Nostalgia e esperança

Fui ao Maracanã muitas vezes com meu pai. Para jogos do Flamengo e do Fluminense e dos outros também, que Maraca no domingo era bom programa. Jogos cheios e vazios. Mas nunca fomos à final. Depois da separação, com a rotina adaptada a um dia no fim de semana e outras aporrinhações, nunca mais.

Fomos a jogos importantes, como as semi-finais do brasileiro de 1984. Mas não mais que isso. E nem sei dizer como seria, cada um torcendo para um time.

Hoje está tudo muito diferente. Meu pai não tem mais paciência pra estádio e eu parei de freqüentar desde que o Maracanã fechou para as obras da Copa (Engenhão ninguém merece). E hoje tenho duas filhas.

Juntando as duas famílias, só eu sou rubro-negro. E para não correr o risco de perder as petizes definitivamente por uma pressão desigual feita pelo outro lado, o combinado desde que Helena nasceu é que ninguém faria força, falaria muito no assunto ou daria presentes temáticos. E assumimos que ela é América. Mais neutro, no Rio, impossível. Com Isabel, o procedimento será o mesmo.

E pra não arrumar confusão, me seguro. Mesmo. Firme em mim a esperança de que – naturalmente, por e para serem felizes – serão rubro-negras. Mas, ontem, não resisti. A camisa nova chegou, linda, e fiquei todo pimpão desfilando pela casa. E quando perguntei se estava bonito, Helena disse que sim. Como disse, esperança…

Coincidência, hoje faz doze anos que Petkovic fez o gol mais importante da sua carreira, de falta, aos 43 minutos do segundo tempo. O gol de mais um tri. E aí dei de cara com essa texto no blog do Rica Perrone. Um bom tanto de saudade da minha infância, um bom bocado de que um dia estarei na arquibancada ao lado das minhas moças.

Um domingo qualquer

Petkovic comemora o gol que deu o tricampeonato ao Flamengo em 2001 / Foto: Ana Carolina Fernandes/FolhapressEra um dia frio, sem chuva.  Seria um dia chato, não fosse o Maracanã lotado e a expectativa de um título. Ele não era fanático, sequer tinha visto o estádio lotado na vida, até então.  Tinha 13 anos e torcia, timidamente, para o Palmeiras, apesar de morar no RJ.

Naquele domingo seu pai o levou na final.  De bandeira, camisa e ingresso na mão, chegou assustado com a multidão. Entrou faltando 15 minutos pra começar e, quando olhou em volta, disse: “Pai, quantas pessoas tem aqui?!?”.

– Muitas, filho… uma nação inteira, disse o pai.

Aquela multidão explodiu em faixas, bandeiras e papel picado minutos depois.  O garotinho se encolheu com medo e sentou.  Com 1 minuto de jogo a torcida levantou e não deixou que o guri visse mais nada. Ele ouvia, sentia, mas não assistia.

Seu pai, rubro-negro fanático, não tinha muita esperança de que seu pivete palmeirense um dia se envolvesse com futebol. Jamais mostrou grande interesse, e só torcia porque tinha um amigo que era palmeiras.

O Flamengo saiu ganhando, mas não bastava. Tinha que ser com 2 gols de diferença, ou nada. Seu pai explicou que “faltava um”, e o garotinho não entendeu. Afinal… vitória não é vitória de qualquer jeito?

Sofreu um gol, e ele não tirou sarro do pai como sempre fazia. Ficou triste, como que contagiado pela multidão. O outro lado, 40% do estádio apenas, fazia barulho, e ele ouvia o silencio da nação a sua volta. Segundo ele, o silencio mais dolorido que já escutou na vida.

O Flamengo fez o segundo, e o garotinho, se envolvendo com o jogo, vibrou. Pulou no colo do seu pai e o abraçou como se fosse um legítimo urubuzinho.

Não era, ainda.

A torcida começou a cantar o hino, que ele sabia de cor de tanto ouvir o pai cantar.  Pela primeira vez, cantou num estádio, e fez parte da nação. A angustia de milhares não passou em branco. Em mais alguns minutos o garotinho suava e já rezava de mãos grudadas ao peito.

O Flamengo virou, mas não bastava.

40 minutos do segundo tempo. Mesmo com 2×1 no Placar, a nação ouvia gozações do outro lado. Ele não entendia, e fez o pai explicar, mesmo num momento dramático do jogo.

Atencioso, o pai sentou e contou pro garoto que o Flamengo precisava ter 2 gols de vantagem, porque a vitória por um gol empataria a soma de 2 jogos, e o empate era do rival. Ele não entendeu bem, mas simplificou em sua cabeça: “Mais um e ganharemos”.

Opa… “ganharemos”?  Ele não era palmeirense?

E então, aos 43 minutos, onde alguns já se mexiam na direção da saída, uma falta do meio da rua.  Seu pai vibrou e ele questionou: “O que foi? Foi pênalti!? “

– Quase isso, filho!! Dali pro Pet é pênalti!!, profetizou o pai, ignorando a distancia da falta.

A cobrança… o silencio eterno de 1 segundo e a explosão.  Gol do  Flamengo! Petkovic! E seu pai o abraça como nunca abraçou em toda sua vida. Pula, joga o garoto pra cima, beija, chora…

O garotinho, numa mistura de susto com euforia, olha em volta e, de braços abertos, comemora em silencio um gol que não era dele.  Sem razão, ele chora. E chorando, abraça o pai que, preocupado, rompe a alegria e pergunta: O que foi? O que foi? Se machucou?

– Não…  Eu to feliz, pai!

Sem mais palavras, o pai sentou e abraçado ao garotinho deu um abraço de tricampeão. O jogo acabou, e os dois continuaram abraçados.

A festa rolando, os dois assistindo a tudo aquilo emocionados, o garotinho absolutamente embasbacado com a cena, já que nunca havia visitado um estádio lotado, muito menos uma decisão. O pai olhava pro campo e pro filho, porque sabia que, talvez, aquele fosse seu único momento na vida onde teria a imagem de seu garoto comemorando um titulo do time dele.

E chorava, sem vergonha nenhuma de quem estivesse em volta.

O menino foi embora pensativo, eufórico. Em casa, contou pra mãe com uma empolgação incomum sobre tudo que viveu naquela tarde. E não falava do jogo, apenas da torcida.  Iludido por uma frase, contou pra mãe:

– Aí, no finalzinho, teve um pênalti! E o Flamengo fez o gol…
– Não filho… não foi pênalti! Foi de falta.
– Mas você disse que foi pênalti…
– Era modo de falar…. hahahahahah
– Então, mãe…  aí, o cara fez o gol e a gente foi campeão!!!

Pronto. Aquele “a gente” fez o pai parar de colocar cerveja no copo, virar a cabeça lentamente e perguntar, com medo da resposta:

– A gente, filho?

(silencio…)

– É pai! O Mengão!!!!!

Emocionado, o pai abraçou o garoto e não falou nada. Ali, seu maior sonho virava realidade. A mãe entendeu, deixou os dois na cozinha e saiu de fininho, enquanto o pai começava a contar de uma outra final que viveu em mil novecentos e bolinha, com toda a atenção do novo rubro-negro.

Hoje o garoto  tem 21, completados há alguns dias.

Quando seu pai perguntou o que ele queria de presente este ano, a resposta foi essa:

– Dois ingressos, uma bandeira, a camisa nova e ver você chorando igual aquele dia.

E há quem diga que “futebol é bobagem”…

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Só meia hora

Tem gente que diz que sou radical. Em regra, não concordo. Mas às vezes é preciso ser, principalmente quando diante do óbvio. Bastou meia hora de bola pra enfiar quatro no Atlético Mineiro. Mas não é apenas esse resultado que comprova que nosso campeonato mais importante é, na média e apesar do enorme equilíbrio, de baixo nível. É só ver a qualidade geral dos jogos e acompanhar o sobe e desce da tabela pra chegar a essa conclusão.

Em que pese nossa defesa ruim e nosso ataque quase indigente, basta olhar o time do Flamengo pra entender que somos um dos três ou quatro que têm condições de disputar o título.

Se é verdade que Felipe, muitas vezes, parece uma máquina de lavar de tanto que bate roupa, também é verdade que seu desempenho não tem comprometido e o goleiro já decidiu alguns jogos a nosso favor. Paulo Vitor não é mau e César será excelente quando crescer.

Temos, sim, um problema enorme na zaga. Por conta dos desfalques de Williams e Bottinelli, Luxemburgo mudou o time e entrou com três zagueiros. E mesmo assim, Dudu Cearense (!!!) apareceu sozinho pra marcar. Wellington e David são ruins mesmo. E não dá pra contar com Angelim, ele já não agüenta mais a correria. Contratamos o tal do Gustavo e até hoje ele não foi testado. Por quê? E teremos Frauches de volta da seleção sub-20 daqui a um mês.

Nossas laterais não são mais problema. Leo Moura é o melhor em atividade no Brasil, mesmo quando não joga tão bem, como vem acontecendo desde que voltou de contusão. E se Junior César está longe de ser um craque, não compromete atrás e apóia bem. Não nos livramos de Alvim e fizemos besteira ao emprestar Egídio. Mas dá pra segurar a onda. E, para a direita, Galhardo dá bem conta do recado quando entra.

Nosso meio-campo não tem (ou não deveria ter) problemas. Maldonado se machucou, o que é uma pena. Mas estão lá Williams, Renato, Bottinelli, Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho (mesmo escalado como, ele não é atacante). No banco, os bons garotos Luis Antônio, Muralha e Negueba (é meia, não é atacante apesar da teimosia do Luxemburgo e sim, estou dando o braço a torcer). E em caso de desespero, o inexplicável Fierro e o horroroso Fernando (não ia embora?). Pra completar, Aírton está chegando e Vander também voltará de contusão em breve.

Outro problema enorme é nosso ataque. Deivid, Wanderley e Diego Mauricio. É dose pra leão, hein. Mas, mesmo assim, dá jogar. Há que rezar para que o primeiro da lista, com os dois gols de sábado, volte a jogar a bola que um dia já jogou. O segundo é um bonde, que pode ser (e já foi algumas vezes) muito útil. E o garoto ainda vai melhorar muito, tem futuro sim.

Então, o que falta pra engrenar? Algumas coisas. Primeiro, parar com a viadagem de ficar mandando recadinho pela imprensa e resolver as coisas como homem. Segundo, o tal do dentuço deixar de ser um pirilampo e alcançar o mínimo de regularidade. Terceiro, o profexô começar a honrar a grana pretíssima que recebe todos os meses e organizar o time pra valer.

Nossa próxima partida é contra o América mineiro. Com todo o respeito que qualquer um merece, o jogo tem que ser encarado como um confronto contra Olaria ou Bonsucesso. Mesmo jogando lá, qualquer coisa diferente de uma vitória sem sofrimento é um vexame. Hora de subir na tabela, porque com janelas, seleção na Copa América e cavalos paraguaios já começando a refugar, temos uma chance enorme de colocar o campeonato no bolso muito antes do programado e, depois, só administrar. Só faltam 32 jogos para o hepta.

Alma, palma e coração

É claro que existem mil razões para alguém escolher sua profissão. Alguém vai lembrar de uma tal vocação e eu rebaterei. Ela, a tal, pode até existir, mas não for despertada de alguma maneira… A conclusão é óbvia.

Um dia, abri o jornal e dei de cara com o texto de Armando Nogueira. Já não lembro qual das suas muitas crônicas era a do dia, mas sei que foi com a sua leitura que resolvi ser Jornalista. Habituado a ler de tudo desde criança, foi no texto de Armando que percebi que seria possível escrever em jornal, sobre o que se gosta, sem esquecer do cuidado, do carinho que a palavra merece.

A essa altura, mais de 24h depois do falecimento do cronista (entre outras coisas), já não cabe tentar descobrir histórias engraçadas ou curiosas para ilustrar qualquer coisa, todo mundo já fez. O mesmo para seus textos e frases espetaculares. Todo e qualquer jornal que circula hoje, os portais, as TVs e rádios de ontem, todo mundo já estampou suas coleções de palavras de Armando Nogueira.

Nesses tempos em que o tempo voa, não foram raras as vezes que ouvi colegas maldizendo seu texto chato, modorrento. Como em um almoço de família, repetia para mim mesmo o chavão ‘é bom que sobra mais’. Afinal, poderia ler em paz sem ninguém pedir o jornal emprestado, poderia folhear o livro sem a pressa de passá-lo à frente.

Sem o hábito de ligar o computador aos finais de semana, ao menos para escrever ou trabalhar, poderia ter gasto a segunda-feira falando da corrida sensacional da Austrália, em que todo mundo agradeceu à chuva e quase ninguém se deu conta de que pilotos estavam mesmo com vontade, com pista seca ou molhada; poderia fazer a piada da hora sobre o Santos (“Crise no Peixe, vitória só por cinco gols gera tensão na Vila); talvez devesse espinafrar o Flamengo pela atuação medíocre contra o América, apesar da vitória; falar bem do juiz que resolveu multar o Lula pela campanha antecipada; reclamar da prefeitura pela falta de manutenção das rampas de acesso nas esquinas da praça Afonso Pena; ou, finalmente, contar como foi a reunião com o secretário de transportes que não apareceu. Ou qualquer outra coisa que me desse na telha.

Sinceramente, não vi sentido em escrever qualquer coisa ontem. Como ainda hoje, mas há que se viver o luto.

Tenho em casa uma pasta de textos que, em revistas e jornais de folhas, me chamaram a atenção. Entre os muitos retalhos de papel que transbordam daqueles pedaços de plástico que tentam imitar o couro, vários são da lavra de Armando Nogueira. Estão lá frases clássicas, como a bola que pediria autógrafo a Pelé e o latifúndio que um guardanapo era para Mané. Também está lá a homenagem a Zico, no dia de seu jogo de despedida, e o texto sobre a primeira conquista de Guga em Roland Garros, em cita a volúpia das paralelas e o cinismo dos lobs do campeão.

Separei três pílulas, pérolas na verdade. Uma espécie de auto-definição, a lembrança do garoto Denner que morreu em um acidente de carro no Rio e uma crônica completa que, sem nenhuma de suas frases que entraram para a história, apresenta todo o estilo de alguém que nunca deixou a crônica esportiva cair no lugar comum.

Tenho a alma, a palma e o coração de jornalista

A morte o surpreendeu enquanto ele dormia. Se ele estivesse acordado, até ela seria driblada

Peladas

Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.

E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe.” Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.

Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa.

Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.

Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.

Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA – Especial.” Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati.

No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.

Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.

Nova saída.

Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.

O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar.

Em cada gomo o coração de uma criança.

Hei de torcer até morrer, morrer, morrer…

Tia Ruth, torcedora símbolo do América, no abraço da torcida à sede do clube. / Foto: Alexandre Cassiano - Globo

O Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, no uso de suas atribuições legais, e

Considerando a importância histórica do América Futebol Clube, tradicional agremiação social e esportiva, que é considerado o segundo clube de coração de cada torcedor de nossa cidade;

Considerando que, no local ora tombado, funciona a sede do “América Football Club”, que foi fundado em 18 de setembro de 1904;

Considerando que o América futebol Clube utiliza o imóvel em apreço desde 1911, após a sua fusão com o “Haddock Lobo Football Club”.

Decreta:

Art. 1.º Fica tombado o imóvel situado na Rua Campos Sales, nº 118, na Tijuca.

Art. 2º Quaisquer obras ou intervenções no bem citado no art. 1º deverão ser previamente analisadas e autorizadas pelo Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural.

Art. 3.º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Rio de Janeiro, 9 de fevereiro de 2010 – 445º ano da fundação da Cidade.

Eduardo Paes

Como se pode ler acima, parece que o problema foi resolvido. Ao menos, mesmo que o tal leilão de amanhã aconteça, quem arrematar o imóvel vai ter que deixá-lo da mesma maneira. Ou seja, a tal mina de ouro imobiliária foi pro saco.

Mas como diria o Tião, o açougueiro da esquina, vamos por partes.

Sou a favor do tombamento de todas as sedes dos clubes centenários da cidade, sejam de futebol ou não, pois é inegável que boa parte da história da cidade passou pelos salões, campos, quadras, piscinas, pistas etc. dessas agremiações. Mas junto ao tombamento, não podemos esquecer de exigir a correta manutenção e utilização desses espaços.

Outra coisa é a dívida do América. Como o Luiz Fernando colocou nos comentários do post anterior, a dívida com a tal construtora era de pouco mais de R$ 300 mil e hoje beira o milhão. É bom lembrar que o clube é formado por sócios que elegem uma diretoria e, juntos, são responsáveis pelos problemas e suas soluções. E se é mal gerido… Mas, em geral, da mesma maneira que tentamos escapar das reuniões de condomínio, é muito raro ver uma assembléia de clube com presença maciça dos sócios. Meia dúzia decide o que vai fazer e todo mundo é obrigado a acatar, gostando ou não.

Minha pergunta é: vão resolver a dívida enquanto é pagável ou vão continuar empurrando com a barriga e deixar dar merda um dia desses?

Enfim, é por causa da ausência dos sócios e dos gestores picaretas que povoam nossos clubes que sou contra essa história de torcida tentar juntar dinheiro para pagar a conta. Qualquer conta de qualquer clube. Por outro lado, no caso do América, foi a movimentação da torcida e de moradores do bairro (sócios ou não) que conseguiu chamar a atenção do prefeito (entre outros), que criou o decreto reproduzido acima.

Está prevista uma reunião entre dirigentes do clube, prefeitura e credora para tentar resolver o problema. A ver.

Hei de torcer, torcer, torcer…

Sou nascido e criado em Vila Isabel e, apesar de uma pequena temporada na zona sul, passei o tempo todo entre a terra de Noel, Maracanã e Tijuca.

Apaixonado por futebol, desde sempre, aprendi que a torcida do América cabe em uma Kombi (maldade), que sua sede fica em Campos Sales e que o clube de Lamartine Babo e Tim Maia é o segundo time do coração de qualquer carioca. Tanto que, quando Helena nasceu e para evitar problemas de influências precoces de pais, tios e avôs, decidimos que – pelo menos até que possa escolher por conta própria – seu time é o América (se o tio Luizinho quiser dar um presente…).

De quebra, ainda tive a chance de assistir alguns jogos no campo do Andaraí, onde hoje fica um daqueles templos de consumo onde paulistas (e cariocas muito estranhos) gostam de ‘passear’.

Há alguns anos, o estádio saiu do coração da cidade e foi colocado na baixada fluminense. E hoje, centenário, descobri que o América corre o risco de perder completamente sua identidade. Por causa de algumas dívidas, que não chegam a R$ 3 milhões, o clube pode perder sua sede na rua Campos Sales, 118.

Os torcedores do clube e moradores do bairro já se mobilizam para tentar, pelo menos, pagar uma conta de R$ 1 milhão com a empresa que construiu parte das arquibancadas do estádio Giulite Coutinho, em Édson Passos. È essa conta que justifica a realização do leilão da sede do clube. Além disso, o dinheiro arrecadado (lance mínimo de R$ 9 milhões) também quitaria R$ 1,5 milhão em débitos com o IPTU.

Entendo a ação da torcida, mas sou contra.

Como é que clube e patrocinador (Unimed) ainda não se mexeram para pagar essa conta? Como é que o clube, que tem outros patrimônios muito menos valiosos, não se articulou para resolver o problema? E, do ponto de vista do plano de saúde que tem o slogan “o melhor plano de saúde é viver”, quanto se teria de retorno por salvar um patrimônio da cidade? Acho que torcida e tijucanos tinham que pressionar essa turma.

Vale lembrar que o ponto é extremamente valorizado e as ofertas de novos imóveis na região é inexistente. Ou seja, por R$ 9 milhões, qualquer construtora (inclusive a credora) pode colocar a mão em uma pequena mina de ouro, mas prefiro acreditar que – nesse futebol tão podre quanto sugerem boa parte de nossos cartolas – não há entre os diretores do querido Ameriquinha alguém ou ‘alguéns’ levando bola para empurrar a situação com a barriga e deixar a coisa ir pro vinagre.

Nesta terça acontecerá um abraço à sede e o leilão está marcado para a próxima quinta-feira. Dá tempo de resolver. Vejam trecho de nota publicado no site do clube.

A dívida do clube é com a W.Torres, construtora que obteve autorização judicial para o leilão. Para saldar a dívida, cujo valor é de cerca de 1 milhão de reais, uma campanha foi criada pelos torcedores rubros. O SOS-Sede dispõe da conta 7730-5; agência 3260-3 do Banco do Brasil. Esta conta está em nome da AMAB- Amigos do America da Baixada. A hora é de mostrar a força e chamar a atenção para a causa. Se cada um chamar o máximo de pessoas para participarem desta ação, as chances de sucesso aumentarão cada vez mais.

Reminiscências

Tive infância e adolescência das mais agradáveis, vividas entre o final dos anos 70 e o início dos 90. Joguei bola na rua, bolinha de gude, soltei pipa e papagaio, futebol de botão, andava de bicicleta em volta do quarteirão, joguei Atari e Odissey, Detetive e War. Freqüentei os cines América, Carioca e Art Tijuca, comprando ingresso antes das 3 da tarde para pagar apenas 10 dinheiros da época (sinceramente, não lembro se era Cruzeiro ou Cruzado, novo ou velho), contra os 20 do horário normal. A economia era gasta no Bob’s.

Rádio Fluminense (a maldita), Paralamas do Sucesso, Mamute, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Robin Hood, Os Titãs do Iê-iê-iê (assim que escreve?), Rock n’ Rio, Blitz, Alternativa Nativa, Barão Vermelho (com e sem Cazuza), Hollywood Rock etc etc etc.

O urso Misha chorando em Moscou, Carl Lewis e Joaquim Cruz, Bernard e sua jornada nas estrelas no Maracanazinho, Piquet tricampeão, tragédia do Sarriá, Magic Johnson e Larry Bird.

E o Maracanã.

Fui apresentado ao maior do mundo pelo meu pai. Tricolor. Não lembro quantos anos eu tinha exatamente, seis ou sete, quando fui ao estádio pela primeira vez. O Flamengo ainda não era campeão brasileiro e, num tempo em que quase todos os grandes clubes tinham grandes times, não eram raros os jogos com mais de cem mil pessoas. E meu pai se preocupou em começar a me levar em jogos ‘menores’, com pouco apelo de público, para que eu me acostumasse com o negócio. Na minha primeira visita, América 3, Inter 0.

Aos poucos, foi me levando aos jogos maiores. E como um bom pai, tentou me fazer torcer pelo seu time. E se é verdade que há fotos em que estou vestido com camisa do Fluminense ao lado da minha Monareta (quem não lembra, descubra no Google), não lembro de grandes reclamações quando cheguei em casa e disse que meu time, a partir de então, era o Flamengo.

Pelo contrário. Não foram poucas as vezes que me levou ao Maracanã para ver os jogos do Mengão. Como não foram poucas as vezes que lhe acompanhei aos jogos do Fluminense. E, assim, aprendi que ir ao Maracanã era bom, mesmo que não fosse para torcer pelo meu time.

E entre tantas e tantas lembranças, duas são guardadas com carinho especial: numa quarta à noite, um jogo que não valia muita coisa, em um início de campeonato, fomos parar na arquibancada para ver o Flamengo ganhar do Vasco por 2 a 0, seguindo sua lógica de que devia me acostumar com os grandes jogos aos poucos. Foi um dos primeiros clássicos que assisti.

Em 1984, Flamengo e Fluminense estavam nas quartas de final do Brasileirão e poderiam se enfrentar na semifinal. Bastava que um e outro passassem por Corinthians e Coritiba, respectivamente. Sistema mata-mata, o primeiro jogo do Fla foi no Maracanã e, da arquibancada à esquerda das cabines de rádio, vimos a vitória por 2 a 0. Em Curitiba, o Flu empatou em 2 a 2. Tudo bem encaminhado.

No domingo, início de maio, retribuí a companhia e voltamos para o Maracanã. Enquanto víamos o Fluminense construir sua goleada de cinco a zero, acompanhávamos o jogo do Morumbi pelo placar eletrônico. Quando o Corinthians fez 2 a 0, “calma que ainda falta muito, só precisa de um gol”. Que saiu e “não falei que ia dar tudo certo?”. Enfim, o jogo em São Paulo terminou 4 a 1 e, ao perder a chance de ver o Flamengo campeão brasileiro da arquibancada pela primeira vez, lembro da sua mão na minha cabeça e um “não chora, ano que vem tem outro campeonato” ou algo parecido.

No último domingo, fui ao Maracanã e lembrei do meu pai. Que, como eu, não tem mais paciência graças às filas, violência e ao futebol chinfrim que se assiste com uma freqüência enervante. Lembrei do meu pai ao ver a enorme quantidade de pais e filhos que foram ao “maior e mais bonito estádio do mundo”, em um dia que o futebol foi uma festa, dia de arquibancada cheia mas sem confusão, como quando íamos juntos. Dia de homenagem ao Washington, metade do Casal 20 que deu ao Flu aquele brasileiro de 84. Dia de Zico, Junior, Andrade, Adílio, Nunes e Tita, que formaram no maior time de todos os tempos e me fizeram apaixonar pela camisa vermelha e preta.

Lembrei do meu pai que, sem eu me dar conta, usou o Maracanã para minha primeira aula sobre democracia e uma das muitas sobre respeito, ao comemorar um gol abraçado a quem está ao seu lado não importando quem é, ao bater palmas para um lindo lance não importando a camisa que se veste.

Lembrei do meu pai, porque foi um dia como aqueles em que íamos ao Maracanã mesmo que nossos times não estivessem jogando, porque valia a pena estar juntos para ver futebol. Porque futebol bem jogado é bom de ver, não importando a idade de quem assiste ou, como no domingo, de quem joga.

Casa assombrada

E quem passa por aqui, já percebeu que essa semana que não acaba nunca é dedicada ao Flamengo. Motivos óbvios.

Aproveitando o que aconteceu ontem no Maracanã, gostaria de dar uma sugestão aos colorados, palmeirenses e sãopaulinos.

Se vocês pararem pra pensar um pouquinho, talvez mudassem sua estratégia, talvez esquecessem essa besteira sobre o Grêmio.

Nos últimos muitos anos, o que o Flamengo conquistou jogando no Maracanã? Vários estaduais e uma Copa do Brasil, contra um time carioca. E os outros clubes do Rio? Nada.

Apenas para lembrar de alguns jogos decisivos, o Juventude ganhou a Copa do Brasil sobre o Botafogo; o Fluminense perdeu duas vezes para a LDU e uma Copa do Brasil para o Paulista de Jundiaí, o Flamengo perdeu Copas do Brasil (inclusive para o Grêmio), uma Supercopa no ano do centenário e – para finalizar – a eliminação da Libertadores pelo América do México.

Então, se querem fazer algo realmente produtivo para impedir o título do Flamengo, deixem o Grêmio em paz e acendam velas para os fantasmas que assombram os times cariocas em dias ou noites de Maracanã lotado.