Arrimo, bússola, inspiração

A vida mais separa que une. Essa é velha, vocês sabem disso. Mas a dor que lembrar disso traz não é menor a cada dia. E esse 2020 caprichou em nos lembrar disso. Que ano feladaputa, afinal de contas.

Apesar de tudo, com todo o cuidado, todo o radicalismo adotado por aqui – que até desgaste na família provocou – nos ajudou a levar em banho maria. Pra mim, ao menos, até novembro. Até 21 de novembro, quando aquela mensagem vinda de Fortaleza mudou tudo. “Nosso amigo querido faleceu”. E a maldita Covid bateu à porta.

Caius faleceu no dia 18, e o atraso da notícia dá bem a medida do afastamento que vivíamos já há algum tempo. Um amigo de quase 30 anos, calouros juntos que fomos. Passei uma noite inteira chorando, pensando na vó Geni e na Jorgete, que sempre me trataram como neto e filho, na Renata e no Gabriel. Porra Kaju!!!!

E depois dele, começou uma avalanche, amigos e amigas que perderam pais e avós em seguida, semanas seguidas de notícias trágicas, de velórios e missas de sétimo dia às quais não tive coragem e estrutura para comparecer. E desde então me fechei em silêncio na minha bolha caseira, sem acessar redes sociais, falando com pouquíssimas pessoas, com tudo agarrado dentro do peito mas sem força pra falar, pra escrever, pra qualquer coisa, ao mesmo tempo em que fazia força pra não receber mais notícias ruins. Até com vergonha de agradecer pelo quase milagre de que, em um país com quase 200 mil mortos, a família, em qualquer direção que se pense, não tomou nem um susto, todos bem e em paz.

Mas aí chegou a véspera de Natal e a primeira mensagem que piscou no meu celular foi da Isabel, “papai, é Natal, é Natal, é Natal!!!!”, uma alegria tão esfuziante e sincera que me obrigou a pensar no que sinto, no que acredito. Afinal, as partidas são sempre doloridas, como não, mas não é essa a vida, vir, viver, cumprir a missão (mesmo que não sejamos capazes de entender) e dar o fora? E o sentido da missão cumprida não deveria nos alegrar, nos deixar leves e orgulhosos por ter feito parte dessas missões?

Não sei mesmo responder.

E o que importa é que hoje é véspera de Natal. Dia de celebrarmos a vida, o nascimento de alguém tão especial que veio ao mundo, cumpriu sua missão, mudou a história do mundo e deu o fora.

É, admito que essa não é uma mensagem de Natal das mais festeiras. Mas o que desejo a todos é um Natal de paz, em casa, chorando nossas partidas e saudades, mas celebrando as vidas de quem passou por nossas vidas. E de quem está por aqui sendo, às vezes até sem perceber, nossos arrimos, nossas bússolas, nossas inspirações.

Um comentário em “Arrimo, bússola, inspiração

  1. Mas a distância não afastou nem vai afastar as amizades de vidas e mais vidas. Esse Fdp nos deixou fisicamente mas não sairá jamais do nosso coração e da nossa memória.
    AMO vc amigo mais que querido e fica em Paz.

    Gu vc sabe que o que precisar pode contar comigo

    Curtido por 1 pessoa

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