Parabéns, mas…

Não há porque fazer qualquer consideração sobre estratégias ou outros detalhes técnicos sobre a corrida de ontem. Já em plena segunda-feira, e depois de assistir a corrida (apesar da Globo) e seu VT, tenho absoluta segurança de que o GP do Canadá deva ser considerado apenas como o espetáculo que foi: sensacional.

A pista de Montreal (quase) sempre nos proporciona grandes corridas. Com chuva, então… A disputa de ontem foi tão boa que até Massa, que deu uma bela pixotada (bateu sozinho ao tentar ultrapassar um retardatário com pneus lisos na pista molhada), se recuperou e teve direito ao seu brilhareco, conquistando a sexta posição na linha de chegada.

Outro destaque foi Michael Schumacher. O velho mostrou ontem que, se já não é mais o mesmo (e não é mesmo), se tivesse um carro um pouquinho melhor, poderia brigar pelas primeiras posições com alguma freqüência. Com a pista molhada e úmida, andou demais. Fez até uma ultrapassagem dupla, de almanaque. Mas no final, foi presa fácil para as asas abertas e terminou em quarto.

Button venceu na última volta, depois de andar em 21º. Brilhante, excelente, sensacional. Mas… Há três detalhes nessa vitória que deveriam ser olhados com um pouco mais de calma.

O primeiro, o acidente com Hamilton na reta dos boxes. Button disse que não viu Hamilton. Humm… Então ele saiu da linha normal por acaso, justamente quando era atacado? Humm… Ainda o acidente, deixando um pouco a patriotada de lado, penso que foi muito semelhante ao quase acidente da ultrapassagem de Barrichelo sobre Schumacher na Hungria, no ano passado. A situação foi idêntica, um piloto espremeu o outro contra o muro. Só que dessa vez, eles bateram. Nada aconteceu com Button, Hamilton teve apenas sua suspensão traseira quebrada, ninguém se machucou. Mas, e se…

Pelas cagadas que Lewis vem fazendo ao longo do ano, ficou fácil acusá-lo de agressividade exagerada e essas coisas. Pra completar, sua declaração infeliz sobre ser perseguido por ser negro, há algumas semanas. Pois tenho certeza que, se a situação fosse ao contrário, o garoto teria levado até bandeira preta.

O segundo ponto foi a soberba de Vettel e da Red Bull. Depois do último safety car, o alemãozinho teve a chance de abrir uma vantagem suficiente para vencer sem problemas. Mas eles acreditaram, piloto e equipe, que era melhor administrar. Só por isso, Button teve a chance de pressionar o líder da prova.

Por fim, Vettel errou. Quase rodou. Porque precisou forçar o carro no “limite extremo” (é assim, Galvão?). Andando muito forte, com pneus lisos, em um trilho ladeado por poças, o risco de dar errado era enorme. E deu. Não, não acho que Vettel errou porque sentiu a pressão. Errou porque errou, porque as condições eram dificílimas, porque todo mundo erra uma hora. E, a dois quilômetros da linha de chegada, era o único que ainda não tinha rateado. Acontece.

Mesmo assim, cinco vitórias e dois segundos lugares em sete corridas. Não, não tenho dúvidas de quem será o campeão (casos de cataclismas não estão previstos, claro). Mas, em que pese o domínio de Vettel sugerir o tédio, vale a pena acompanhar a temporada, corrida a corrida. Elas estão uma delícia de assistir.

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Pet

E viva o RSS do blog. A Carla passou pra Carol que passou pra mim que cliquei e cheguei nO Buteco da Net, do Humberto Oliveira. O vídeo mostra um flash mob no canadá. O objetivo é a conscientização sobre a presença dos plásticos em nosso planetinha.

Pra mim, um vídeo como esse é muito mais eficaz do que boa parte das palestras que assistimos por aí. Sem contar que a turma que participou deve ter se divertido horrores.

Vale assistir.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Flashmob, posted with vodpod

 

O meu calendário

Virou notícia entre hoje e ontem a apresentação do traçado do novo autódromo de Austin, que receberá a F1 a partir de 2012. Mais uma obra de Herman Tilke, o sujeito que desenhou todos os últimos circuitos homologados pela FIA para as principais categorias do mundo nos últimos anos. E como quem acompanha sabe, um monte de pistas sem personalidade, sem gosto.

Dessa vez, no entanto, ele saiu do padrão reta-cotovelo-retinha-muitas curvas de baixa-reta. Pelo contrário, ao invés de tentar desenhar algo novo, fez bom uso do relevo do terreno e ainda usou referências de outras pistas que deram certo, como Silverstone, Hockenheim e Istambul. De quebra, uma reta de 1,2km. Resumindo, cheiro bom. Tomara que se confirme.

Inspirado pelo novo desenho e pela passagem da F1 por Spa, resolvi olhar os autódromos que estão por aí, levando em conta a máxima de que “pista boa, corrida boa”.

Ao longo dos anos, especialmente nos últimos 20 anos, algumas circunstâncias provocaram mudanças significativas no calendário, excluindo corridas clássicas e incluindo novos circuitos em locais nada afeitos ao automobilismo. Entre eles, a segurança, especialmente após a morte de Senna. Mas o dado mais importante, a grana.

Graças a isso e mais alguma coisa, um campeonato que era praticamente todo disputado na Europa, com viagens a América do Norte (Canadá, EUA e México), América do Sul (Brasil e Argentina), Japão, Austrália e África do Sul (apesar do apartheid), hoje passa pelo Oriente Médio (Bahrain e Abu Dhabi) e passeia pela Ásia (China, Malásia, Cingapura e Coréia do Sul, além do Japão), em locais em que é comum ver arquibancadas vazias. Afinal, países que não tem qualquer tradição automobilística. E a Índia ainda vem aí.

Enquanto isso, pistas como Hockenheim foram mutiladas e países tradicionais como França e Portugal não recebem mais a Fórmula 1.

Tentei, então, separar que pistas ainda valem realmente a pena, no calendário deste ano, e cheguei a cinco circuitos que, quase sempre, nos dão boas corridas de presente: Interlagos (Brasil), Montreal (Canadá), Spa (Bélgica) e Suzuka (Japão). Mas aí, como um campeonato não seria bom se disputado em looping em apenas quatro lugares, separei mais cinco que – pela tradição, por boas provas mesmo num circuito bobo ou por uma boa idéia, como sua famosa curva 8 – poderiam fazer parte do calendário: Istambul (Turquia), Melbourne (Austrália), Mônaco (Monte Carlo), Monza (Itália) e Silverstone (Inglaterra).

Como em 2011 o campeonato promete ter 20 provas (a Índia vem aí…), fui procurar mais 11 circuitos que, ao meu gosto, poderiam nos divertir ao longo do ano. Sem saudosismos inúteis, tentei separar entre os autódromos que poderiam ser usados imediatamente, com poucas adaptações, afinal a ordem é gastar pouco.

Meu campeonato, então, ficaria assim: Kyalami (África do Sul), Buenos Aires (Argentina), Interlagos (Brasil), Hermanos Rodrigues (México), Watkins Glen (EUA), Montreal (Canadá), Silverstone (Inglaterra), Estoril (Portugal), Jerez (Espanha), Mônaco (Monte Carlo), Ímola (San Marino), Nurburgring (Europa), Melbourne (Austrália), Suzuka (Japão), Paul Ricard (França), Zandvoort (Holanda), Istambul (Turquia), Spa (Bélgica), Hockenheim, o antigo (Alemanha) e Monza (Itália).

E aí, alguém tem alguma outra idéia?

Como usar suas mãos

Não sei se é novo, sei que se chegou ao meu e-mail já está espalhado pelo mundo.Recebi as reproduções de 23 cartazes de uma campanha global da AT&T. Reproduzo seis abaixo. Não sei se por coincidência ou implicância pelo clichê ‘samba, mulata, carnaval’, achei o cartaz do Brasil o mais fraco. Mas, no geral, gostei muito das peças.

Basicamente, pintura corporal nas mãos, substituindo a brincadeira antiga de sombras na parede, e os aparelhos celulares que eles querem promover, construindo cenários que tentam reproduzir a atmosfera de cada país. O conceito básico, ‘a melhor cobertura ao redor do mundo’.

A idade do mundo

Recebi de um amigo por e-mail, achei excelente e fui procurar autor, origem etc. Encontrei o cara e confirmei algo de que desconfiava, de leve: a Argentina tem mais coisas interessantes, além do futebol e dos chorizos.

Hernán Casciari nasceu em Mercedes, Buenos Aires, a 16 de março de 1971. Escritor e  jornalista argentino. É conhecido por  seu trabalho ficcional na Internet, onde  tem trabalhado na união entre literatura e blog, destacado na blognovela. Sua  obra mais conhecida na rede, Weblog de una mujer gorda, foi editada em papel  com o título Más respeto, que soy tu madre.

Li uma vez que a Argentina não é nem melhor, nem pior que a Espanha, só mais jovem. Gostei dessa teoria e aí inventei um truque para descobrir a idade dos países baseando-me no ‘sistema cão’. Desde meninos nos explicam que para saber se um cão é jovem ou velho, deveríamos multiplicar sua idade biológica por 7. No caso de países temos que dividir sua idade histórica por 14 para conhecer sua correspondência humana.

Confuso? Neste artigo exponho alguns exemplos reveladores. A Argentina nasceu em 1816, assim sendo, já tem 190 anos. Se dividirmos esses anos por 14, a Argentina tem ‘humanamente’ cerca de  13 anos e  meio, ou seja, está na pré-adolescência. É rebelde, se masturba, não tem memória, responde sem pensar e está cheia de acne. Quase todos os países da América Latina têm a mesma idade, e como acontece nesses casos, eles formam gangues. A gangue do Mercosul é formada por quatro adolescentes que têm um conjunto de rock. Ensaiam em uma garagem, fazem muito barulho e jamais gravaram um disco.

A Venezuela, que já tem peitinhos, está querendo unir-se a eles para fazer o coro. Na realidade, como a maioria das mocinhas da sua idade, quer é sexo, neste caso com o Brasil que tem 14 anos e um membro grande. O México também é adolescente, mas com ascendente indígena. Por isso, ri pouco e não fuma nem um inofensivo baseado, como o resto dos seus amiguinhos. Mastiga coca, e se junta com os Estados Unidos, um retardado mental de 17 anos, que se dedica a atacar os meninos famintos de 6 anos em outros continentes.

No outro extremo está a China milenária. Se dividirmos os seus 1.200 anos por 14 obtemos uma senhora de 85, conservadora, cheirando a xixi de gato, que passa o dia comendo arroz porque não tem – ainda – dinheiro para comprar uma dentadura postiça. A China tem  um  neto de 8 anos, Taiwan, que lhe faz a vida impossível. Está divorciada faz tempo de Japão, um velho chato, que se juntou às Filipinas, uma jovem pirada, que sempre está disposta a qualquer aberração em troca de grana. Depois, estão os países que são maiores de idade e saem com o BMW do pai. Por exemplo, Austrália e Canadá. Típicos países que cresceram ao amparo de papai Inglaterra e  mamãe França, tiveram uma educação restrita e antiquada e agora se fingem de loucos.

A Austrália é uma babaca de pouco mais de 18 anos, que faz topless e sexo com a  África do Sul. O Canadá é um mocinho gay emancipado,que a qualquer momento pode adotar o bebê Groenlândia para formar uma dessas famílias alternativas que estão na moda. A França é uma separada de 36 anos, mais puta que galinha, mas muito respeitada no âmbito profissional. Tem um filho de apenas 6 anos: Mônaco, que vai acabar virando puto ou bailarino… ou ambas coisas. É a amante esporádica da Alemanha, um caminhoneiro rico que está casado com Áustria, que sabe que é chifruda, mas não se importa.

A Itália é viúva faz muito tempo. Vive cuidando de São Marino e do Vaticano, dois filhos gêmeos idênticos. Esteve casada em segundas núpcias com Alemanha – por pouco tempo e tiveram a Suíça – mas agora não quer saber mais de homens. A Itália gostaria de ser uma mulher como a Bélgica: advogada, executiva independente, que usa calças e fala de política de igual para igual com os homens (A Bélgica também fantasia de vez em quando que sabe preparar espaguete).

A Espanha é a mulher mais linda de Europa (possivelmente a França se iguale a ela, mas perde em espontaneidade por usar tanto  perfume). É muito tetuda e quase sempre está bêbada. Geralmente se deixa foder pela Inglaterra e depois a denuncia. A Espanha tem filhos por todas as partes (quase todos de 13 anos), que moram longe. Gosta muito deles, mas a perturbam quando têm fome, passam uma  temporada na sua casa e assaltam sua geladeira.

Outro que tem filhos espalhados no mundo é a Inglaterra. Sai de barco à noite, transa com alguns babacas e nove meses depois, aparece uma nova ilha em alguma parte do mundo. Mas não fica de mal com ela. Em geral, as ilhas vivem com a mãe, mas a Inglaterra as alimenta. A Escócia e a Irlanda, os irmãos de Inglaterra que moram  no andar de cima, passam a vida inteira bêbados e nem sequer sabem jogar futebol. São a vergonha da família.

A Suécia e a Noruega são duas lésbicas de quase 40 anos, que estão bem de corpo, apesar da idade, mas não ligam para ninguém. Transam e trabalham, pois são formadas em alguma coisa. Às vezes, fazem trio com a Holanda (quando necessitam maconha); outras vezes cutucam a Finlândia, que é um cara meio andrógino de 30 anos, que vive só em um apartamento sem mobília e passa o tempo falando pelo celular com Coréia. Coréia  (a do sul) vive de olho na sua irmã esquizóide. São gêmeas, mas a do Norte tomou líquido amniótico quando saiu do útero e ficou estúpida. Passou a infância usando pistolas e agora, que vive só, é capaz de qualquer coisa.

Os Estados Unidos, o retardadinho de 17 anos, a vigia muito, não por medo, mas porque quer pegar suas pistolas. Israel é um intelectual de 62 anos que teve uma vida de merda. Faz alguns anos, Alemanha, o caminhoneiro, não a viu e a atropelou. Desde  esse  dia, Israel ficou que nem louco. Agora, em vez de ler livros, passa o dia na sacada jogando pedras na Palestina, que é uma mocinha que está lavando a roupa na casa do lado. Irã e Iraque eram dois primos de 16 que roubavam motos e vendiam as peças, até que um dia roubaram uma peça da motoca dos Estados Unidos e acabou o negócio para eles. Agora estão comendo lixo.

O mundo estava bem assim até que, um dia, a Rússia se juntou (sem casar) com a Perestroika e tiveram uma dúzia e meia de filhos. Todos esquisitos, alguns  mongolóides, outros esquizofrênicos. Faz uma semana, e por causa de um conflito com tiros e mortos, nós, habitantes sérios do mundo, descobrimos que tem um país que se chama Kabardino-Balkaria. É um país com bandeira, presidente, hino, flora, fauna… e até gente! Eu fico com  medo quando aparecem países de pouca idade, assim de repente. Que saibamos deles por ter ouvido falar e ainda temos que fingir que sabíamos, para não passar por ignorantes. Mas aí, eu pergunto: por que continuam nascendo países, se os que já existem ainda não funcionam?

Hernán Casciari