Quase terra de ninguém

Usina_Calçada_IPra quem não conhece o Rio, há por aqui uma coisa estranha em muitos de seus bairros: os sub-bairros. Não sei se ocorre o mesmo em outras cidades, mas aqui é muito comum. Jacarepaguá, por exemplo, tem tantos que até parece uma cidade pequena, daquelas que têm suas fronteiras engolidas pelas grandes cidades.

Eu, por exemplo, moro na Tijuca, onde estão a (hoje pouco conhecida) Aldeia Campista, a Muda, a Usina e o Alto da Boa Vista. E informalmente há ainda o Alto Tijuca e a Praça Saens Peña (todos que moram próximo a ela dizem que moram nela).

Eu, mais especificamente, moro na Usina, que fica entre a Muda e o Alto. A região, que abriga algumas das favelas mais conhecidas e perigosas da cidade, como o Borel e Formiga. Durante décadas, a área foi relegada, abandonada mesmo. Mas, com a chegada das UPP, tudo ficou tranqüilo (ao menos oficialmente).

Estou lá há quase dois anos e nunca vi qualquer episódio de violência, de assaltos a trocas de tiros. Nada. E o lugar é bem agradável, perto da mata, temperatura amena, silencioso. Mas a cultura do abandono deixa suas marcas e a turma que vive ali, boa parte pelo menos, é mais relaxada e deseducada do que mandam os bons manuais de convivência.

Pensando em comportamentos cidadãos, é quase como terra de ninguém. Até hoje não sei se há cocô de cachorro espalhado por todas as calçadas ou se há calçada espalhada pelo cocô de cachorro. Também há o caso de casas e apartamentos que abusam do barulho além do horário recomendável. Avanços de sinais são o hábito, inclusive nas proximidades das escolas que há por ali. E não há a menor diferença entre ônibus, vans e carros, todos circulam e avançam em igual proporção. E o estacionamento nas calçadas…

Não há qualquer calçada do bairro em que não haja um ou muitos carros esparramados por elas. Como nas fotos. Nesse ponto da rua Conde de Bonfim, as calçadas são muito largas e os condomínios chegam a pintar vagas no chão. Mas, ainda assim, a turma abusa. Reparem nas imagens. Como é que se passa entre o Polo e o poste se você está de bengalas, carrega sacolas de mercado, empurra um carrinho de bebê ou uma cadeira de rodas?

Ah, é claro que já enviei mensagens para a prefeitura sobre os mais variados assuntos, alguns atendentes do 1746 já me conhecem tão bem que quase os convidei para a ceia de Natal. Mas você aí recebeu alguma resposta? Ou viu alguma atuação oficial por lá? Pois é, nem eu. E a verdade é que não há a menor perspectiva de melhora justamente porque não há atuação do poder público.

Aliás, a falta de ações da prefeitura é vergonhosa no Rio. Já há décadas que, se o sujeito não mora na Zona Sul, Barra ou um ou dois bairros da zona Norte escolhidos (Eduardo Paes ungiu Madureira), você está lascado. Mas e daí? Vamos levando, empurrando com a barriga, com ninguém reclamando e outros ninguéns não fazendo nada. Porque, como disse o Porchat, o lugar que a gente mora é legal pra caramba.Usina_Calçada_II

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Homicídio doloso

A verdade é que é a frota dos bondinhos é uma frota sucateada. Ela é uma frota onde foram reformados alguns bondes e outros não. A verdade também é que não há controle de passageiros. (…). Me parece que era um problema de gerência. De gerência desse tipo de controle

Tai a declaração de Sérgio Cabral sobre os bondes de Santa Teresa. As palavras do sujeito estão publicadas no G1, do jeitinho que coloquei aí. Basicamente, nosso digníssimo governador admite que o estado que comanda cagou e andou para um equipamento de transporte público, que atende a população do bairro e um enorme número de turistas diariamente.

Vou tentar tentar traduzir o muito claro em óbvio ululante: o dono da bola, o cara que manda no estado (e no serviço) sabia que tudo estava péssimo e resolveu deixar ao ‘Deus dará’.

Advogados e juristas em geral que, por ventura, passem por aqui podem tirar nossa dúvida: não é essa uma confissão de homicídio doloso? Para um leigo, como eu, sim. O que fará agora o ministério público?

E o que acontecerá com o fabuloso secretário de transportes, Júlio Lopes, um humanista sem igual e que sempre assume todas as suas responsabilidades, como se viu pela tentativa de jogar a culpa no motorneiro do bonde acidentado, um dos que morreu no acidente?

22 + 22 + ?

Ontem falei duas vezes sobre declaração infeliz do nosso prefeito sobre a falta de preparo do Rio para emergências como a desta semana.

Pois vejam a coleção de fotografias que trouxe do Grupo Grande Tijuca.

Então, Sr. Prefeito e Sr. Governador, vamos começar a trabalhar? Porque do jeito que as coisas vão, a próxima intempérie não vai demorar 22 anos para acontecer, como até agora.

Sobressaltos

São 20h52 de quarta-feira, 7 de abril. Chove na Tijuca.

Como esperado, o dia hoje foi de sobressaltos no Rio de Janeiro. Durante todo o tempo, na rua, no metrô, no trabalho, ouvia todo mundo recebendo telefonemas com a notícia óbvia: “começou a chover aqui”.

Barra, Laranjeiras, Tijuca, Jacarepaguá, Madureira, Caju, Vila Isabel, Botafogo, Ipanema, Méier… Não importa onde, bastava pingar uma gota que as notícia chegava em tom de alerta.

Apesar de tudo o que aconteceu, essa quarta-feira foi muito mais um dia de pânico do que de chuva. Eu mesmo passei por isso. Por volta das seis da tarde, as janelas do trabalho ficaram negras e dei no pé. No metrô, o fluxo de pessoas era enorme, todo mundo fugindo e tentando chegar em casa antes do temporal prometido.

A verdade é que, dentro do possível, a cidade se recupera bem. Niterói e São Gonçalo estão muito piores. A quantidade de corpos continua a se multiplicar e o número de mortos – 138 até agora – ainda deve aumentar. Por enquanto, 88 do outro lado da poça, 46 no Rio. A grande maioria, encontrada sob toneladas de lama e lixo de nossas encostas.

22h03. Já são 145 mortes confirmadas e acabou de descer mais um morro em Niterói, ainda não se sabe se 15 ou 45 casas vieram abaixo. O número ainda vai piorar muito e o sobressalto que acompanhou o dia já voltou a ser tragédia.

E com os sobressaltos de hoje se repetindo amanhã, vem a quinta-feira que ainda promete ter alguma chuva. E a torcida para que tudo não passe de novos sobressaltos.

Enquanto isso, não vi o prefeito de São Gonçalo. Vi o prefeito de Niterói inoperante e nosso governador não fez nada de prático além de pedir socorro ao governo federal. E, pelo jeito, seguiremos assim, enterrando nossos mortos e levando sustos à espera da próxima tragédia.

Quando acontece, acontece

É quase impossível, num dia como hoje, escrever algo que não tenha qualquer relação com a tragédia que aconteceu. Seguindo a orientação da defesa civil, dia praticamente trancado em casa. Resultado: o dia inteiro acompanhando a merda na internet e na TV.

Ouvi a voz do prefeito algumas vezes por telefone, vi nosso governador dar entrevista de porta de gabinete e o apedeuta soltar mais uma de suas fabulosas pérolas: ‘quando acontece uma desgraça, acontece’. E, agora, acabei de assistir a entrevista coletiva de Eduardo Paes.

Me surpreendeu. Positivamente, é bom que se diga.

Durante boa parte dos anos de César Maia, nos acostumamos a ver o ex-prefeito nas ruas, por qualquer motivo, sob chuva ou sol, sempre com sua jaqueta. Algo que, sem dúvida, é muito bom. É simbólico ter o síndico por perto. Algo bem diferente do que fez Sérgio Cabral quando a Ilha Grande veio abaixo, na virada do ano.

O curioso de César Maia é que, em qualquer circunstância, sempre tinha a imprensa ao seu redor. Além disso, pouco fez pela infraestrutura da cidade. Mas tenho certeza que todo carioca se lembra dos transtornos causados pelo excesso de maquiagem do RioCidade.

Hoje, durante a tal coletiva, vi um prefeito que – por ser o Eduardo Paes – não esperava. Andou pela cidade sem ser seguido pela imprensa. Sabia sobre o que estava falando e sabia o que era importante. Ao invés de se agarrar em números e questões menores, colocadas por alguns repórteres, se preocupou em informar a população do que estava acontecendo, qual o estado geral da cidade e o que se espera daqui para a frente.

É verdade que não resistiu e aprontou um ‘momento campanha’, exaltando as boas relações da prefeitura com governos do estado e federal. Mas sem dúvida, algo desimportante, apenas um lapso.

Não acho que Eduardo Paes seja um bom prefeito nem que seus secretários sejam bons secretários. Mas logo eu, que vivo reclamando de tudo e de todos, não poderia deixar passar esse bom momento.

Mas ele ter a consciência de que a boa atuação em um momento importante da cidade não o exime de culpas ou responsabilidades. Como eu já lembrei aqui, Paes gritou aos quatro ventos, durante sua campanha, que se preparou durante anos para ser prefeito do Rio. Se não quer apontar o dedo para as culpas de décadas de desmandos, tudo bem. Mas seria de bom tom que, depois de passada a emergência, apresentasse projetos reais para resolver os problemas da cidade que ele diz que ama tanto.

Quem sabe, assim, não precisaremos ver – de novo – ele ou qualquer outro prefeito dizer que ‘numa escala de zero a dez, o Rio está abaixo de zero’.

P.S.: Seria muito bom que nosso governador parasse de falar besteira na TV e desse um jeito de ajudar de verdade as cidades do Grande Rio. Proporcionalmente, Niterói e São Gonçalo estão muito piores que o Rio.

No fim do túnel

A água começou a baixar, mas as coisas não estão nem perto de estarem resolvidas. Apenas um pequeno ponto de luz no fim do túnel.

Já são 32 mortos confirmados e ainda há um monte de desaparecidos.

A ordem da prefeitura é continuar em casa. Além de facilitar o deslocamento das equipes de socorro, evita-se novos riscos. Afinal, ainda há possibilidade de mais chuva e vento. Pela Tijuca, a água já voltou a cair.

Tentando manter, dentro do possível, o mínimo de bom humor, um pouco mais de boa música. Rod Stewart cantando Creedence.

Abaixo de zero

Acordei às seis da matina e olhei pela janela.Tudo alagado. Às 8, recebi a mensagem do chefe no celular: “prefeito e defesa civil mandaram ficar em casa”. São 8h40 e já chove (muito) há quase 16 horas, resultando (até agora) em 11 mortes.

Ligado na Globo News, dou de cara com a declaração brilhante do nosso magnífico prefeito: “o Rio não está preparado para uma chuva deste tipo e, numa escala de zero a dez, estamos abaixo de zero”.

Não é brilhante?

Fico pensando e é claro que o abandono da cidade não é culpa, apenas, do Eduardo Paes. A média do país é o abandono geral há décadas. O que me impressiona nessa observação do alcaide é que, durante sua campanha, declarou mais de uma vez que se preparou durante anos para ser prefeito da ex-cidade maravilhosa.

Como podemos depreender do cenário de hoje, se preparou mal ou – como todos os seus antecessores – não está nem aí, de verdade.

É claro que em algumas situações, mesmo as cidades mais preparadas têm problemas e com o volume de água que despencou sobre as plagas cariocas não teríamos uma terça normal de jeito nenhum.

O que preocupa (e revolta) é que, segundo quem deveria cuidar da cidade, resolver seus problemas, se preparar para eventualidades, estamos “abaixo de zero”.

De bom, dessa história, só a visita de Be, Glaucio e Letícia que, depois de mais de cinco horas ilhados em um posto de gasolina, conseguiram chegar e dormiram conosco. E aproveitando o pretexto, seguem algumas novas fotos da Helena (é só clicar nas fotos pequenas para ampliar). Afinal, não se pode perder a ternura, não é mesmo?