A carta

fogoQuando Ana e Zé se viram pela primeira vez o garoto ainda não tinha chegado aos 20 anos. Mal começara a faculdade e nem carteira de motorista tinha. Ana, em compensação, já morava sozinha nos seus vinte e poucos, trabalhava, sabia bem o que queria (ao menos era o que ela pensava…).

Se conheceram por acaso, em um evento em que os dois estavam trabalhando. Ele, estagiário. Ela, coordenadora. Ele tentando descobrir o mundo, ela já se achando dona. E mesmo assim rolou aquele clic. E daquele tal evento que duraria vários dias, o esbarrão foi logo nas primeiras horas. Enquanto davam conta, cada um do seu trabalho, se viravam para se encontrar. Fosse para almoçar, fosse para brincar no parquinho mequetrefe que existia nos fundos do pavilhão onde estavam. Ele, que até hoje morre de medo de altura, querendo impressionar, criou coragem para uma volta na montanha russa que tinha ares de filme B.

Hoje não lembram mais se o primeiro beijo foi logo ali ou depois do passeio nada assustador no trem fantasma. Mas engataram o namoro, quem diria? Tudo isso já faz quase 25 anos. E enquanto se sentia meio que o Eduardo, Zé se apaixonava. Mas Ana não era Mônica. E apesar de grandes momentos e até algumas aventuras, o casal nem chegou ao Natal daquele ano. Vida que segue, pois.

E os anos passaram como pra todo mundo. E vieram os casamentos e os filhos. Mas de uma maneira, talvez estranha, certamente inesperada, mantiveram contato. Falavam vez em quando e – vá lá – podiam até se dizer amigos.

 

Demorou mais de dez anos para que se reencontrassem, finalmente dispostos e disponíveis. Ela linda como sempre, morena de olhos verdes e sorriso infinito. Ele já achava que era homem, barba bem feita e um bom emprego. E chegaram a sair algumas vezes, sem e com filhos. Programas a dois e a muitos. E do alto da sua prepotência, “agora ela é minha”, abriu a guarda. E entrou pelo cano. De novo. Dessa vez, sem aviso, sem conversa, sem abraço. Ele esperando. Ela sumiu.

E nenhum cataclismo aconteceu, muito pelo contrário. Vida que segue, de novo, pois.

E a moça casou de novo. E ele teve bandas. E ela lançou livros. E ele deu a volta ao mundo. E ela pintou quadros. E ele casou de novo. E ela compôs belas canções. E ele também. E os dois descasaram. Ambos mais de uma vez.

A moça, virava e mexia, lhe aparecia na lembrança. Mas não era amor nem paixão nem abandono, nada além da sensação estranha de algo inacabado. E não é que um dia, o sujeito tranquilo em casa, piscou a janela de mensagens da rede social? Justo no momento em que tentava descobrir como recomeçar a vida depois de mais um casamento desfeito, quarto ou quinto a essa altura, vá saber.

– E aí, tudo bem?

Não, não estava tudo bem. Sozinho de novo, perrengue no trabalho, em crise até com os filhos, “vou virar eremita no Nepal”.

– Tudo ótimo, e por aí? Novidades?

E seguiram nessa lengalenga por dias, semanas, sem maiores escaramuças ou provocações, até criarem a coragem pra se ver. Encontro protocolar em boteco com mesas de plástico. Mas a cerveja, pelo menos, era gelada. E depois de muitos goles, finalmente cumpriram o inevitável. E se acreditando sem cobranças ou compromissos, se aproveitaram. Não sabiam ao certo se estavam tirando o atraso, recuperando o tempo perdido ou vivendo uma nova história. Mas sorriam, como sorriam…

 

Mas tem coisas que não são pra acontecer. E, de novo e do nada, a moça silenciou.

– Podemos nos ver hoje à noite?

– Não, não podemos. Não quero casos, amantes ou namorados. Não quero me sentir presa.

 

Quando o sujeito já acreditava que não a veria mais, quando decidiu que tinha tudo chegado ao fim, mesmo achando que não existia um fim, a tal caixinha de mensagens piscou na tela à sua frente.

– Em 2025 te conto porque não deu certo dessa vez. Tudo anotado.

– Se está tudo anotado, fala logo. Dez anos é muito tempo.

– Nos encontramos no lugar de sempre, pra não ter dúvidas. E se não quiser esperar, azar o seu.

Conversa estranha justo no dia do aniversário dela. À noite ele não apareceu. Nem flor, nem recado, nem bombom. Pra quê?

 

Alguns meses depois, foi atingido. Bala perdida quando saía de um boteco no Grajaú. Não resistiu. Ela soube, mas faltou coragem de aparecer pra se despedir pessoalmente. Sozinha na varanda, entre as tintas, telas e os violões encostados na parede, abriu uma cerveja e escreveu uma carta. Sem lágrimas, sem rasuras. E depois do último gole, queimou aquelas folhas de papel com a história que não seria contada dali a dez anos.

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Um comentário em “A carta

  1. Cara.
    Adorei!
    Conteúdo e forma.
    Que sensação me criou: sem anticlímax.
    Curioso: apesar de não ser, a música me assombrou o tempo todo. Esperança?
    Abraços

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