E daí?

Bombeiros retiram corpos de vítimas da chuva em Petrópolis / Foto: Gabriel de Paiva/Agência O GloboEm abril de 2010, só no Morro do Bumba, em Niterói, foram 267 mortes. Em janeiro de 2011, na região serrana do Rio, mais de 900 pessoas perderam a vida. De ontem pra hoje, foram 13 (e três desaparecidos) em Petrópolis.

Só 13? E daí?

Daí que não surpreende. Daí que é bom dar graças a Deus por terem sido só 13 vítimas (até agora). Daí que, três anos depois, ainda tem gente do Bumba dependendo da esmola do estado e encostada por aí. Daí que ninguém foi punido pelo desvio de verbas e doações na tragédia da serra. Daí que quase todo o dinheiro enviado para a reconstrução e investimentos em segurança nas cidades afetadas sumiu e quase nada foi feito.

Só 13 mortes. E daí?

Daí que todo ano chove muito no verão. Daí que todo ano um monte de encostas vem abaixo. Daí que a ocupação desordenada, ilegal mas permitida, não para de aumentar. Daí que todo ano vai morrer um monte de gente. Daí que todo mundo está cansado de saber disso. Daí que nunca, nenhum responsável foi obrigado a pagar indenizações a cada vítima e puxar uns anos de cana.

Mas ontem foram só 13 mortes. E daí?

E a moçada vai pedir bis

Já vi por aí as análises mais complexas, além dos aplausos de praxe, além da simples publicação dos resultados sem qualquer análise (também habitual). Mas, afinal de contas, o que é tão difícil entender sobre o nível de aprovação do primeiro ano de mandato de Dilma?

É fato que os 59% que a moça recebeu não são de se esquecer. Mas será que é tão surpreendente assim?

É preciso lembrar que Lula deixou o governo com aprovação superior a 80% e que Dilma foi vendida e continua se portando como a continuação do sujeito. Afinal, ele segue dando conselhos, indicando pessoas etc etc etc.

Também estamos cansados de saber que a comunicação do governo é muito melhor do que os feitos do próprio. e não podemos nos esquecer que o número de pessoas beneficiadas pelos programas sociais aumenta a cada dia.

De quebra, muitas promessas de trocentos mil isso e aquilo e centenas de lançamentos de grandes projetos, sempre em benefício do povo, da massa, o que não deveria ser ruim. O problema é a real capacidade de entendimento dessa massa que, ignara, prefere acreditar que Dilma é linha dura, honesta e competente porque demitiu seis ministros acusados de corrupção a lembrar que quem colocou/aceitou os sujeitos foi ela mesma e que, além dos donos das cadeiras, a estrutura não mudou nadica de nada.

E aí fica fácil entender que a aprovação recorde do primeiro ano do mandato de Dilma Roussef não tem nada a ver com a qualidade de seu governo. E lembrei de Gilberto Gil.

“Chacrinha continua
Balançando a pança
E buzinando a moça
E comandando a massa”

Meras coincidências

Todo mundo já se deu conta que estamos em ano eleitoral? Já caiu a ficha que nas eleições municipais deste ano será testada – principalmente nas capitais – boa parte das estratégias e discursos que estarão presentes nas próximas eleições estaduais e presidencial de 2014?

Pois levando tudo isso em conta, não chega a ser curioso que a minissérie exibida pela Globo desde terça-feira, O Brado Retumbante, esteja alfinetando muitas e muitas práticas instauradas e/ou exacerbadas pelo lulo-petismo ao longo dos últimos nove anos? Quem ainda não viu, terá mais uma semana para assistir e reconhecer todas as falcatruas habituais.

Só como exemplo, a farra dos livros didáticos e um tal ‘preconceito lingüístico” que ganhou destaque no primeiro semestre do ano passado (clique aqui para ver alguns posts sobre o tema).

E se alguém aí está chegando de Marte ou acha que estou delirando aqui, lembro que Fernando Haddad, ex-ministro da educação até outro dia, saiu do cargo para ser o candidato a prefeito de São Paulo numa nítida e mais que sabida imposição de Lula ao PT paulista. E a gente bem sabe o que o sujeito (não) fez pela educação do Brasil, né não…?

Mas é bom lembrar que a mais que conhecida expressão ‘uma no cravo, outra na ferradura’ também se faz presente. Ou será que também é mera coincidência o fato do ator que vive o presidente ser tão mulherengo e parecido com o Aécio?

Ora, que melhora

E parece que Dilma, finalmente, começou a tão esperada reforma ministerial. E digo parece porque, inédito, ela conseguiu perder seis ministros no primeiro ano de governo, todos sob denúncia de corrupção (fora Jobim, que saiu porque falava demais). Fora os casos absurdos de Pimentel e Negromonte, que não caíram apesar de tudo. Assim, não teria sobrado muita coisa pra reformar, pelo menos por agora.

Mas vejam que maravilha de negócio fez a nossa presidente. Haddad, o Mister Enem, saiu porque vai ser candidato à prefeitura de São Paulo (boa sorte aos amigos de lá). Ou seja, não foi defenestrado por sua incompetência mais que comprovada, como deveria. O lado bom é que nos livramos do moço.

Para seu lugar, foi deslocado Aloizio Mercadante – sujeito de competência reconhecida, de caráter firme, palavra irrevogável – que ocupava a cadeira de Ciência e Tecnologia. Sabem o que é legal nisso? É que o sujeito ganhou um ministério novo no mesmo dia em que o Brasil é apontado como o responsável pelo atraso na construção de um megatelescópio, em parceria com outros 14 países, no território chileno. Por aqui, o projeto estava sob responsabilidade de quem? Pois é…

Não é excelente saber que o governo federal fez questão de mandar a meritocracia (com trocadilho, por favor) pro espaço?

Sobre Marco Antônio Raupp, substituto de Mercadante, não tenho nada a dizer, não o conheço. Por enquanto, temos mesmo é que orar muito. Quem sabe, assim, as coisas acabem melhorando…

Nulum die sine linea

Já fui um fiel seguidor dessa espécie de lema. “Nenhum dia sem uma linha”. Achava que, mais do que manter um hábito, fazia um exercício. E se fosse capaz de escrever quando não tinha o menor saco ou inspiração, seria capaz de produzir em qualquer situação.

Pois, como podem ver a meia dúzia de três ou quatro amigos e leitores que freqüentam o cafofo, meio que abandonei o lema. Não é por acaso que não pingava nada por aqui há quase um mês. E naqueles dias em que – nem profissionalmente – não precisava juntar palavras para formar frases, resolvi tirar folga.

Também sou obrigado a confessar que as atuações do Flamengo no final da temporada, aquele monte de corridas de F1 que não valiam nada, a vergonha em que se confirmou o governo – a manutenção de Pimentel e Negromonte em suas cadeiras é surreal – e a certeza de que as chuvas de verão arrebentariam tudo de novo, como sempre e como já está acontecendo, colaboraram bastante para aumentar o meu enfado. Parece que, de novidade mesmo, só o fato de Sérgio Cabral não estar em Paris ou sei lá onde na hora do aperto.

De quebra, as festas e toda sua rotina extenuante de compras e correria e jantares e obrigações de festas e comemorações mil… No final das contas, o mesmo de sempre. Virou o dia, virou o ano, e nada mudou. Mais ou menos como os fogos de Copacabana. Ou será que vocês realmente acreditam naquelas promessas de ano novo, que se repetem a cada 365 ou 366 dias?

É, não ando muito otimista mesmo, ao ponto de ter percebido numa frase dessas ouvidas por aí e publicadas em revistas (acho que foi na do Globo) a melhor definição sobre o estado geral de coisas que vivemos hoje: “se é verdade que o Natal aproxima as pessoas, no metrô é Natal todo dia” (reproduzo de memória e pode haver algumas diferenças em relação ao original).

Bom, daqui a pouco retomo a produção em ritmo normal. E enquanto não chegamos à conclusão sobre se o mundo vai acabar mesmo no dia 21 de dezembro, se a data marca apenas o fim de uma era ou se o calendário maia parou aí porque os caras ficaram com preguiça de continuar, desejo a todos – com quatro dias de atraso, eu sei – um feliz ano novo.

Onde estará o fim da fila?

Então, finalmente, Lupi deu no pé. Dos seis ministros que caíram por denúncias de corrupção, ninguém suportou tantas acusações como ele. De quebra, demorou tanto a cair que chegou a formar fila de novos ministros enrolados em maracutaias.

Primeiro, Mário Negromonte (Ministério das Cidades) se enrolou por conta de um baita duma fraude numa obra de Cuiabá, com vistas à Copa de 2014. Mas Lupi lá, se segurando. E a fila andou e parece que esqueceram o caso. Vamos ver até quando.

A novidade, o enrolado da hora é Fernando Pimentel, ministro do desenvolvimento, indústria e comércio exterior. Como Palocci – o primeiro a rodar –, andou ganhando muito dinheiro muito além do normal prestando consultorias. Pelo jeito, o mesmo tipo de consultoria de seus amigos de partido, ou seja, tráfico de influência.

Vale lembrar que ainda não terminou o primeiro ano de Dilma na presidência. Como será que chegaremos ao final do mandato? Quantos ministros cairão, quantos serão recolocados, quanto tempo durarão esses feudos construídos na esplanada dos ministérios?

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Há uma semana, lembrei aqui que – apesar das quedas dos ministros – os ministérios que tiveram denúncias de corrupção continuavam, na verdade, com as mesmas estruturas e sob comando dos mesmos partidos que aparelharam suas máquinas.

Cliquem aqui e vejam a matéria da Folha de hoje.

Perguntas (1)

Enquanto a novela Carlos Lupi prossegue, vale lembrar que cinco ministros já caíram por acusações de corrupção: Casa Civil, Turismo, Agricultura, Transportes e Esporte. Outro detalhe é que suas estruturas não foram renovadas, apenas o nome do chefe.

Assim, cabe a pergunta: ficaram todos honestos do dia para a noite?