Do barulho

Caixa de somFalta de assunto é um negócio chato, muito chato. Fico tentando olhar em volta para ter do que falar, mas não encontro nada realmente interessante. Futebol? O ano está só começando, todo mundo a meia bomba, nada empolga. Nem os quatro gols do brocador. Fórmula 1? Quem ainda se interessa pelo tema já sabe o que aconteceu na semana passada e nem há muito mais a acrescentar. As “vaquinhas” do PT? Essa é melhor deixar pra lá pra gente não se aborrecer. E o que mais? O calor no Rio, a convocação dos MAV, a moça do Magazine Luiza, a vontade de viajar, livros e filmes, rolezinhos?

E lembrei da academia.

Antes é preciso dizer alguma coisa que, pelo menos pra quem convive comigo, é um tanto óbvia: sou preguiçoso. Mas isso nunca me impediu de fazer exercícios ou até mesmo de frequentar algumas academias. A preguiça também nunca evitou que eu andasse, corresse, pedalasse, jogasse bola (várias delas) e velejasse. Até personal eu já tive. Malhava numa praça. Mas ontem, enquanto esperava Helena em sua aula de natação, me dei conta de porquê odeio as academias.

Primeiro por causa do ambiente. Assistindo a turma, é muito difícil me convencer que quem está ali é realmente preocupado com a saúde. Entre selfies em frente aos espelhos, supinos, cabelos escovados, esteiras, malhas e esmaltes multicoloridos, aulas de spinning e músculos turbinados, minha nítida impressão que todos estão ali apenas para se exibir. Ou quase isso. E me refiro aos ‘atletas’ de todas as idades.

A outra razão é o barulho. Ou aquilo que eles chamam de música tocando no último volume. E não adianta fone de ouvido não. Aquele bate-estaca invade sua cabeça e até te impede de pensar. É claro que se o objetivo é esse, levar o sujeito a fazer tudo (sua série ou o que mais) mecanicamente, bingo! Pra mim, insuportável.

De quebra, boa parte das academias médias e grandes tem também um sem número de TVs ligadas, cada uma em um canal, e – na maioria das vezes – com o som alto. Pra quê? Por quê?

Ok, pode me chamar de velho. Vai ver, em vez dos 40 que imagino, eu tenho mesmo é 96 anos de idade. Mas pelamordedeus! Será que sou o único que acha isso anormal? Porque é claro que isso não é tudo. Com as caixas de som berrando, é impossível conversar com qualquer pessoa e todos os professores dão suas aulas aos gritos (alguns acreditam que isso estimula). Pergunto: isso faz bem? Alguém realmente acredita que isso faça bem?

Tentem me convencer.

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Quase terra de ninguém

Usina_Calçada_IPra quem não conhece o Rio, há por aqui uma coisa estranha em muitos de seus bairros: os sub-bairros. Não sei se ocorre o mesmo em outras cidades, mas aqui é muito comum. Jacarepaguá, por exemplo, tem tantos que até parece uma cidade pequena, daquelas que têm suas fronteiras engolidas pelas grandes cidades.

Eu, por exemplo, moro na Tijuca, onde estão a (hoje pouco conhecida) Aldeia Campista, a Muda, a Usina e o Alto da Boa Vista. E informalmente há ainda o Alto Tijuca e a Praça Saens Peña (todos que moram próximo a ela dizem que moram nela).

Eu, mais especificamente, moro na Usina, que fica entre a Muda e o Alto. A região, que abriga algumas das favelas mais conhecidas e perigosas da cidade, como o Borel e Formiga. Durante décadas, a área foi relegada, abandonada mesmo. Mas, com a chegada das UPP, tudo ficou tranqüilo (ao menos oficialmente).

Estou lá há quase dois anos e nunca vi qualquer episódio de violência, de assaltos a trocas de tiros. Nada. E o lugar é bem agradável, perto da mata, temperatura amena, silencioso. Mas a cultura do abandono deixa suas marcas e a turma que vive ali, boa parte pelo menos, é mais relaxada e deseducada do que mandam os bons manuais de convivência.

Pensando em comportamentos cidadãos, é quase como terra de ninguém. Até hoje não sei se há cocô de cachorro espalhado por todas as calçadas ou se há calçada espalhada pelo cocô de cachorro. Também há o caso de casas e apartamentos que abusam do barulho além do horário recomendável. Avanços de sinais são o hábito, inclusive nas proximidades das escolas que há por ali. E não há a menor diferença entre ônibus, vans e carros, todos circulam e avançam em igual proporção. E o estacionamento nas calçadas…

Não há qualquer calçada do bairro em que não haja um ou muitos carros esparramados por elas. Como nas fotos. Nesse ponto da rua Conde de Bonfim, as calçadas são muito largas e os condomínios chegam a pintar vagas no chão. Mas, ainda assim, a turma abusa. Reparem nas imagens. Como é que se passa entre o Polo e o poste se você está de bengalas, carrega sacolas de mercado, empurra um carrinho de bebê ou uma cadeira de rodas?

Ah, é claro que já enviei mensagens para a prefeitura sobre os mais variados assuntos, alguns atendentes do 1746 já me conhecem tão bem que quase os convidei para a ceia de Natal. Mas você aí recebeu alguma resposta? Ou viu alguma atuação oficial por lá? Pois é, nem eu. E a verdade é que não há a menor perspectiva de melhora justamente porque não há atuação do poder público.

Aliás, a falta de ações da prefeitura é vergonhosa no Rio. Já há décadas que, se o sujeito não mora na Zona Sul, Barra ou um ou dois bairros da zona Norte escolhidos (Eduardo Paes ungiu Madureira), você está lascado. Mas e daí? Vamos levando, empurrando com a barriga, com ninguém reclamando e outros ninguéns não fazendo nada. Porque, como disse o Porchat, o lugar que a gente mora é legal pra caramba.Usina_Calçada_II

A pior do ano

E a Fórmula 1 em Valência, o GP da Europa, que bosta…

Quem se deu ao trabalho, assistiu ontem à pior corrida do ano. A pista – projetada por Tilke em meio à fantástica marina – é tão vagabunda que não houve pneu de farelo nem asa móvel suficiente pra fazer milagre.

O que houve de notícia mesmo, nos últimos dias, foi a FIA tentar acabar com o domínio da Red Bull e de Sebastian Vettel. Do jeito que as coisas vão, não será estranho se o campeonato for decidido na Bélgica ou Itália. Com medo de que isso afugente a audiência, mudaram as regras no meio do jogo. Duas, pra ser exato.

Desde Valência já não é mais possível utilizar um mapeamento diferente de motor, entre classificação e corrida. Ninguém nunca vai admitir, mas o objetivo era evitar que Vettel conquistasse suas poles de maneira tão fácil. E não adiantou nada, o alemão saiu na frente. E lá continuou, sem dar qualquer chance a ninguém, até a bandeira quadriculada.

A outra mudança vale a partir de Silverstone, próxima corrida. Uma mudança bem radical na aerodinâmica dos carros, com a proibição do difusor soprado. Basicamente, os gases do escapamento são jogados pra frente, passam por baixo do assoalho e – ao ser expelido pelo difusor – geram mais downforce. Como os carros de Adrian Newey são os mais eficientes aerodinamicamente, em tese são os que perderiam mais. Mas, não sei por quê, estou desconfiado de que o cenário não vai mudar nada.

A essa altura, oito corridas, seis vitórias e dois segundos lugares. E ainda tem gente que acredita que o campeonato está aberto.

Motores

A novidade do dia é uma tal carta assinada por 17 dos 19 circuitos do calendário, contra a mudança dos motores imposta pela FIA e corroborada – depois de alguma negociação – pelas equipes.

Quem gosta do assunto deve lembrar que a FIA instituiu novos motores 1.6L turbo com quatro cilindros a partir de 2013. Os objetivos, oficialmente, eram reduzir o custo, ser um pouco mais verde e atrair novas fabricantes. Extra-oficialmente (tem hífem?), uma negociação com a Volkswagen e sua eterna promessa de um dia entrar na F1, fosse com a Porsche, fosse com a Audi.

Depois de um bom bocado de boatos, birras e picuinhas, além do fim das conversas com a montadora de Ingolstadt, ficou acertado que a mudança acontecerá em 2014: motores 1.6L com seis cilindros em V e limitação de 12 mil giros.

Acontece que Bernie Ecclestone (de mãos dadas com Ferrari e McLaren) é contra e costurou a rebelião dos autódromos (dos organizadores, na verdade), que reclamam – entre outras coisas – que o barulho diminuirá, que isso faz parte do show e que isso afastará o público. Entre as exigências, que sejam liberados os 18 mil giros.

Basicamente, mais uma novelinha…

Crônica de sexta-feira (5)

Fazia tempo que o moço não aparecia e as sextas-feiras andavam um tanto mais sem graça. E nos dias em que vivemos, com as perspectivas (ou falta delas) que temos, faz muita falta sorrir.

Palavras sonoras

Sem fazer uma pesquisa , apenas de memória, segue uma homenagem ao talento e criatividade dos redatores das revistas em quadrinhos, que além das histórias que tanto encantam crianças, jovens e adultos pela simplicidade, inocência e humor ainda conseguem “escrever” os sons do nosso dia a dia de forma única. Espero que ao ler o texto vocês se lembrem de muitos outros sons dos quais não me recordei.

Au, au e miau são óbvios demais, mas cuidado com o cachorro que faz rrrrrrrrrrrrrrrrrr. Aliás, na “linguagem animal” temos muitos bons exemplos, né? Quá, quá, piu, piu, ronc, ronc, fiiiizzz (cobra), zzuuummm para as abelhas voando, có,có e cócóriiicóó para o galinheiro, rrriiiiiimmm dos cavalos. Cáin, cáin é cachorro chorando ou resmungando. Já o gato, enroscando nas pernas das pessoas, faz roonn, roonn.

Os barulhos relacionados ao trânsito também são tradicionais: fon fon e beep beep, olha o carro! Como é que a criança brinca com o carrinho? Vruumm, vruumm. Eu esqueci como é escrito o som de uma freada . . .

Smack, e lá se foi um beijo daqueles. E na cozinha, quantos outros exemplos. Scronc, scronc, faz o estômago de quem está com fome; Nham, nham, que delícia. O seu antônimo é aaarrrggghhh!, que gosto horrível. Nhac, uma engolida ou uma mordida daquelas bem saborosas; glupt glupt, faz a garganta quando um líquido passa e chup chup, bastou abreviar o verbo e o uso do canudinho está redigido. Crac, crac, mastigando algo, pode ser daí que vem o nome do biscoito creme cracker.

Tchibum, alguém ou algo caiu na água. Crash e clap clap vieram da língua inglesa e foram incorporados sem precisar de serem traduzidos, para explicar uma batida de carro ou os aplausos. Toc toc, alguém bate à porta ou ding, dong, toca a campainha e bléim, bléim, fazem os sinos. O bang bang extrapolou o tiro de uma arma de fogo e virou gênero de cinema. Por falar em armas, a metralhadora faz um rá tá tá tá inconfundível, assim como aquela da música. Cruzou com uma mulher bonita? Fiu fiu !!! Huuuummmmm, gênio pensando!

zzzzzzzzzzzzzzz, que sono gostoso, enquanto o zzzuuummm é algo que passa rápido. Bum! Bum! estouro de fogos de artifício ou de qualquer outra coisa. Iiiiinnnhééérrrrccc , êta porteira véia; cóin, cóin faz a mola quando pressionada. Para chamar a atenção ou pedir silêncio, shshshshshsh!!!!! Cabran ou cabrum, não me lembro bem, mas é tempestade que se aproxima; úúúuúúúú faz o vento no corredor; puf! sumiu, desapareceu. Tchan, tchan, tchan, tchan . . . atenção, vai começar o show. Snif, snif, chorando com o fim do show. Blá, blá, blá, que conversa desinteressante; rá, rá, rá, muito engraçado; bbbbrrrrrrrr, que frio que está fazendo; ploc, ploc, vai sair uma pipoca quentinha; pow! uma “coelhada” da Mônica no Cebolinha ou um soco de qualquer super-herói em qualquer vilão.

Mas o bom mesmo é ouvir algo rápido e repetitivo, parecido com brááééiinn, brááééiinn, brááééiinn, às sextas-feiras, lá pelas 17h30, quando o meu carro sai do asfalto e entra no caminho de calçamento, chegando em casa. Este som indescritível me remete aos bons momentos que se aproximam, no fim de semana que está começando. O som vem do porta-malas . . . são as garrafas de cerveja, cheinhas, balançando no engradado !!!!

Um bom fim de semana prá vocês, com ruídos maravilhosos.

Rodrigo Faria

Corridas silenciosas?

O filme “Grand Prix”, até hoje insuperável em seu gênero, inicia com a imagem de um escapamento em silêncio que, após o motor ser ligado, multiplica-se por toda a tela. O som vai num crescendo, partindo de um ruído para uma sinfonia de arrepiantes roncos. Não há quem consiga ficar alheio a estas cenas e, para os mais ligados, não há coração que não dispare. O barulho ensurdecedor e excitante é parte fundamental da emoção de uma corrida.

No entanto, vivemos uma nova realidade mundial. A consciência ambiental, o fim das reservas de petróleo e a ameaça de um aquecimento global mais cedo do que se esperava transformam rapidamente indústrias, produtos e modos de vida. Uma das recentes invenções, já em franco desenvolvimento e em fase de produção, são os automóveis movidos a eletricidade ou com células de hidrogênio, híbridos ou não.

Exceção feita aos híbridos, parece que estamos frente ao final da era do motor a combustão. Motores elétricos ou com células de hidrogênio não têm explosão. Não formam gases que necessitem de um sistema de escapamentos para dissipá-los. Assim, teoricamente, não fazem barulho.

Pode-se argumentar que furadeiras, brocas de dentista e motores dos carrinhos de autorama produzem ruídos. Mas nada próximo do som ensurdecedor dos poderosos propulsores a explosão, especialmente quando estão alinhados para uma largada. Adicione-se à provável falta de ruídos ensurdecedores a também ausência dos óleos e seus diferentes aromas, de graxa e da gasolina. Aquele ambiente místico das corridas, que costuma freqüentar nosso imaginário, tornar-se-á muito diferente do que é hoje.

carrosQuem teve o prazer de ouvir o ronco do motor V12 da Ferrari 512 descendo o antigo retão em Interlagos, ou de lembrar o pipocar dos V8 Cosworth ao reduzirem para uma curva, ou mesmo o ensurdecedor e agudo som dos V12 Matra, dos 6 cilindros dos Opala Stock Car, do simpático ruído embaralhado dos motores dos Fusca Divisão 3, deve, neste momento, estar tentando imaginar esta corrida silenciosa. Aquele que, como tantos de nós, se orgulhava, lá pela década de 70, de reconhecer o motor que descia a reta, mesmo com os olhos vendados, lê este texto com incredulidade.

Sem estes ingredientes, só nos resta imaginar ou sentir o coração bater mais forte vendo velozes automóveis realizarem incríveis manobras e peripécias, no mais absoluto silêncio. Como reagiremos? E a emoção, sem estes ingredientes, será a mesma? Será que seremos atraídos pelo desejo de assistir alguma competição assim?

Apesar de coerente com os novos tempos, com a sustentabilidade do planeta, eu não consigo imaginar. Só sei que será muito estranho. Poderemos nos adaptar, mas será como sexo sem gemido, orgasmo sem gritos, tristeza sem choro, amor sem brilho nos olhos.

Roberto Brandão (publicado no site Grande Prêmio, coluna Retrovisor)