1.000

Hoje é um daqueles dias que promete ser quase monotemáticos. Afinal, faltam 1.000 dias para a abertura da Copa do Mundo. O recorte da primeira página de O Globo é sintomático.

Mas, deixando de lado a discussão sobre a seleção, no que diz respeito ao planejamento, obras, o sempre falado mas nunca visto legado, lisura nos projetos e realizações e qualquer outra coisa que tenha relação com o negócio: vocês realmente acreditavam que seria muito diferente?

E alguém ainda acha que para os jogos olímpicos será diferente?

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Desce mais uma gelada

A sociedade brasileira lutou durante anos para institucionalizar essa regra e, após um longo período de conscientização e adaptação, a população em geral e os freqüentadores dos estádios em particular entenderam que é uma medida benéfica. Ao abrir essa exceção, vamos retroceder décadas em 30 dias. Além disso, vamos abrir um precedente para que a CBF e outras federações nacionais exijam o livre comércio em jogos da sua competência. (…) Essa droga lícita amplifica rivalidades e facilita a expressão da agressividade. Em jogos de futebol isso pode ser ainda mais evidenciado, já que há grupos de torcedores em oposição. (…) É preciso resguardar os interesses da população no que diz respeito à saúde pública e à segurança nos estádios, independentemente dos interesses e intervenções de alguns grupos.

O que você vê acima são declarações do psiquiatra Carlos Salgado, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). Salgado se manifestou por conta do anúncio de que a Lei Geral da Copa pode permitir a venda de cerveja nos estádios durante a competição em 2014.

É claro que essa liberação vai acontecer, a Budweiser é uma das patrocinadoras da FIFA. Eu mesmo já tinha falado nisso durante o mundial de 2010, nesse post.

Sobre esse assunto, há duas questões. A primeira, que é a proibição de venda de bebidas nos estádios e, em muitos estados e/ou cidades, no seu entorno. Sou absolutamente contra isso. Durante boa parte de minha vida, freqüentei estádios. No maior deles, não foram raros os jogos com mais de 100 mil pessoas.

Nesses casos, e fazendo uma conta burra e modesta, vá lá que apenas 30% das pessoas bebesse. Chegaríamos à marca de 30 mil bebedores. Desses, quando havia brigas e outros problemas, os contentores talvez chegassem a 100 ou 200 (nos grandes tulmutos). Nem 1%!!!! Mesmo assim, a massa pagou o preço numa clara ação do estado babá. Basicamente, as pessoas não tem mais o direito de escolher o que fazer de certo ou errado e arcar com suas conseqüências.

Salgado, ao gritar contra a cerveja e dizer que ela seria uma das causas da violência entre torcidas, não lembra que as brigas entre organizadas continuam acontecendo dentro e fora de estádios. Muitas vezes, marcadas com auxílio das redes sociais. Ou seja, seguindo sua lógica, deveríamos proibir o uso da internet.

Salgado diz ainda que é preciso olhar os interesses da população. Que interesses de qual população? Porque não conheço ninguém nos meus círculos de amizade que seja a favor da proibição. E não conheço ninguém que, enquanto era permitido, tenha bebido em um estádio e colocado o mundo ou mesmo o síndico de seu próprio prédio em perigo.

No meu quintal, mando eu

O outro ponto desse problema diz respeito à soberania nacional. Mesmo discordando da lei, ela existe e deve ser cumprida. Ou seja, a abertura de uma exceção por exigência dos organizadores de um evento – qualquer que seja – não deveria existir. Pois além de afronta clara ao Estado, abre precedentes para que qualquer organizador de qualquer evento possa solicitar e esperar que receba o mesmo tratamento. Daí pra virar zona, falta um pulo.

Nesse caso, cabe a pergunta: “quem manda na minha casa?”. Se a lei é vagabunda e deve cair, é problema nosso, discussão que nós temos que fazer. Se a Copa será um pretexto para tratar do tema, ótimo. Mas no dia do ponta-pé inicial, a coisa tem que estar decidida da seguinte forma: ou a lei é mantida e vale inclusive para o mundial, ou ela não presta e a cerveja está liberada, tanto para a Copa quando para os jogos da quarta divisão do campeonato roraimense.

Nesse sentido, a tal Lei Geral da Copa ainda vai mexer em mais vespeiros, como a não existência de meia-entrada durante o torneio. Basicamente, vem mais confusão por aí. Ou será que a UNE, só para dar um exemplo, patrocinada pelo governo que bate palmas para a Copa, vai colocar o rabo entre as pernas e aceitar essa imposição?

Big brother útil

Boa essa idéia, vi na coluna do Renato Maurício Prado. A Odebrecht colocou no ar um site em que será possível acompanhar as obras dos quatro estádios que está construindo ou reformando para a Copa 2014: Fonte Nova (Salvador), Arena Pernambuco (São Lourenço da Mata, na ‘grande’ Recife), Corinthians (São Paulo) e Mário Filho* (Rio de Janeiro). Para visitar e ter imagens e informações interessantes sobre as obras é só clicar aqui (ou visite a página de links Brasil 2014, no menu à esquerda ou superior).

Se alguém souber de ações semelhantes sobre os outros oito estádios que receberão os jogos em 2014, é só deixar aí nos comentários.

Também seria muito bom que todas as prefeituras e governos de estado criassem sites específicos sobre todas as obras que fizeram parte do projeto de candidatura, o famoso legado. Assim, apesar dos gastos absurdos, pelo menos poderíamos ver as coisas acontecendo, se tudo o que foi prometido será cumprido.

•••

*Durante as décadas de 80 e 90 do século passado, foi de perder a conta de quantos sábados ou domingos ou noites de quarta e quinta eu passei no Maracanã. Mesmo sem o Flamengo estar em campo. Simplesmente porque era bom ir ao estádio. Depois, com o aumento das filas e da violência, fui diminuindo minha freqüência até que – hoje em dia – quase já não vou mais a estádios de futebol.

Durante todos esses anos, assisti o estádio, o nosso Maraca, ir morrendo aos poucos, com um monte de reformas, um monte de regras estúpidas, a começar pelo fim da geral e sua divisão em módulos que impediam o desfile das bandeiras das torcidas pelo anel superior.

O estádio que será entregue para a Copa do Mundo será completamente diferente daquele Maracanã que o Rio aprendeu a freqüentar e a amar.

Apesar de ser no mesmo lugar, não consigo imaginar a nova arena como um Maracanã melhorado. Então, a partir de agora, dou-me o direito de chamá-lo apenas por seu nome oficial: Estádio Mário Filho.

…e andando

Não tenho língua papal nem muitas papas, mas a vulgaridade do ‘doutor’ é espantosa. Não a vulgaridade, sei lá. É a empáfia, a arrogância e a prepotência, o escárnio e o deboche. A tal figura só temeria e baixaria seu topete gris se fosse mal falada no ‘JN’. Mas o tio que lá edita escolhe as principais notícias tal como seus seguidores fazem com suas gravatas, já que sabe bem que as portas daquela casa estão sempre abertas e convidativas. A tal figura aí é a expressão máxima da banana que a personagem de Reginaldo Faria dá ao Brasil no fim de ‘Vale Tudo’, novela da época do tango que repassa nos dias atuais. A banana vai ser dada daqui quatro anos, num teórico pós-Copa em que provavelmente a parte de exceção da imprensa vai estar debatendo o rombo, os elefantes brancos e a ausência dos legados da competição. A banana é, por que não, posta virtualmente em nossos rabos. Há quem goste e que ajude a descascar. Tem gosto pra tudo. Nos pés devidos, as chuteiras da pátria ajudam a enfiar.

A imagem acima está no blog do Juca Kfouri. O texto é trecho do post de Victor Martins em seu blog. O tema é o mesmo: Ricardo Teixeira e suas declarações na revista Piauí. Vale muito a leitura.

Liberou geral

Vocês lembram que, em 2007, o Rio foi sede dos Jogos Panamericanos? E vocês lembram a farra, o rombo provocado pelas obras e organização? Não há relatório de tribunal de contas, por mais incisivo e objetivo que seja, que consiga provocar as devidas ações na justiça contra os responsáveis pela farra, pelo prejuízo. Esse sim, o grande legado para a cidade, estado e país.

Pois há trocentos anos o Brasil foi anunciado como a sede da Copa 2014 e Olimpíadas 2016. E apesar de todo o prazo e de todo o discurso – vazio como sempre – de que quase não haveria dinheiro público envolvido, que a iniciativa privada isso, que a iniciativa privada aquilo etc., as parcerias não existem e as devidas instâncias de governo, avalistas dos dois eventos, vão ter que colocar a mão no bolso. Nosso bolso, claro.

Pois ontem foi aprovada, na câmara dos deputados o projeto de lei que estabelece o Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC), basicamente a flexibilização da lei de licitações (8.666/93). Oficialmente, o objetivo é agilizar as obras de preparação para os dois grandes eventos, principalmente no que diz respeito aos aeroportos (o texto aprovado cria a Secretaria de Aviação Civil, mais uma com status de ministério).

Como estamos cansados de saber, apesar de toda a burocracia e modelos de controle, tudo o que envolve licitação por essas bandas é feito sob suspeita de corrupção. Afinal, o hábito faz o monge. Imaginem agora, que não haverá teto para alteração dos contratos, que o governo só informarão os órgãos de controle quando achar conveniente, e que nada poderá ser divulgado.

Ainda há destaques da oposição que podem mudar o texto (serão apreciados no dia 28), mas com o resultado de 272 X 76 não dá pra ficar muito esperançoso. O Ministério Público também não ficou satisfeito, mas também sabemos como é ágil o nosso judiciário.

Então, só pra completar o clima de liberou geral, uma informação – no mínimo – curiosa. O relator do projeto foi José Nobre Guimarães (PT/CE), irmão de José Genoíno e para quem trabalhava o tal assessor que foi pego tentando embarcar para Fortaleza, em 2005, com U$ 100 mil na cueca (além de uma bolsa ou pasta, sei lá, com R$ 200 mil).

Tirem suas próprias conclusões.

Crônica de sexta-feira (8)

A BH é minha, a Copa é do Mundo

A Copa do Mundo da FIFA é, sem dúvida, um dos maiores eventos do mundo e é claro que o país, o estado e a cidade devem se preparar. Mas o que são “o país, o estado e a cidade”, se não as pessoas? Se tudo der certo, as pessoas fizeram tudo certo. Se der errado, foram as pessoas que erraram. Então, resolvi, desde já, porque o tempo corre muito mais que aqueles antigos jogadores das pontas, fazer a minha parte, como cidadão belorizontino. Porque mudar hábito das pessoas não é tarefa pra um dia, uma semana, um mês. É coisa de longo prazo e não serão lindas propagandas televisivas que irão conseguir isso, nem tampouco depoimentos das autoridades, esportivas ou políticas, sobre o andamento dos trabalhos. Só as pessoas e somente elas (nós) é que irão conseguir ações de gentileza urbana, essenciais para o sucesso e sustentabilidade do evento e da nossa querida cidade.

Da mesma forma que o vencedor da Copa será um time muito bem preparado, treinado, motivado, integrado, assim também terá que ser com as pessoas da cidade: treinadas, conscientizadas, motivas, integradas.

Portanto, seguem abaixo algumas ações que considero fundamentais serem rotinas para o período de jogos no Mineirão, depois daquela primeira edição em solo mineiro, no saudoso ano de 1950, no campo do Sete de Setembro, também conhecido como Independência, palco de uma tremenda zebra do futebol – Estados Unidos 1 x 0 Inglaterra, no dia 29 de junho.

– Os proprietários de veículos com 15 ou mais anos de fabricação, como Escort, Monza, Corcel, Pampa, Variant, Opala, Fusca, Tempra, Apollo, Galaxie, Kombi, Belina, Verona, Logus, Gol, TL, Chevette, Brasília, Fiat 147 e tantos outros menos lembrados, que não estejam em condições legais (de acordo com a lei) de circular, devem restringir seus deslocamentos ao extremamente necessário, principalmente nos pontos turísticos como a Savassi, Praça da Liberdade, Pampulha, Centro, Mangabeiras, dentre outros.

Por que? É simplesmente constrangedor ver esses – ilegais – veículos circulando por aí, poluindo, quase soltando pedaços da carroceria, arriscando a vida de seus e dos outros motoristas e dos pedestres. Mas, atenção proprietários desses e outros veículos “velhos” em bom estado de conservação: por favor, circulem à vontade e por toda a cidade, é bom demais ver um carro desses bem cuidado, conservado, bonito;

– se você vir um grupo de turistas na rua (vai ser fácil identificá-los, não é mesmo?), repare bem, veja se eles estão procurando algo, alguma informação, orientação. Seja pró-ativo, coloque-se à disposição para ajudar, informar e orientar;

– em um boteco (nome que culturalmente damos a bares, restaurantes e lanchonetes), se um grupo de turistas entrar e o recinto estiver lotado, veja se é possível arrumar cadeiras e mesas, se tem alguém pagando a conta, se dá pra apertar em alguma mesa, inclusive a sua própria. Afinal, BH é ou não é a capital mundial dos botecos?

– Os síndicos – juntamente com os condôminos – precisam caprichar nas fachadas dos prédios, sejam residenciais ou comerciais. Nada de pichação, parede com infiltrações, marquises que colocam em risco os pedestres, roupas dependuradas, pinturas quase inexistentes, acabamentos quase despencando. Nada disso. Temos edificações lindíssimas em nossa cidade, antigas e modernas, que merecem ser vistas e admiradas;

– e o seu cachorro? Gosta de fazer as necessidades na rua? Tudo bem, o passeio com ele é pra isso mesmo. Só que você tem o dever de cidadão de recolher e descartar adequadamente;

– empresários do transporte coletivo, por favor, adotem em suas frotas os ônibus de piso baixo. Por que 3 ou 4 degraus pra entrar e sair do ônibus? Idosos, obesos e pessoas com deficiências vão agradecer muito, assim como os demais passageiros. Com a roleta, a mesma coisa: não dá pra ser um pouquinho mais larga? Conforto é bom e a gente gosta. Tenho certeza que os fabricantes das carrocerias irão colaborar com esta iniciativa;

– na construção civil, vamos pintar os tapumes das obras com motivos inerentes às ações de cidadania, à nossa Beagá, às nossas Minas Gerais e, claro, ao futebol;

– alô galera da BHTrans: que tal estudar a implantação de ‘direita livre’ ou ‘esquerda livre’ em diversos cruzamentos onde isso é possível? Eu sei de uma porção de cruzamentos em que isso seria possível, é só começar que vai dar certo. O foco tem que ser na atenção aos pedestres e ao trânsito;

– lixo é na lixeira! Tem frase mais óbvia?! Tem iniciativa mais simples e cidadã do que essa? Devemos entender como lixo desde um simples palito a qualquer tipo de embalagem. Só quem já andou por esse mundo afora pode entender o quanto a limpeza faz bem aos olhos, aos corações e às mentes. E só nós, que moramos aqui, podemos iniciar e manter tal brilhante, fundamental e simples ação em favor de nós mesmos e da nossa querida cidade;

– vai hospedar um (ou mais) turista em sua residência? Que ótimo! Procure identificar outros familiares, amigos ou conhecidos que farão o mesmo e forme uma rede de contatos. A integração entre vocês irá facilitar muito e os visitantes serão melhor recepcionados, com a troca de ideias e informações;

– viu um cambista vendendo ingressos a preços abusivos? Ligue para o Disque Denúncia! Se, por acaso, você ficar com algum ingresso sobrando, procure vendê-lo a preço justo, comprador é o que não vai faltar e você não terá prejuízo.

Agora, a última recomendação: pra que esperar até 2014? Que tal começarmos, juntos, todos nós, escolas públicas e particulares, UFMG e demais universidades, profissionais liberais – especialmente os de Comunicação, o Movimento das Donas de Casa, vereadores, secretários, prefeito e governador, deputados e senadores, empresariado, CDL, Banda Mole, Clube da Esquina, músicos e demais artistas, grupos Corpo e Galpão, órgãos patronais de classe, Comida de Boteco, sindicatos, FIEMG, ONGs, enfim, a belorizontice toda…

Que tal conhecer, apaixonar-se por ela e praticar a gentileza urbana (que considera muitas e muitas outras ações além das citadas acima) a partir da próxima segunda-feira? Afinal, um time vencedor precisa treinar muito, né?)

Viva a campanha A BH é nossa! A Copa é do Mundo! (direitos autorais registrados, os leitores são testemunhas).

Um bom fim de semana.

Rodrigo Faria

Como vocês viram, os preparativos para a Copa de 2014, que terá Belo Horizonte como uma cidade-sede, motivaram a crônica de hoje. E como bom mineiro que é, Rodrigo trata de cuidar de sua cidade.

Mas bom mesmo seria que todos adotássemos essas práticas, esse comportamento, em todos os lugares, com ou sem Copa, com ou sem Jogos Olímpicos. Faltaria pretexto? Viver bem em um lugar bom não é suficiente?

Sei lá, a gente se acostumou a reclamar do governo, todos eles, por qualquer coisa. Eu mesmo sou um que vive reclamando. Mas será que a gente cuida da nossa parte?

Asa quebrada (2)

Na semana passada, falei sobre o estudo divulgado pelo IPEA sobre a (falta de) preparação de nossos aeroportos com vista aos grandes eventos que teremos por aqui, especialmente Copa do Mundo e Olimpíadas. E falei sobre o famoso legado que é propagandeado, sempre que os tais eventos entram em discussão.

Pois o que me incomoda nessa história é que, na verdade, nunca se pensa no que é necessário no dia a dia de quem vive por aqui, com ou sem eventos, com ou sem pretextos.

Pois você sabia que, com passagem comprada, vôo no horário e tudo aparentemente certo, você pode não embarcar. Você sabia que você pode ser preterido? Pois vejam um trecho da resolução 141 da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), publicada no dia 9 de março de 2010.

CAPÍTULO III

DA PRETERIÇÃO DE PASSAGEIRO

Art. 10. Deixar de transportar passageiro com bilhete marcado ou reserva confirmada configura preterição de embarque.

Parágrafo único. Quando solicitada pelo passageiro, a informação sobre o motivo da preterição deverá ser prestada por escrito pelo transportador.

Art. 11. Sempre que antevir circunstâncias que gerem a preterição de embarque, o transportador deverá procurar por passageiros que se voluntariem para embarcar em outro voo mediante o oferecimento de compensações.

§ 1º As compensações de que trata o caput deverão ser objeto de negociação entre o passageiro e o transportador.

§ 2º Não haverá preterição caso haja passageiros que se voluntariem para ser reacomodados em outro voo mediante a aceitação de compensações.

§ 3º O transportador poderá solicitar ao passageiro a assinatura de termo específico reconhecendo a aceitação de compensações.

Art. 12. Em caso de preterição de embarque, o transportador deverá oferecer as seguintes alternativas ao passageiro:

I – a reacomodação:

a) em voo próprio ou de terceiro que ofereça serviço equivalente para o mesmo destino, na primeira oportunidade;

b) em voo a ser realizado em data e horário de conveniência do passageiro;

II – o reembolso:

a) integral, assegurado o retorno ao aeroporto de origem em caso de interrupção;

b) do trecho não utilizado, se o deslocamento já realizado aproveitar ao passageiro;

III – a realização do serviço por outra modalidade de transporte.

Art. 13. Em caso de preterição de embarque será devida a assistência de que trata o art. 14, exceto nos casos em que o passageiro optar por qualquer das alternativas previstas no art. 12, incisos I, alínea “b”, e II, alínea “b”.

Clique aqui para ler a resolução na íntegra.

Agora, leiam abaixo a história da Marcela.

Sexta-feira, quando fui fazer check in para um vôo da GOL, fui informada de que não poderia embarcar devido à preterição. Eu nunca tinha ouvido falar sobre isso, mas é uma manobra permitida pela ANAC.

Existem algumas justificativas para preterição, mas a razão da minha foi a companhia aérea ter percebido que algum vôo enfrentaria problemas por falta de tripulação. Ou seja, no meu lugar e no lugar de um rapaz, embarcaram dois tripulantes de outro vôo.

Como o meu vôo era o último da noite para o meu destino, a GOL me encaminhou para um hotel e reagendou minha viagem para o dia seguinte, em outro horário.

Pois bem, nada menos do que REVOLTANTE essa situação. Você paga a passagem, escolhe seu vôo de acordo com o melhor horário, se organiza para estar no aeroporto com antecedência, agenda seus compromissos e acaba absolutamente frustrado e impotente. Simplesmente, porque a operadora não consegue planejar corretamente a “logística” de sua tripulação!

(…)

Tentei ir à sala da ANAC, no Galeão, mas fui informada de que a agência está desativando, pouco a pouco, as salas de atendimento dos aeroportos. Interessante, não?

Restou ir à uma área para atendimento de ocorrências, onde fui aconselhada a entrar com uma ação. Embora a ANAC permita a operação, a justiça ainda pode me ajudar.

Agora, a grande questão é: por que a ANAC permite esse tipo de situação? Por que eu tenho que arcar com a falta de tripulação de um outro vôo?

Suspeito que seja muito mais barato e que gere muito menos ruído a GOL maltratar dois de seus clientes do que ter que cancelar um vôo inteiro. Mas, é isso mesmo? Tá certo isso?

Outra coisa revoltante foi o “verde” que o funcionário da GOL tentou jogar pra mim (e para o  rapaz que passou pela mesma situação). Quando ele informou que a gente não poderia embarcar, disse que nós havíamos perdido o horário limite para check in. Sorte nossa é que ainda faltavam mais de 30 minutos e, na hora, pudemos contra-argumentar. No entanto, uma pessoa um pouco mais distraída ainda teria que pagar taxa para remarcação.

Copa do Mundo e Olimpíadas? Isso vai ser divertido.

Marcela Moreira

Há alguns detalhes muito interessantes na história. O primeiro, a falta de planejamento da companhia. No caso, foi a Gol. Sinceramente (e até prova cabal em contrário), tenho certeza que não é muito diferente nas outras.

Outro detalhe é que a legislação pune o consumidor e premia a falta de planejamento do prestador de serviço. É assim que a agência regula o mercado, premiando o lado mais forte da relação? Muito, muito bom mesmo. Mas para isso, tenho uma solução simples: basta a ANAC baixar uma resolução obrigando as companhias a reservarem um ou dois assentos em cada vôo, uma reserva operacional. Assim, se as passagens forem vendidas e os passageiros ficarem a pé, configura-se o overbooking. E logo, algum entendido do assunto dirá que isso não existe em lugar nenhum do mundo. Dane-se, jaboticaba só tem no Brasil e é uma delícia.

Por fim, mas não menos grave. Quer dizer que os funcionários da companhia aérea são orientados a tentar enganar os passageiros? Isso nunca será admitido, mas é claro que sim. Porque os funcionários são treinados (ou deveriam ser) à exaustão e não têm autonomia para tomar decisões fora do script.

Quer dizer, como disse a própria Marcela, “Copa do Mundo e Olimpíadas? Isso vai ser divertido.”

P.S.: Como assim, a ANAC está desativando as salas de atendimento nos aeroportos? Quer dizer, a quem o passageiro poderá recorrer quando houver problemas?

P.S. 2: A Gol colocou Marcela e o outro passageiro em um hotel e fez tudo o que manda a legislação. Ok, sua obrigação. Mas quem paga pela programação, de lazer ou de negócios, não importa, que os dois deixaram de cumprir?