Um tanto estranho

Sei que já passou faz tempo, que já foi mais do que explicada e tal. Mas até hoje, ainda acho que a prisão do Nem foi uma história muito da mal contada. Do advogado que se apresentou como cônsul honorário do Congo ao policial civil de Maricá, passando pela presença da imprensa… Não consegui me convencer com as versões apresentadas.

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Confusão

E a política de segurança do Sr. Cabral, se ainda não faz água, já está próximo disso. Todo mundo viu o que aconteceu no Alemão na semana passada. E o pau já quebrava por lá há muito tempo, apesar de não ser noticiado.

Agora, começam a pipocar aqui e ali as notícias sobre problemas nas UPP. A última, sobre Santa Teresa. O comando da unidade do Fallet foi afastado e 30 policiais estão sob investigação. Episódios que andam acontecendo apesar da prática preventiva de despejar nessas unidades apenas os recém formados, sem os vícios das ruas.

Em tese, opção correta. Só esqueceram que boa parte desses vícios já existem muito antes dos moços e moças entrarem na academia e se tornarem cadetes.

Outro problema das UPP não é culpa das UPP. Não adianta, por exemplo, os caras colocarem a polícia nas favelas sem que estado e prefeitura assumam suas outras responsabilidades. Assim como não adianta invadir as favelas sem invadir de verdade, prendendo a turma e partindo para o confronto. É ridículo, por exemplo, em setembro o sujeito avisar que a UPP será instalada no Alemãoem março. Pombas, porque não manda a frota da Granero de presente pros caras? Assim, não quebra nada na mudança…

É, eu sei que esse texto está um tanto confuso, misturando até alhos com bugalhos. Mas esse é exatamente o problema da política de segurança do estado. A médio e longo prazo, o cenário desenhado é muito, muito confuso.

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P.S.: só pra não perder a oportunidade, lembrei que ninguém mais fala nada de milícias. Parece até que acabaram, que está tudo bem. Não está nada bem, os caras continuam tocando o terror por aí. E ninguém fala nada, nada é feito.

A pessoa humana

Enquanto dezenas de juízes são ameaçados de morte por cumprirem seu papel (uma foi morta em Niterói há alguns dias), enquanto milhões e milhões de reais são engolidos pela corrupção instalada nos mais altos gabinetes de Brasília, enquanto o Rio de Janeiro vive no mundo de faz de conta das UPP de Sérgio Cabral, nossa presidenta (sic) ainda está por aí fazendo discursos sobre o abuso de poder da Polícia Federal na ação que prendeu mais de 30 pessoas na semana passada.

Além das algemas, outra coisa que aporrinhou demais nossas grande autoridades foi o vazamento de fotos de registro policial em que seis acusados apareciam segurando seus números e estavam sem camisa. Ok, é claro que se foram cometidos, os abusos devem ser punidos. Mas a grande corrida de todos os manda-chuvas do planalto aos microfones para falar sobre isso deixa claro a intenção de tirar o foco do problema principal – roubo, corrupção etc. – e tentar convencer a patuléia de que o importante é a perfumaria.

A última de nossa grande dama foi dizer, durante a cerimônia de posse do procurador geral da república, Roberto Gurgel, que “é preciso garantir o fim da impunidade mas respeitando a dignidade da pessoa humana”.

Não sei vocês, mas eu também me preocupo muito com a dignidade das pessoas caninas, eqüinas, bovinas, suínas e congêneres.

As cartas

Encontrei no blog do Augusto Nunes duas cartas que deveriam ser lidas por todos.

A decisão sobre se um preso deve ser conduzido algemado ou não é tomada pelo policial que o prende e não por quem desfruta do conforto e das mordomias dos gabinetes climatizados de Brasília.É uma pena que aqueles que se dizem “estarrecidos” com a “violência pelo uso de algemas” não tenham o mesmo sentimento diante dos escândalos que acontecem diariamente no país, que fazem evaporar bilhões de reais dos cofres da nação.

Este é um trecho da nota divulgada pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal na sexta-feira passada, depois que a turma de Brasília se mostrou indignadíssima pelo fato de alguns bandidos terem sido presos e algemados. Uma violência brutal, não é mesmo? Clique aqui para ler a carta completa.

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Felizmente, podemos pagar atendimento particular e minha mãe passará por cirurgia emergencial nos próximos dias, em excelentes condições profissionais. Mas e os outros brasileiros que não podem pagar por um atendimento diferenciado? A Constituição reza que todos somos iguais e temos os mesmos direitos. Na prática, sabemos que isso não acontece. E é só por isso que compartilho esse pequeno drama pessoal. Porque se nos calarmos sempre, nada nunca vai mudar.

Esse outro trecho é de uma carta de Joaquim Cruz. Se você não lembra, foi ele que – em 1984 – conquistou a primeira medalha de ouro olímpica do atletismo brasileiro, na prova de 800 metros, derrotando o então favorito Sebastian Cole. Hoje, ex-atleta, é treinador nos EUA. Infelizmente, seu relato é de fato mais do que corriqueiro por essa nossa terrinha. Clique aqui para ler a carta completa.

Se eu pudesse estar em paz

Pelo menos quatro pessoas ficaram feridas e treze foram detidas, no fim da noite de domingo (14), durante uma confusão no Morro do Turano (…). A confusão começou por volta das 22h30, quando policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) tentaram interromper uma festa do Dia dos Pais. Segundo a Polícia Militar, os moradores não aceitaram o fim da festa e chegaram a jogar coquetéis molotov na direção dos policiais.

Policiais da Unidade de Polícia Pacificadora do Morro do São Carlos, no Estácio, na Zona Norte do Rio foram atacados a tiros de fuzil na madrugada desta segunda-feira (…).Os PMs contaram que vários traficantes, fortemente armados, estavam escondidos em becos do morro.

Um taxista foi morto a tiros, no fim da noite de domingo (14), perto do Conjunto de Favelas do Alemão, na Zona Norte do Rio (…). Segundo a polícia, os criminosos levaram dinheiro, um aparelho de DVD e um relógio.

Duas pessoas foram presas e outros nove menores detidos, no domingo (14), suspeitos de integrar um grupo que praticava assaltos a pedestres na região da Lagoa, na Zona sul do Rio.

Tudo isso aí aconteceu em menos de 24 horas. E é claro que é só o que virou manchete de um grande conglomerado de comunicação.

Reza a lenda que a turma presa na Lagoa saiu da Mangueira para aproveitar o dia dos pais. Ou seja, todas as notícias estão relacionadas a crimes e confusões de locais onde há a tal polícia pacificadora. Como podem ver, tudo às mil maravilhas, como eu já havia postado no dia 25 de julho.

Afinal, o que são alguns fuzis aqui, uns coquetéis molotov ali, um arrastãozinho acolá? Diz aí Cabral, falaê Beltrame.

Uau!!!

De vez em quando, encontramos algumas figuras por aí que tentam nos convencer que o mundo, na verdade, é cor de rosa. Tudo é lindo e maravilhoso. Tudo dá certo, sempre.

É isso que nosso querido governador, Sérgio Cabral, e seu secretário de segurança, José Mariano Beltrame, tentam fazer conosco em relação às UPP.

Semana passada, entraram no morro da Mangueira para preparar a instalação de mais uma unidade milagrosa da polícia carioca. E o secretário foi pra TV, todo pimpão, dizer que tudo tinha saído melhor do que a encomenda e que nenhum tiro havia sido disparado.

Uau!!!

Mas não o vi admitindo que ninguém foi preso.

Uau!!!

Estou mesmo surpreso. Afinal, dois anos antes eles avisaram que iam chegar com sua turma – marinha, exército, aeronáutica, Rambo e Chuck Norris – e ninguém, nenhum bandido esperou para trocar tiro, ser morto ou preso?

Uau!!!

Bom, meus amigos, moro na Tijuca. E ouvi muito tiro durante o último final de semana. Todos eles em favelas pacificadas. No Catumbi, também pacificado, uma granada foi jogada sobre policiais (um deles perdeu a perna e está em estado gravíssimo no hospital), houve troca de tiros mas ninguém foi preso e segue tudo bem.

Além disso, claro, em todas as favelas (comunidade é papo pra boi dormir) pacificadas, o comércio continua em paz (que ironia…). Está mais fácil do que nunca entrar e sair, comprar drogas de qualquer tipo. E nenhum chefe de tráfico foi preso. Nem os que gerenciam as favelas, nem os que mandam de verdade, de Brasília ou da Av. Atlântica. Mas a UPP é mesmo um sucesso.

Ok, acredita quem quer.

Avisa lá que eu vou chegar mais tarde

Eu devo mesmo ser uma besta. E começo a me convencer que o nosso governador e a equipe da Secretaria de Segurança são bestiais.

Em uma solenidade hoje de manhã na Cidade de Deus, Sergio Cabral anunciou que o BOPE ocupará, a partir de quinta-feira, três favelas no Engenho Novo (Matriz, Quieto e São João) para que seja instalada uma nova UPP.

Será que eu sou o único que acredita que essas operações deveriam ser sigilosas?  Porque, trocando em miúdos, o que o grande mandatário de nosso belo e formoso estado disse foi o seguinte: “ô bandidagem, vocês têm até quinta pra se mandar e fazer a vida em paz em outro lugar. Na quinta os caras vão subir e se neguinho der bobeira vai em cana”.

Eu devo mesmo ser muito burro pra acreditar que a polícia deveria chegar de surpresa pra prender geral ou descer o dedo em quem tentasse resistir ou fugir. Afinal, há que se dar tempo pra galera fazer as malas, esconder as armas, empacotar o bagulho né não?