Viver X Aparecer X Viver X Mostrar

HendrixA primeira vez que escrevi sobre isso foi depois do show do Paul McCartney no Engenhão. Falo de maio de 2011, quase seis anos portanto. Fui àquele show com minha irmã e sua turma de amigos e lembro de ter ficado muito impressionado com a quantidade de pessoas que não viu o show porque não largava o celular, fosse para fotografar, filmar ou trocar mensagens. E olha que na época nem existia o WhatsApp.

Ficou na minha cabeça a seguinte dúvida: como é que o cara perde a chance de viver o show pra ficar tentando registrar o que dá e contando vantagens em trocas infinitas de SMS?

É incrível como isso piorou desde então. E nos últimos meses vivi duas situações muito parecidas, apesar de em ambientes bem diferentes. No AquaRio e no Museu Histórico Nacional, hoje, na exposição The Art of the Brick.

No primeiro, foi assustador ver as pessoas que trabalham no aquário se esgoelando em megafones, durante todo o circuito, para que o público andasse ou, ao menos, desse passagem para quem queria andar. Foi assustador ver adultos lutando (e roubando) o lugar de crianças junto aos aquários. E foi surreal perceber que quase ninguém ali estava preocupado em ver o que realmente havia nos aquários e tanques, mas faziam o maior esforço para clicar suas próprias fotos e sorrisos duros com os animais ao fundo. Ninguém realmente olhava para os animais, ninguém se interessava em saber que animais podiam conviver em cada tanque, ler as placas e telas à disposição. Mas era necessário mostrar pro mundo inteiro que estava ou esteve ali.

Hoje de manhã foi igual, talvez pior. O trabalho de Nathan Sawaya é, sob qualquer ângulo, impressionante. É realmente fabuloso o que ele é capaz de fazer com aquelas pecinhas coloridas. Mas as pessoas circulam pela exposição trombando umas nas outras, não para ver as obras, mas para conseguir o melhor ângulo. E a melhor selfie, claro. Ninguém (ou quase, vá lá) olha de verdade para as obras expostas, se permite ficar impressionado, de queixo caído. Quando você vê uma pessoa ou um grupo lendo as placas que explicam cada obra, descobre pela cara de espanto e comentários (sempre gritados) que só estão interessados em quantas peças foram usadas em cada uma.

E se você tenta dar um passo atrás para ver as obras de outra perspectiva ou ficar parado mais de cinco segundos para entender cada uma ou resolve ler as placas, ainda leva uma bronca ou ouve um comentário de mal humor porque está atrapalhando a foto. Foi quando resolvi escrever a respeito e tirei a foto (única) que ilustra o post.

E pelo que ouvi nos últimos tempos aqui e ali, esse nem é um fenômeno nacional não, antes que alguém se anime a gritar emocionado “isso aqui é Brasil!!!”. Cacete, para quê – afinal – as pessoas vão a exposições, museus, shows, teatros ou sei lá mais o quê?

Sim, eu tiro fotos, até faço vídeos de vez em quando, não sou um ET. Mas qual a razão de se fazer as coisas, visitar lugares etc?

Mas pensando no que ando vendo e vivendo por aí… Não deve ser por acaso que, quando uma criança perguntou curiosa o que era aquilo (uma reprodução em 3D da tela The Kiss, de Gustav Klimt), a mãe o puxou pelo braço dizendo que aquilo era “só a moça e o moço”. Também não deve ser por acaso que, quando estava na última sala, ouvi uma outra senhora olhando a última obra, de nariz torcido, enquanto a fotografava (claro!!!), dizendo “ah, isso é coisa de artista mesmo”.

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Foto do dia: 11 meses e 13 dias: a arte de Helena

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Quase um ano. E como a grande maioria das crianças, Helena já começou a ensaiar seus primeiros passos. Fica em pé, dois ou três passos, senta; em pé de novo, três ou quatro passos, senta. Já poderia ter pingado um vídeo por aqui. Mas seria algo habitual, sem apelo de crítica ou público. Agora, quando você vê que seu nenenzinho já produz obras dignas de um Louvre, Prado, Met…

Ok, ok, claro que eu sei que é corujice. E daí?

Torçam para os bobos

Apesar do risco de deixar o blog monotemático graças à Copa que começa depois de amanhã, não pretendo fazer análises táticas e técnicas por aqui. Afinal, já existem dezenas de blogs, sites, jornais, rádios e redes de TV com comentaristas mais competentes e reconhecidos que eu, pagos exatamente para isso. Mas não vou me furtar a dar meus pitacos.

Por exemplo, concordo com parte do que o Andre Rizek disse ontem sobre a Argentina. Caso os hermanos levantem o caneco, ajudarão a desmistificar o técnico-professor-doutor que inventa regras estranhas, táticas escalafobéticas, geralmente não gosta de futebol e, graças à imprensa, tem hoje muito mais destaque que os caras que vão para o campo e decidem a parada de verdade. Messi, há alguns dias, falou o óbvio. Jogador por jogador, não só é melhor que o Brasil como eu acho que é o melhor da Copa. Se vai ganhar, é outra história. Mas acabaria provocando uma espécie de efeito contrário à vitória da Itália sobre o Brasil em 1982, o triunfo do futebol força sobre a arte e o prazer de jogar bola.

Mas é possível achar um meio termo? Acho que sim. A Espanha, por exemplo, é um timaço mas, mais uma vez, chega ao mundial lutando contra o clichê ‘jogamos como nunca, perdemos como sempre’. Outro bom time é o da Inglaterra. Bom mesmo e que, já há algum tempo, conseguiu se livrar da dependência homérica do chuveirinho. Se vai sair da fila é outra história. Ao contrário da trupe de Maradona, ingleses e espanhóis jogam bola e são organizados.

Além das três, a Copa do Mundo 2010 tem os favoritos de sempre, independente de apresentarem ou não um bom futebol. Itália, Alemanha e Brasil (mesmo apesar do Dunga), pois com todos os jogadores jogando juntos e se enfrentando o tempo todo nos principais torneios europeus, o mundial está cada vez menos afeito às surpresas. E não venham me falar do futebol moleque africano, porque ele já não existe há um bom tempo, desde que o continente foi invadido por treinadores alemães e seus principais jogadores jogam (na maioria) em times de segunda classe do eixo França-Espanha-Inglaterra.

Mas Camarões tem Eto’o e Costa do Marfim tem o Drogba. São exceções em grandes times do mundo, mas não podemos esquecer Obina já foi melhor que o camaronês que hoje só corre e chuta um pouco melhor que o Vinícius Pacheco, enquanto o marfinense não é muito melhor que o Souza, convenhamos. Eles podem ir bem e até fazer gol no Brasil ou outros grandes? Claro, zebras acontecem e essa é a graça do negócio.

No mais, acabaremos confirmando o óbvio: ainda há e sempre existirá muitos bobos no futebol. Resta torcer para que eles sejam capazes de fazer alguma graça ou teremos, como na última copa, uma primeira fase apenas protocolar.