Em dezembro de 81

Foto: Marcelo Rezende

Foto: Marcelo Rezende

Meu pai é tricolor. E sim, há fotos minhas de criança com a camisa de listras verdes, brancas e grenás. E ali pelos seis, provavelmente sete anos, cheguei em casa e contei pro velho que eu era Flamengo. Já era efeito da geração de um certo Arthur.

Sim, eu sei que a memória falha. E muito. Especialmente sobre as lembranças de infância. Mas não lembro dele discutir o caso, fazer esforço para me fazer voltar atrás. Lembro apenas de um “tem certeza?” e um “não pode voltar atrás, virar a casaca”.

E quando chegamos a 13 de dezembro de 1981, eu tinha oito anos há apenas 15 dias. E como era uma criança com regras e rotinas, dormia e acordava cedo, mas o jogo no Japão começaria à meia-noite no Rio. É claro que eu queria ver o jogo, é claro que eu não aguentaria ficar acordado, mas sou bem capaz de imaginar o quanto não enchi seu saco sobre isso.

Na minha memória, o que não garante nada, chegamos a um meio termo em que eu iria para a cama e ele me acordaria para o jogo. Acho mesmo que foi assim, pois me lembro bem de ver o jogo começar na sala escura do apartamento da rua Souza Franco. Mas não vi nem o primeiro gol de Nunes, aos 13 minutos.

Lembro de ter sido acordado com festa no domingo de manhã, lembro de ter visto tudo o que se falou sobre o jogo e a conquista na TV, lembro até de ter visto um VT completo alguns dias depois.

Ao longo dos anos, fomos muitas vezes ao Maracanã para ver jogos do Flamengo e do Fluminense, juntos. Ele chegou a me levar para ver um Flamengo X Vasco numa quarta-feira à noite, num meio de campeonato, jogo que não valia muita coisa. E fomos a jogos gigantes, como os da fase final do Brasileiro de 1984, saudade do Maraca com mais de 100 mil. Como vimos juntos a final do carioca de 95, daquele maldito gol de barriga.

Também foi com meu pai (e com o Assis), em 83, que eu aprendi a nunca comemorar vitória nem aceitar derrota antes do apito final. Com o jogo no fim e o título “garantido”, saí de casa correndo pra comemorar o título com o Xavier, o porteiro rubro-negro. Enquanto estava no elevador…

Dessas voltas engraçadas que o mundo dá, calhou do Flamengo voltar à disputar o Mundial justamente contra o Liverpool. De novo. E jantamos juntos ontem e, quando perguntei, logo ele que sempre tem um palpite na ponta da língua, ficou pensativo e não disse nada. No sábado, ao contrário de 81, o Liverpool é franco favorito e o que vier é lucro. O “rumo a Tóquio” deu em Doha, o jogo não será à meia-noite e nós não estaremos juntos. Cada um na sua casa, será a vez da minha filha estar ao meu lado (sim, Isabel é rubro-negra e já reclamou que ainda não tem uma camisa…). Mas tenho certeza que, como ao longo de todos os anos depois que paramos de frequentar o estádio juntos, ele ligará pra comemorar a vitória eventual.

Depois, só concentrar no próximo campeonato. Que será duro, jogado à vera e – tenho certeza – vencido.

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