o futebol. Entre os times da ponta, foi o que menos ganhou pontos dos outros líderes enquanto perdia poucos pontos para os pequenos. O problema é que neste ano, com o campeonato nivelado (por baixo), não foi tão efetivo mesmo contra os pequenos. Além disso, um elenco extremamente limitado, com atletas (paulista adora chamar jogador de futebol de atleta) que jogam como robôs. Como Ricardo Gomes não é tão bom quanto Muricy, o time não teve força para chegar ao título que esteve em suas mãos. Só valeu porque se classificou para sua trocentésima Libertadores consecutiva.

2º Internacional (65pts / 19V / 8E / 11D / 57%)

Já há algum tempo é apontado como um dos favoritos todos os anos. Mas como é que um time que, hoje em dia, pode ser descrito como a versão gaúcha da fusão entre Vasco e Botafogo pode ser campeão? E ainda por cima com Mario Sérgio Pontes de Paiva como técnico.

Comparei a Vasco e Botafogo porque, com o resultado deste ano, o Inter conseguiu a expressiva marca de ser penta-vice. Além disso, desde que o inter perdeu o título para o Corinthians, no campeonato da máfia do apito, só faz chorar. Neste ano, seu vice de futebol chegou a divulgar um DVD com os pseudo-erros cometidos por árbitros contra o time do sul. Isso, às vésperas da final da Copa do Brasil. Resultado? Vice.

1º Flamengo (67pts / 19V / 10E / 9D / 58%)

No meio do campeonato estava na 14ª posição e ameaçava passar o ano fugindo do rebaixamento. Além disso, um monte de confusões dentro do clube, em ano eleitoral, só fazia atrapalhar. Pra completar, Cuca e sua estranha relação com os jogadores.

Aí Kleber Leite deu o fora, Cuca caiu, Andrade foi efetivado e começou a recuperação de vários molambos do time, chegaram Pet, Maldonado e Álvaro. O time encaixou e, como quem estava na ponta não demonstrava querer o título, parecendo até que não queriam ser campeões, o Flamengo foi chegando, foi chegando… O resto vocês já sabem.

Agora é rezar que não seja feito um desmanche, que cheguem três ou quatro reforços de verdade e que a nova presidente Patrícia Amorim consiga dar um jeito no Flamengo. Porque se tudo for feito como deve, no futebol, nos esportes olímpicos e no resto do clube, poderemos nos preparar para comemorar durante muitos e muitos anos, começando pela participação na próxima Libertadores.

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Depois desse quase testamento, poderia prometer ficar um bom tempo sem falar de futebol por aqui. Mas como o risco de não cumprir é enorme, é melhor ficar quieto. Afinal, a programação inicial é estar no Maracanã, na festa de fim de ano do Zico, em que será formado um time com jogadores que participaram dos seis títulos do Flamengo. Sinceramente, é bem provável que não resista a fazer algum comentário depois disso. A ver.

Sem frescuras, sem maquiagem

Andrade estreou como técnico efetivo do Flamengo no dia 26 de julho. Já tinha sido interino algumas vezes, funcionário do clube há muito tempo, assistente de vários técnicos. Naquele dia, depois da vitória sobre o Santos, o Tromba saiu de campo chorando, acreditando que aquela vitória era uma justa homenagem ao Zé Carlos, o Zé Grandão, falecido na véspera, vítima de um câncer.

Pouca gente acreditava que Andrade era o cara indicado para assumir o Flamengo naquele momento, que acabaria se queimando.

Nos três jogos seguintes, três derrotas. Apesar de ter balançado no cargo, foi colocando o time nos eixos, culminando com a arrancada até a ponta da tabela.

Se tudo der certo no domingo, Andrade entrará – mais uma vez – para a história do futebol brasileiro. O texto abaixo, mais um pinçado nessa tal de blogosfera, explica. E mesmo que tudo dê errado (pé de pato, mangalô três vezes), não vejo como não ser reconhecido como o melhor técnico do campeonato.

O Orfeu das pranchetas

O Campeonato Brasileiro de 2009 escreve o derradeiro capítulo do livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho, clássico de 1947 do irmão de Nelson Rodrigues.

O palco do épico curiosamente será o Maracanã neste domingo (6/12), no duelo entre Flamengo e Grêmio. No Maracanã, justo no estádio batizado de Mário Filho, o nome do escritor. Uma coincidência emocionante.

O protagonista é o mineiro Jorge Luís Andrade da Silva, o Andrade, ex-jogador do Mengo da geração vitoriosa dos anos 80, que formou uma das armações mais compactas e habilidosas do Brasil, ao lado de Zico e Adílio.

Andrade poderá ser o primeiro técnico negro campeão brasileiro. Foram raros, foram poucos os que regeram a casamata do estádio. Ele põe fim ao apartheid da última hierarquia do esporte. Até o exército foi mais justo antes.

Não há negros no comando dos nossos principais times. Existem preparadores físicos, assistentes, dirigentes. Mas nunca existiu um negro mandando numa grande esquadra, organizando taticamente o elenco, dando a palavra final sobre a escalação. É como se ele pudesse chefiar com a bola nos pés, não fora do campo. Como se o negro fosse um operário, vetado como engenheiro, proibido como arquiteto das emoções das arquibancadas. Como se relegasse ao negro o papel de ator, não permitindo seu desempenho como cineasta, barrando a função autoral e a inteligência operística.

Mesmo depois de Leônidas, Zizinho, Domingos da Guia, Didi, Garrincha e Pelé, o negro era um tabu como treinador dos maiores clubes. E pensar que a mudança demorou a acontecer nas planilhas. Dentro de campo, estava resolvida na década de 50. Segundo Mário Filho, o futebol passou por três grandes fases: 1900/1910 (elitização), 1910/1930 (exclusão de negros; Vasco é o primeiro time a adotá-los e lutar contra a discriminação) e 1930-1950 (ascensão social dos negros e liberdade racial).

Está caindo o último bastião do racismo no país. Acabaram as restrições.

Andrade é o Orfeu das pranchetas. Realizou uma revolução no vestiário, uma revolução de abrigo, só comparável à grandeza heroica de um Pelé fardado. Desde 2004, espera sua chance de efetivação no Flamengo. Já salvou o time da degola como interino, já foi suplente diante das demissões de Celso Roth, Joel Santana e Ricardo Gomes. Durante cinco anos, engoliu sapos, recompôs diplomaticamente suas frustrações e expectativas, aceitou passivamente os interesses das bolsas de valores. O folclore conta que Cuca o colocava para completar a barreira nos treinos, durante a cobrança de faltas.

Andrade é o principal personagem. Não será Petkovic ou Adriano. É ele. Com seu temperamento discreto, abalou a onipotência dos supertécnicos como Luxemburgo e Muricy, mostrando que altos salários não significam sucesso. É o gracioso urubu no meio das garças à beira do gramado. Abre passagem a uma nova geração de estrategistas das categorias de base. Indica que os responsáveis pela entressafra alcançam fartas colheitas. Não briga com a imprensa, não grita mais do que o normal, não arma segredos de Estado, não se escandaliza com as críticas. Difere do tom casmurro e embirrado de parte dos seus colegas e da histeria autoritária das estrelas de terno e gravata. Não é paranóico, não se vê perseguido e injustiçado nas coletivas. Tem samba no sangue, uma alegria mansa, um amor antigo pelas redes. É resolvido o suficiente para suportar qualquer pressão. Escuta mais do que fala. Porta-se com a audição de um juiz, longe da tradicional oratória de um promotor. Não é por acaso que faz acupuntura nos ouvidos.

Ao assumir o comando em julho, Andrade retirou o rubro-negro de baixo da tabela, conseguiu um aproveitamento de 72,5% em 17 jogos.

Mário Filho deve encontrar agora uma posição confortável no túmulo. Graças a Andrade, lavamos definitivamente o pó-de-arroz da pele.

Fabrício CarpinejarFutebol é literatura

De novo

E em uma semana que devia ser totalmente dedicada ao Flamengo, estou cá a falar do Fluminense que, ontem, perdeu mais uma final para a LDU.

Mas antes de falar do jogo de ontem, vale lembrar o que aconteceu na primeira partida, disputada em Quito, a 2.850 metros de altitude. Muita gente, justamente por ter que subir o morro e pela maratona que o time vem enfrentando há, mais ou menos, dois meses, defendeu a tese de se levar o time reserva. Fui contra, tinha que ir com tudo mesmo, do jeito que foi.

Era meio óbvio que o Fluminense perderia a primeira partida, só não se esperava que fosse de cinco. Principalmente depois de sair ganhando. O que me incomodou naquele jogo foi a falta de inteligência do Fluminense. Porque fez o primeiro gol da partida depois de um chute de fora da área, que deu rebote. Porque a LDU fez três dos seus cinco gols chutando de média e longa distância.

E sabem quantos chutes de fora o Fluminense deu, além do que originou o gol? Nenhum. Poderia perder de cinco do mesmo jeito, mas poderia ter feito também mais um ou dois gols.

E aí foi a campo ontem precisando fazer quatro para levar a decisão à prorrogação. Quase impossível? Talvez, mas fez três. E ainda tinha um jogador a mais em campo. E aí, o capitão e artilheiro do time, com experiência internacional, Copa do Mundo nas costas, fica nervosinho e dá uma cabeçada no juiz na hora de decidir a partida!!! É claro que, mesmo que Fred continuasse em campo, o Fluminense poderia não conseguir fazer o gol que precisava, mas ele não podia ter feito aquilo. Uma vergonha.

Mas a culpa não é toda dele, claro. Afinal, um time que tem Diguinho como titular absoluto não tem o direito de aspirar muita coisa mesmo não. Até quando acerta, como no gol de ontem, ele erra. Afinal, chutou torto, na direção da bandeirinha de escanteio, e deu a sorte da bola desviar num zagueiro. Depois, roubou trocentas bolas e devolveu quase todas, em passes errados de dois metros. E, pra completar, Rui ‘Cabeção’.

Eu que não sou tricolor e mesmo assim estava torcendo para o Flu, fiquei com uma dúvida: onde estavam Kiesa e Tartá? Machucados, não foram inscritos ou o Cuca é maluco? Se alguém puder me dizer, agradeço.

É claro que, mesmo perdendo o título, o time está de parabéns. Pela maratona que vem enfrentando, pelo espírito guerreiro de ontem, pela torcida que tem dado grandes espetáculos.

Mas domingo tem a última decisão do ano e o único jeito de não depender dos outros é vencendo. Será que o time agüenta? Torcerei para que sim. Mas é bom lembrar que o Fluminense tem uma dívida grande com o futebol brasileiro. Vale lembrar que quando foi rebaixado pela primeira vez, houve aquela cena ridícula do champagne para comemorar a virada de mesa. E quando disputou e venceu a terceira divisão, não disputou a segunda, pulando direto para a primeira, no ano em que foi criada a Taça João Havelange. Então, injusto não será. Aguardemos.

Tem regulamento?

fla1Faz exatamente uma semana que não pinto por aqui. E o que aconteceu de relevante nessa semana? Nada além do que já vinha acontecendo. Mesmo com o recesso, a chuva de denúncias contra José Sarney e sua prole continuam; Lula que, como presidente da bagaça, deveria ser um baluarte da honestidade e da luta pela justiça, defende o homem do bigode até não poder mais; mais gente morreu de gripe suína no Brasil e, apesar disso, o discurso oficial mantém a idéia de que está tudo sob controle. Ou seja, mais do mesmo.

Além disso, andava meio de mal humor a respeito do Flamengo, meio de saco cheio das briguinhas da Fórmula 1 e já não velejo há muito tempo. Ou seja, nenhum grande prazer sobre o qual bostejar. Mas aí (desculpem o cacófato), o Cuca caiu.

Não seria nenhuma grande novidade se, junto com a demissão do treinador, não explodisse hoje uma matéria sobre os bastidores do Flamengo, o mau relacionamento dele com os jogadores e, pior, a maneira como ele agia. Resumidamente, um baita traíra filho da p#*@&a!

Como não estava lá, não sei se é verdade. E como todos sabemos, toda história tem, no mínimo, duas versões. O estranho é que até agora o ex-técnico rubro-negro não veio a público se defender.

Mas sobre o quero falar aqui é outra coisa. O Flamengo é realmente um clube estranho. Vejam que há um presidente (afastado), presidente-interino, vice de futebol e gerente de futebol (já não sei mais se ainda existe o supervisor de futebol). E faz-se a pergunta: quem manda no futebol do Flamengo? Quem é o dono da bola? Aparentemente, ninguém. Pelo menos quando o assunto é sério. Porque, apesar do que diz a matéria sobre o comportamento do Cuca, quando alguma coisa séria acontecia, o responsável por explicar tudo para a imprensa (na maioria das vezes, defendendo jogadores que cometeram erros) era o técnico.

Então me digam: isso pode funcionar? Em pleno século XXI, na era do profissionalismo absoluto, como uma estrutura dessas pode fazer o Flamengo melhorar? Alguns vão dizer: “é ano de eleição, tudo fica turbulento.” E eu respondo, muito mal educado: “não fode! Se é assim, está provado que ninguém pensa no Flamengo, só no poder que podem ter e no dinheiro que podem ganhar ao vencer uma eleição.

Sobre o caso específico da relação entre o Cuca e o elenco de jogadores, pesquei um trecho do Urublog:

Não importa o disse-me-disse, a conclusão a que chegamos é a mesma: os jogadores no Flamengo mandam bagarai e a diretoria não faz a menor idéia do que está rolando. Porque se sabia o que rolava e não tomou providência, foi conivente. Se só ficou sabendo pela internet, foi incompetente.

Artur Muhlemberg

2ª Edição

Só pra me contrariar, acabou de ser publicada uma resposta do Cuca no GloboEsportes.com. Sinceramente, não mentiu nem desmentiu, fica tudo por isso mesmo. E em uma resposta como essa, há (pelo menos) duas possibilidades de interpretação: “não quero me aporrinhar, deixa pra lá que isso não significa nada, sou mais eu e sei o que fiz e deixei de fazer” ou o conhecido (e desgastado) “quem cala consente”.

Leiam e escolham as suas versões.

– Tudo que li me machucou muito. Mas não quero comentar sobre essas coisas mais. Na minha despedida já deixei o meu muito obrigado a todos e já pedi desculpas pelos problemas com a imprensa. Nunca vamos agradar a todo mundo. Essas coisinhas que falam não levam a nada. Espero que as pessoas falem agora sobre o novo técnico do Flamengo. O mais importante é meu equilíbrio e minha família. Isso faz parte do passado agora. Tudo que eu fiz no Flamengo faria de novo, não me arrependo de nada. Cada um tem sua vida, e agora quero cuidar da minha.

Cuca

3ª Edição

Depois dizem que eu sou o profeta do apocalipse, mas ficou claro – de novo – que o que importa para esses caras não é o melhor para o Flamengo, como disse aí em cima. Acabou de sair a notícia que, por razões políticas, o vice de futebol Kleber Leite, o diretor Plínio Serpa Pinto e o advogado Michel Assef (que turma…) se desligaram do clube.

Kléber apoiará a chapa encabeçada por Plínio nas eleições do Flamengo que acontecerão no final do ano. Certamente, Assef fará o mesmo. E certamente, os dois farão parte do governo do clube caso vençam a eleição. Levando-se em conta que Kléber Leite adora engenharias financeiras que viabilizem a compra de jogadores (Romario entrou e saiu do Flamengo trocentas vezes quando ele foi presidente e recebe dinheiro do clube até hoje e por alguns anos ainda), dá pra imaginar o que pode acontecer caso essa chapa saia vencedora.

O pior é que ao olhar para as alternativas, só nos resta rezar muito para que São Judas Tadeu proteja o Flamengo.

A caminho da Copa

logo_copa_2010Acabou a Copa das Confederações e daqui a mais ou menos um ano começa a Copa do Mundo. Até lá, alguns amigos vão aparecer por aqui falando sobre o que se pode esperar do torneio, das seleções – a nossa e as outras – e tudo o mais que puder ser relacionado à disputa.

Não há qualquer compromisso de periodicidade, de quem vai escrever quantas vezes ou sobre o quê. E também vale se oferecer para a tarefa, quem quiser é só fazer contato.

•••

Já era fã do Xavi pelo seu futebol, agora sou ainda mais. Acho esse português metrosexual um enganador. No meu time ele não joga!!!

Aliás, devo confessar que sou fã do futebol MODERNO da Espanha, fruto de jogadores habilidosos no meio-campo – Xavi Hernandez (Barcelona), Xabi Alonso (Liverpool) Cesc Fàbregas (Arsenal) e David Silva (Valencia). Todos marcam e quando saem para o jogo, sabem jogar. Toques de primeira, inversão de jogo, infiltração. Ótima seleção. Também gosto da saída rápida da defesa para o ataque da Argentina, Rússia e Holanda.

Mas ao que me parece, o futebol medíocre tomará conta da próxima Copa. Argentina está mal das pernas. Russia e Holanda não costumam chegar. A seleção da Espanha caiu na Copa das Confederações para a fraquíssima seleção ianque (2 linhas de 4 e tome bico para a frente). O futebol botinudo esfria o futebol qualificado. Tudo indica que teremos uma Copa fria (fria de verdade, com cerca de 10º de média). E toma-lhe Alemanha e Itália novamente. Empata um jogo aqui, goleia de 1 x 0 acolá e estamos na final. Ai a tradição, a camisa fala mais alto.

Se Dona FIFA não inventar um campeão africano (e terá que inventar mesmo), somente o Brasil poderia desfazer esse futebol de mesmice. Mas nesse quesito temos um vilão. Dunga.

Seleção, como o próprio nome já diz, é uma escolha fundamentada. Aí, pergunto? Que fundamento foi utilizado para selecionar Gomes, Doni, Maicon, Luisão, Gilberto Silva, Elano, Josué, Mineiro, Ramires, Julio Baptista, Luis Fabiano e Robinho? Só o Dunga…

Quando virar jogo dos EUA vira proeza, estamos mal mesmo. Quando fazer três gols no segundo tempo é mais falado do que tomarmos 2 no primeiro tempo, é dose.

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Mudando de futebol… Sou mais rubro-negro do que brasileiro. Brincadeira esse nosso técnico. Passou a semana em dúvida entre Everton, o anêmico, Fierro e o garoto Camacho. Treinou com todos e se decidiu pelo anêmico. No decorrer do jogo, resolve substituir. Ai você pensa, vamos ver o Fierro na posição dele, ou vamos ver o garoto como é. Eis que a figura do chororô coloca o Pet com a alegação de que poderia ter uma falta na entrada da área. Mas isso não fora treinado, ninguém cavou falta, nada.

Cuca, Cuca, kicker só em futebol americano, sua anta!!!

Jefferson Paes

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Só um adendo sobre a seleção do Dunga que, por causa desse titulozinho que ganhou já virou unanimidade e elevou o moço da camisa salmão à categoria dos melhores técnicos do mundo (sic).

Nos últimos sete jogos, vencemos Uruguai (4 a 0) e Paraguai (2 a 1) pelas eliminatórias. Nos dois jogos, o melhor em campo foi o GOLEIRO Julio César. Na Copa das Confederações, cinco jogos e cinco vitórias: Egito (4 a 3), Estados Unidos e Itália (3 a 0), África do Sul (1 a 0) e Estados Unidos (3 a 2). Na campanha, o melhor jogador foi o ZAGUEIRO Lúcio.

Será que não há nada errado? Será que só eu estranho o fato?

Como tem bobo no futebol…

Além de todos nós que continuamos acompanhando e torcendo pelos nossos clubes de coração, é fácil perceber que, no futebol brasileiro, só tem bobo. Ainda não acredita?

Vamos começar com o Cruzeiro, semi-finalista da Copa Libertadores da América. Recebeu o Barueri em Belo Horizonte. Jogo fácil, claro. Afinal, o time mineiro é apontado como um dos melhores do Brasil e o clube do interior paulista é pouco mais que um time de empresários, sem história e recém-chegado da segunda divisão. Resultado: Cruzeiro 2 x Barueri 4.

Outro exemplo? O Santos recebeu o Atlético Mineiro (autêntico cavalo paraguaio) na Vila Belmiro. Saiu na frente e levou a virada do novo líder do campeonato, com um time que é comandado pelo Diego Tardelli, um atacante que nunca deu certo em clube nenhum em que jogou. Para completar a festa, o maravilhoso árbitro Djalma Beltrami – que tem um extenso currículo de cagadas – acabou o jogo antes da hora (nesse lance, contou com o auxílio luxuoso do quarto árbitro), voltou atrás e ainda anulou um gol legítimo do Santos, o que gol que daria o empate ao time da casa.

Se não bastasse os episódios da Vila, as arbitragens exemplares desse Brasil varonil ainda fizeram das suas nos jogos Santo André X Sport e Atlético Paranaense X Palmeiras. Nesse, Obina finalmente conseguiu o que sempre tentou em quase todos os jogos em que ele esteve em campo e assisti: um gol de bicicleta. Graças ao bandeira infeliz que viu um impedimento inexistente, o folclórico baiano não conseguiu comemorar sua obra prima.

No clássico paulista, o São Paulo levou uma traulitada do Corinthians e o Muricy Ramalho foi demitido. Na saída, acusou Cuca (técnico do Flamengo) de ligar para a diretoria são paulina se oferecendo. Rapidamente, o sujeito negou que o tivesse feito com frases do tipo “nunca liguei nem para desejar feliz aniversário…”. Pois o presidente do clube paulista, Juvenal Juvêncio, deu uma entrevista hoje dizendo que o Cuca ligou sim, mas não para se oferecer e, sim, para pedir conselhos de como enfrentar o caldeirão da Gávea e suas crises intermináveis. Algo natural, pois são grandes amigos.

De quebra, o Tite (técnico do Internacional) nem foi citado na confusão mas se meteu mesmo assim, dizendo para o Muricy não generalizar, dar nome aos bois etc. Muita gente acha (eu, inclusive) que ele se antecipou a uma possível demissão pela perda da Copa do Brasil para o Corinthians e pela perda da liderança do Brasileiro, pois em sua cabeça seria certo que Muricy faria pressão para voltar ao time gaúcho, onde ganhou o Brasileirão 2006.

E com essa bagunça toda, um monte de time chinfrim e eu ainda perco tempo escrevendo sobre o tema. Viu como é fácil provar que ainda tem muito bobo no futebol? A começar por mim.