Pinto no lixo

Tam Tum / Foto: Lúcia FerreiraComecei a velejar em 2006. Sempre como tripulante. Manza. Mas nesses poucos anos, já houve muitas boas histórias, em terra e mar, e muitos momentos especiais, especialíssimos. Como a primeira vitória, no Picareta. Ainda estava em recuperação da última cirurgia joelho e levei um tombo na cabine no meio de uma manobra. Como eu tinha aprontado na regata anterior e desperdiçado a vitória, caí com o cabo do balão na mão e não soltei nem por decreto. No final deu tudo certo, e apesar do susto, o joelho ficou bom.

Em 2007 não foi um dia, mas um fim de semana inteiro: a conquista do Circuito Rio. A tripulação estava azeitadíssima, velejamos demais e não erramos nada. E ganhamos o campeonato com uma regata de antecedência.

A Santos-Rio de 2008 também teve seus momentos, pro bem e por mal. Primeiro, a levada do Fandango de Ilhabela pra Santos, uma velejada maravilhosa num dia lindo. Eu e Armando fizemos a armação em trisail que usávamos no Picareta e surpreendemos até o Sergio, dono do barco e que já cansou de velejar nesse mundão de meu Deus. Minha primeira travessia em dia de gala.

Já na regata, o sábado à noite foi marcante. Íamos nos arrastando sem vento praticamente desde a largada e àquela altura já surgia a discussão sobre abandonar ou não, por conta dos compromissos da segunda-feira. E íamos nos revezando em turnos e no leme. E calhou do vento entrar, já noite fechada, com nuvens negras e um bom tantinho de chuva. Batismo dos infernos e eu no leme (eu que não tocava nem o Picareta dentro da baía de Guanabara). E toda aquela teoria na cabeça e bota o barco pra andar no escuro só tentando sentir o balando das ondas, e a velocidade aumentando e a turma ficando animada e… Depois de alcançar a velocidade máxima do fim de semana, o céu abriu e o vento foi embora. Meia hora depois do auge da adrenalina e excitação, o cúmulo da frustração. Fui voto vencido e abandonamos.

No ano seguinte, nossa segunda e última Santos-Rio, não foi fácil deixar Helena recém nascida, com menos de uma semana de vida, pra matar uma frustração tão grande. Mas valeu muito muito a pena, pela velejada e pelo resultado.

Esses foram só alguns e ontem eu tive outro dia especial. Finalmente, e depois de muitos meses, voltei a velejar. Minha estréia no Tam Tum, o barco mais novo da família Boteco 1. E eu estava ancorado há tanto tempo que o barco já está quase fazendo aniversário e ainda não tinha experimentado.

Não era dia de regata, houve uma revoada em protesto contra a poluição da baía. Basicamente um passeio. E lá fomos nós, eu, Oscar e (oh, captain, my captain) Morcegão. E nem lembro como, acho que estavam testando alguma coisa no motor que acabou de ser revisado, mas logo depois de sair do clube alguém gritou “Gustavo, fica aqui”. E lá fui eu pro leme. E depois que resolveram tudo, panos pra cima e vamos velejar. E eu lá, tocando o bicho como se tivesse feito isso a vida inteira.

Que barco gostoso da porra, que dia maravilhoso. Um tantinho de vento, um pouquinho de swell, mais ou menos 80 barcos juntos, e a gente se divertindo. Primeira vez que tocava um barco com roda, ao invés da cana de leme. E fora um episódio ou outro, tudo em casa e adaptação perfeita. E com aquele tantinho de vento, 10 nós no máximo, fizemos o bichinho andar no máximo de seu rendimento (pelo que os dois falaram): 6,5 a 7 no popa com asa de pombo, 4,5 a 5 no contravento. E ele lá, soltinho, confortável. E eu ali, pagando de almirante, todo pimpão, quatro horas felizes como há muito não vivia. Difícil vai ser alguém me tirar do leme na próxima velejada.

E o melhor é que, depois de chegar no clube, dava até pra ver o sorriso do barco. Duvida? Então tira a bunda da cadeira e vai velejar. Você vai entender…

Barqueata

Revoada do saneamento (barqueata)

Feiticeiras por boreste?!?

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte”. Se você acha que conhece isso de algum lugar, mas não sabe de onde, não se preocupe. Afinal, Belchior não é mesmo um dos sujeitos mais tocados nas nossas rádios. Aquele verso lá em cima abre a canção Sujeito de Sorte, lançada em 1976 no LP Alucinação. Velho né? Pois o que eu posso dizer é que ontem, enquanto o caturrávamos pela Baía de Guanabara, sentia como se a música fosse novinha em folha.

Não, não pretendo analisar a regata tecnicamente. Nem teria sentido, ontem estava apenas aproveitando. E mesmo no momento em que estou aqui dedilhando o teclado, manhã de segunda, ainda não sei qual foi o resultado ou quantos barcos estavam na raia da 13ª Regata Rio Boatshow – 54º Aniversário do Jurujuba Iate Clube. O que sei é que fomos relativamente competentes e fizemos – Armando, Morcegão e eu – o Picareta andar bonitinho para cruzar em primeiro.

Mas, se fomos competentes, onde é que está a sorte lá da primeira linha? Acompanhem comigo: não é todo dia que conseguimos fazer uma regata com vento decente na Guanabara, e ontem ventou (como no sábado); não é todo dia que a comissão de regatas prepara uma armadilha, criando um percurso tão habitual (Feiticeiras por boreste?!?) quanto ver neve cair em Icaraí; não é todo dia que a tripulação do Smooth se enrola com o percurso; não é todo dia que um sujeito que ficou sem velejar por um ano volta ao mar com uma vitória (aliás, outro verso da mesma canção que se encaixa bem aqui é “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”).

Semana que vem acontece o estadual da classe e, sinceramente, a expectativa por qualquer resultado é zero. Só espero mesmo que os Velamar22 encham a raia e tenhamos um final de semana daqueles que não se esquecem. Mas, vai que a música toca de novo… “Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte…”

Foto do dia: não há lugar como o nosso lar

Salve São Sebastião!

Nos mares da Sérvia

O Rio sediou, na semana passada, o Campeonato Mundial da Classe Star, classe olímpica que reúne boa parte da nata da vela mundial. Na disputa, campeões olímpicos e mundiais entre as 72 duplas participantes.

Infelizmente, não pude assistir sequer uma regata. Mas mesmo acompanhando de longe, deu pra torcer e comemorar o terceiro lugar da dupla Torben Grael e Marcelo Ferreira.

O objetivo desse post é reafirmar a vocação do esporte para gerar grandes histórias. Abaixo, um achado brilhante: a história de Branislav Erac e Ozren Tosic.

Uma Lição de Esportividade

Como todos sabem, está sendo realizado o Mundial de Star 2010 aqui no Rio, com um número único de feras e campeões mundiais e olímpicos. Mas a história a ser contada neste relato não é sobre nenhum nome consagrado na classe. Mas sim, de três nomes campeões em vontade e esportividade: Branislav Erac, Ozren Tosic e David Antoncic.

Chamou a atenção um barco da Sérvia ficar em terceiro na regata prévia Darke de Mattos. E chamou a atenção, também, observar que o histórico dos velejadores na classe era praticamente inexistente.

Achei que um barco sérvio disputando um mundial no Brasil já seria, por si só, uma boa história. Mas chamou mais atenção ainda ver que a ISAF mantém a inscrição YUG (da antiga Iugoslávia), que a flotilha a que pertencem consta como SCG (Sérvia e Montenegro, país que também não existe mais) e ver na foto a vela com o numeral SRB (Sérvia). Esta história precisava ser contada, pois tinha tudo para parecer uma participação que, no mínimo, pediu muito esforço e vontade dos velejadores. Mas minha expectativa quando entrei no ICRJ estava longe do que acabei encontrando.

Branislav Erac, de vermelho, o skipper David Antoncic, o técnico, no centro, e o proeiro Ozren Tosic, de azul.

Minha idéia era fazer uma entrevista, com perguntas objetivas e respostas idem. Mas, depois de devidamente credenciado pela organização do Mundial, à qual desde já agradeço a celeridade, fui para a borda da “piscina” do ICRJ e fiquei esperando os barcos chegarem. Nada do barco com o número 25 na proa. Quando praticamente todos já haviam chegado, localizei-os içando o barco do lado destinado aos velejadores de ponta (foram montados três lugares para os barcos). Corri e perguntei por Mr. Erac (o skipper). Vi que estavam limpando e organizando o barco, me apresentei e disse que gostaria de fazer uma entrevista com eles, rápida, sobre a participação deles no Mundial.

Enquanto eles arrumavam tudo, comecei a conversar com o técnico deles, o esloveno David Antoncic. Logo notei ser impossível uma entrevista formal. Era muita história, muita determinação, muita vontade de aprender, de ser competitivo, e comecei a ouvir algumas informações impressionantes. Só há um barco da classe Star na Sérvia, e o barco deles, que viria da Eslovênia, não veio, então tiveram que alugar um às pressas para participar. A Sérvia é, hoje, um país sem saída para o mar e não há lugares para treinos.

Então vieram, cansados, o skipper Branislav Erac e o proeiro Ozren Tosic. Ambos falavam tranquilamente sobre o que perguntei. Suas famílias são de velejadores, mas de outras classes. Branislav afirmou estar aprendendo muito com o mundial e perguntei então o quanto eles já haviam velejado de Star (Branislav tem experiência na Finn), uma vez que a única classe realmente popular na Sérvia me pareceu ser a Optimist. Nisso, ouvi uma das coisas mais impressionantes: para treinar na Sérvia há apenas uns trechos de rio e um pequeno lago. Do contrário, eles tem que viajar horas de carro e treinar na Eslovênia. E o que era pra ser uma entrevista, se transformou numa conversa.

E como se compram barcos, velas e equipamentos na Sérvia? Impossível, temos de comprar na Eslovênia e na Itália, mas estamos nos esforçando na Star para participar das Olimpíadas de 2012. Ao que observei que seria um sonho e o proeiro Tosic complementou, com determinação: “que será realidade”.

Explicaram também a confusão dos registros. É bem simples, as mudanças políticas foram muito rápidas. O registro de Erac é um, do barco é outro.

Erac contou que este é o segundo campeonato de que participam. O primeiro foi na Croácia, bem ao norte, na fronteira com a Eslovênia. Foram de carro, ficaram em território esloveno, correram as regatas e voltaram. E perguntei então: e logo no segundo vocês decidiram entrar num Mundial? A resposta em uníssono dos três: queremos nos desenvolver rapidamente e era a melhor maneira. Perguntei então como se viravam com um barco alugado… As caras não foram boas, tinham que mexer nas regulagens do barco no meio das regatas. Na quinta prova (20 de janeiro), o barco não rendia, mexeram em alguma coisa – que confesso não ter entendido – e o barco ganhou rendimento. Mas na Darke de Mattos, vocês fizeram um terceiro lugar… De novo, os três concordaram: “foi um bom dia”.

Perguntei sobre a troca de experiência com outros velejadores. Fiquei surpreso de dizerem que muitos lhes dão muitas informações, numa classe tão competitiva. Erac e Tosic estavam visivelmente esgotados, tinham passado dez horas na água, mas em momento algum quiseram interromper a conversa. Inclusive, quando o técnico trouxe a planilha com as colocações.

Conversamos sobre amenidades, como a fama do compatriota Petkovic no Brasil, sobre a rivalidade no vôlei e sobre o Rio. Aí eu me dei conta do desprendimento e esportividade destes velejadores. Não conheceram nada do Rio a não ser no trajeto hotel-clube e de dentro d’água. Esperam a sexta-feira livre para ir a alguns pontos turísticos, já que vão embora no sábado. Agradeci a oportunidade da conversa, eles também agradeceram e acrescentaram: “You made our day” – a conversa valeu o dia deles.

Eu discordo senhores Erac, Tosic e Antoncic. Não preciso olhar sua classificação na tabela. Vocês são os campeões de amor ao esporte, de força de vontade, de luta, de humildade, de cavalheirismo. Que levem a bandeira da Sérvia a Londres 2012 e a tragam ao Rio em 2016, se a Star ainda for classe olímpica. Poucas vezes na minha vida vi e conversei com esportistas tão idealistas e apaixonados pelo que fazem. E que, incluindo guerras e mudanças bruscas políticas, entre outras tantas dificuldades, estão focados. O que valeu o dia de vocês foi ver o mais puro exemplo de uma coisa tão pouco lembrada nas disputas de ponta hoje em dia: esportividade.

Luiz Octavio BernardesBoteco 1

Novos domingos

Em uma terça-feira de outubro de 2008, estava a bordo do Fandango, levando o barco no qual correria minha primeira Santos-Rio de Ilhabela para o porto de largada. Ao final daquela semana, foram seis domingos, uma boa história pra contar e uma grande frustração: não completamos a prova.
Daquela semana especial, ficou a promessa de que voltaria este ano para completar a travessia do jeito que desse. E aí, apesar do plano de correr a regata em 2009 ter sido feito ainda dentro d’água em 2008, só no meio do ano começamos a correr atrás de realizá-lo.
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Uniforme da tripulação

E tasca a buscar patrocínio. Se já não é fácil para campeões olímpicos, imaginem para uma turma de amadores que, se já conhecidos pela vela brasileira, tem um nome pouco sugestivo para quem está de fora: Boteco 1. Daí, para cada um que nos apresentávamos, ter que explicar quem somos, de onde viemos, há quanto tempo já velejamos, os resultados que já obtivemos etc etc etc. E conseguimos, aos 45 do segundo tempo.

Então, antes de contar a história da regata, é preciso registrar o muito obrigado aos patrocinadores – Arapongas Tecnologia Mecânica, Ronstan e Petromais –, aos apoiadores – Sportmania e Veleiros Eventos – e ao projeto Três no Mundo, parceiro desde 2008.

1º domingo: 22 de outubro

Voltando a falar de domingos, neste ano o meu tempo disponível para a faina foi mais curto, afinal Helena chegou no dia 17 e só embarquei para Santos na tarde do dia 22. Saímos do Rio, além de mim, os comandantes Ricardo e Leonardo, e o piloto Agnaldo. Uma viagem rápida e tranqüila, com muito boa música durante todo o trajeto, boa conversa sobre assuntos tão díspares quanto as novidades do apedeuta, minhas descobertas com Helena e os planos para a regata.
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Descarrega o carro com o material que saiu do Rio e recarrega com a tralha que não seria usada na regata

Da estrada, direto para o clube para descarregar o carro e recarregá-lo com o material do barco que não viria pela água para aliviar o peso. Finalmente, a tripulação estava toda reunida e ainda com o auxílio luxuoso da presidente Claudia e do paupratodaobra Lobo. Barco pronto, ainda havia trabalho a fazer. No hotel, hora de preparar as velas e aplicar os adesivos dos patrocinadores. Depois, um bom jantar, alguns goles de gelada devidamente rebatida com a quente e cama. Seria nossa última noite de sono em uma cama confortável, pelos próximos três ou quatro dias.
Velas prontas quase meia noite da véspera da largadaÀs 9h30, toda a tripulação já estava reunida no Fandango. Depois de pouco mais de uma hora de algum trabalho, parte foi dar uma volta e tomar um café e o resto ficou a bordo. Eu aproveitei para tirar o último cochilo e já acordei com o barco em movimento, saindo do clube em direção à linha de largada.
Até aquele momento, as expectativas eram as piores possíveis. A largada foi atrasada em uma hora por falta de vento e, graças à previsão de uma enorme calmaria no final de semana, o prazo limite para os barcos completarem a prova aumentou em 24 horas, passando do meio dia de segunda para o mesmo horário de terça. Como em 2008, a promessa era ficar boiando no meio do mar por, pelo menos, dois dias e meio. O vento chegaria na segunda, com uma frente-fria que viria da Argentina.

2º domingo: 23 de outubro

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Com pouco vento, a fragata da Marinha deu o tiro de largada uma hora mais tarde

Nosso segundo domingo começou com o tiro de largada, às 13h. E para quem esperava calmaria, começou muito bem. Vento sul de quase 10 nós e uma velejada folgada em direção a Ilhabela. Um portão de pontuação nos obrigava a passar pelo canal entre a ilha e o continente. E para que tivéssemos o melhor rendimento possível, seria necessário lidar com o vento e a maré. Como ficamos perto da costa durante todo o dia, conseguimos aproveitar o terral que chegou com o início da noite. Vento norte/noroeste entre 10 e 12 nós e meia dúzia de oito ou dez cambadas para começar a cruzar o canal.

A caminho de Ilhabela, Ricardo toca o barco e Oscar trabalha nas velasNesse momento, algo sensacional pelo qual não passamos no ano passado, até por conta da calmaria eterna. Como cruzar o gate bem fazia diferença para o resultado e várias manobras seriam necessárias, toda a tripulação trabalhou sem parar até passarmos pela marca fatal. Como ainda esperávamos ficar sem vento por muito tempo, pensei que aquele seria o grande momento da regata. Vento bom, noite clara de lua, navios atracados no canal funcionando como obstáculos, vários barcos andando junto.
Cruzamos o portão às 2h49 de sábado, após 13h49m34s, na quarta posição.

3º domingo: 24 de outubro

A velejada até a ilha foi sensacional e na hora não tínhamos como saber o resultado por causa das contas necessárias para se achar o tempo corrigido. Mas comemoramos o dia excelente. Logo depois da passagem, hora de descanso para alguns. Eu fui um dos que ficou no convés e as condições da madrugada prometiam que teríamos outro dia de regata muito bom. Entramos num través aberto que nos empurrou até a Ponta das Canas (saída do canal) com velocidade média de 7 e pico de 9,5 nós. Mas aí, acabou-se o que era doce.
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Armando e a roupa de tempo para enfrentar o frio da madrugada

Foi só pegar mar aberto e o vento foi embora. Dois, talvez três nós. Como disse o Armando, “uma merrequinha de dar dó”. Mas mesmo a passo de cágado, rumo 90, direto pro Rio. Fui dormir pouco depois de amanhecer e, quando acordei, pouco depois das 9h, alguma coisa tinha mudado. Encontrei o mar bem mexido e o vento prometendo entrar.

Estávamos nos afastando da costa para aproveitar as melhores condições. Entrou uma lestada que variava entre 15 e 20 nós, contravento daqueles, com mar batido, furando onda e todo mundo na borda pra segurar o barco. O Fandango pulava mais que touro em festa do peão. E pensar que todas as previsões apontavam merreca. Na minha cabeça, só passava uma frase: “previsões são apenas isso, previsões”. Seguimos assim até pouco depois das três da tarde, nosso limite para começar a voltar para perto de terra e conseguir aproveitar o terral. O objetivo era passar pela Ilha Grande antes do amanhecer, mas como o vento caiu um pouco (outra merrequinha de dar dó durante a noite), só conseguimos chegar à Restinga da Marambaia pelas 10 da manhã do dia seguinte.

4º domingo: 25 de outubro

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Além de timonear e resolver toda a logística da equipe, Morcegão - vulgo Leonardo - foi o chef de bordo

Faltava cerca de 50 milhas para cruzar a linha de chegada na entrada da Baía de Guanabara. Àquela altura, já tínhamos enfrentado contravento fraco e forte, través, popa tranqüilo, merrecas, todos os dias com o sol no quengo, noites amenas e madrugadas muito frias. Só faltava chuva e porrada de popa, mas como a tal frente fria só era prevista para a segunda e passamos o dia com vento em paz, com o barco andando entre quatro e seis nós, nem nos preocupamos.

A virada do vento, mais uma vez, foi favorável e conseguimos manter o rumo direto para o Rio, andando no máximo 10° acima ou abaixo da linha ideal para aproveitar as melhores rajadas. E pelo início da tarde já era possível prever a chegada entre dez e meia noite. Resultados? Não tínhamos a menor idéia de como a coisa andava. Apesar da obrigação de todos os barcos informarem posições aos clubes de Santos e Rio às 8h e às 20h, as chamadas de sábado à noite e manhã de domingo não funcionou, muita gente fora do alcance (nós inclusive). Assim, você perde a noção de quem está onde, perto ou longe, no que pode dar. Estávamos mesmo felizes da vida, foi uma velejada daquelas, com direito até a banho de mar na merreca do domingo de manhã.
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Mestre Pimenta, sentado na borda

Devagar, fomos chegando e conseguimos até fazer contato com as famílias e amigos para avisar onde estávamos, que jantaríamos em casa. E o dia foi passando em paz até que, pelo final da tarde, o vento começou a cair. Já estávamos pelo meio da Barra e vinha mais uma viração por aí. Aquela frente da segunda-feira estava chegando e começou a nos empurrar…

Com a chuva que chegou e um ventinho social, resolvemos baixar o balão. Usando a genoa, o rendimento não mudaria muito e não molharíamos mais uma vela tão perto da chegada, mas o través foi virando popa raso e o Ricardo deu a ordem. Balão pra cima e, no vento que oficialmente variou entre 20 e 25 nós, planamos nas ondas de Copacabana a quase dez nós de velocidade. Armando tocando o barco e Ricardo e Morcegão trimando as velas, enquanto eu, Oscar e Pimenta nos segurávamos na borda para equilibrar o barco. Com a chuva e a porrada de popa, não faltava mais nada.
Nessa altura, passando entre as Cagarras e a Redonda, a previsão de chegada a partir das dez caia para algo pelas 8 da noite. Jantar em casa e ainda ver o Fantástico. Mas quem já velejou pelo Rio alguma vez sabe que nada é tão simples assim…
Ao se aproximar do canal entre a Cotunduba e o Pão de Açúcar, o vento começou a diminuir, diminuir, diminuir… Morreu. Resultado: levamos quase duas horas para percorrer o último quilômetro da regata, pouco mais de meia milha. Se não é inacreditável, certamente foi surreal. Velas batendo, todo mundo tentando encontrar o melhor ponto de equilíbrio do barco para aproveitar qualquer sopro que nos alcançasse e aquela agonia tão perto do final.
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A rota do Fandango

Completamos a regata às 22h01m20s, 57 horas depois da largada. Até agora o resultado oficial não saiu, algumas informações erradas obrigaram a organização da regata a refazer todas as contas. O que posso adiantar é que o Fandango Boteco 1 terminou na segunda colocação na classe BRA RGS I. Extraoficialmente, perdemos por 1m26s. Pra quem não esperava nada além de desentalar o abandono do ano passado, quase ganhar é maravilhoso.

A tripulação

Éramos seis a bordo. Para agüentar os turnos necessários para manter o rendimento do barco sempre o melhor possível, descansando o necessário, tínhamos quatro timoneiros e outros dois responsáveis pelo meio do barco. Mas todos estavam aptos a desempenhar qualquer função, claro que de acordo com as condições e a experiência de cada um.
Ricardo foi o nosso comandante. Além de ser o mais experiente a bordo, também é capaz de estar atento a cada detalhe de tudo o que acontece em volta. Impressionante. Também regulou velas, fez a secretaria e fez a proa. Contando com os pitacos de todos, dividiu com Armando – timoneiro, velas e proa – as decisões táticas.
Os outros dois timoneiros foram Pimenta e Morcegão. O primeiro, Mestre, era o responsável pelo barco, além de regular velas e fazer proa. O outro, meu comandante no Picareta, acumulou as funções de proeiro, secretário e cozinheiro. Oscar foi a bordo como proeiro, mas regulou velas e timoneou. Eu, secretário, dei minhas cacetadas nas velas, na proa e no leme.
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Amanhecendo no leme, deixando Ilhabela pra trás

Minha opinião é que o mais importante ao montar uma tripulação (principalmente as pequenas como a nossa), com os turnos funcionando, é garantir que quem fica acordado seja capaz de fazer o barco andar. No nosso caso, o turno (geralmente) rodava a cada quatro horas, sempre com três em cima. E por isso, todo mundo fez um pouco de tudo. E é o melhor que pode acontecer, pois não conheço outra maneira de aprender.

Próximos domingos

Na sexta-feira começa o 40º Circuito Rio. A Santos-Rio vale como abertura para o campeonato, ou seja, já estamos em segundo. Sobre resultados, a melhor política é fazer o mesmo que fizemos na travessia: aproveitar a velejada, o convívio a bordo e celebrar mais três domingos. Na programação, teremos duas regatas barla-sota (algumas voltas entre duas bóias) no primeiro dia, uma de percurso médio no segundo e o encerramento é uma surpresa: pode ser de um jeito ou de outro e só saberemos na hora.
Por hora, resta agradecer aos cinco grumetes que estão comigo e, como diz Seu Ricardinho, ao Maior. Sei que esse é um blog de família, mas não encontrei definição melhor: nossos domingos têm sido phoda.

Imperador? Será mesmo?

Chega a ser curioso que neste blog, ainda novo e onde eu pretendia elucubrações sobre coisas relevantes para o meu país, eu acabe me repetindo sobre temas esportivos, notadamente a Fórmula 1 e o Flamengo. Mas é que além da CPI da Petrobras e, a partir de hoje, a tragédia da Air France (sobre o quê devemos ser bombardeados por alguns dias em todos os jornais, telejornais e afins), pouca coisa tem me mobilizado realmente.

E como rubro-negro que sou, não poderia não falar da reestréia do Adriano no jogo de ontem. E o sujeito já marcou e venceu logo de cara. E, diga-se de passagem, se esforçou bastante. Mas ainda é nítida e assustadora a falta de forma do rapaz (normal por ter ficado muito tempo parado, entre outras coisas).

O imperador / Foto: Marcelo de Jesus (GloboEsporte.com)

O imperador / Foto: Marcelo de Jesus (GloboEsporte.com)

Sobre o Flamengo, pelo que vi no tape (ainda sou da época do videotape), mais do mesmo: muito toque de bola, jogadas manjadas pelas laterais (mais Juan, menos Leo Moura) e um meio de campo combativo e honesto, que ainda por cima faz poucas faltas. Como foi confirmado nos dois últimos jogos, com Josiel (coisas estranhas também acontecem ao Flamengo) marcando dois gols na mesma partida e Adriano já deixando o seu, faltava mesmo o atacante.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente… O campeonato brasileiro é de uma pobreza assustadora. Pois vejam que o Inter (aquele mesmo que levou um baile do Flamengo mas não levou uma surra pela falta do tal atacante) sobra na turma. Daí pra baixo, minha impressão é de que é tudo japonês (e, por favor, não tentem me dizer que japonês é bom de bola, porque não cola).

Se não fosse assim, dois sujeitos como Ronaldo e Adriano – o primeiro, ainda; o segundo, completamente -, fora de forma, não causariam o terror que causam nas defesas adversárias.

Até onde consta, os dois ainda têm esperanças de jogar a próxima copa. E uma vez que não dependem de uma copa para ganhar o dinheiro do leite, penso eu que para provar que são os caras, que não foram chamados de Fenômeno e Imperador à toa. Não sei se conseguirão, não há como saber. E depois de todas as vezes que um (principalmente) e outro já deram voltas por cima, não custa nada torcer pra dar certo e esperar pra ver.

Sobre o Flamengo, como já se viu no primeiro jogo, a presença de Adriano fez muita diferença. O time passa a ter um atacante de verdade, um centroavante que chama a atenção – no mínimo – de um zagueiro e mais um na sobra. Com isso, todos os outros passam a ter mais espaço e mais chance de vingar. De quebra, no meio dessas fantásticas defesas da série A, pode mesmo ser um artilheiro. E essa confusão toda pode até dar certo, porque da maneira como joga e com o ataque, enfim, existindo e funcionando, não vejo muitos outros clubes capazes de brigar com o Flamengo. Tomara.

Mas é bom lembrar que pra tudo dar certo, uma das coisas importantes é manter a boca do Márcio Braga fechada ou é capaz de, em agosto, ele já dizer por aí que está preparando a festa do Hexa. E aí, como se sabe, vai tudo para o brejo.

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Sobre a Copa 2014 não há muito o que falar. Tirando Cuiabá em detrimento de Campo Grande, a escolha das cidades era meio óbvia mesmo. Fora isso, se o Brasil fosse um país sério e a roubalheira não fosse imperar, eu até seria a favor. Mas…

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Pra não dizer que não falei de flores, tenho certeza que se fosse um lugar sério, ninguém seria contra a CPI da Petrobras, ninguém seria contra uma auditoria completa de procedimentos e tudo o mais. Mas, com a campanha presidencial antecipada pelo próprio governo e com a empresa como a responsável pelos maiores investimentos do PAC, é meio óbvio o que vai acontecer, o uso político da situação etc.

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Picareta / Foto: Fred Hoffman

Picareta / Foto: Fred Hoffman

Ontem era dia de vela, mas uma baita duma gripe não me permitiu comparecer. Como consolo, saber que o bravo Picareta, da festeira e festejadíssima equipe Boteco 1, foi o segundo colocado na Taça Comodoro do Iate Clube do Rio de Janeiro. Ah, que inveja…