Cultura, educação, acomodação, medo, desonestidade… Sei lá, mil coisas

PetrobrasEm janeiro de 1962, o ex-presidente Juscelino estava nos Estados Unidos e foi convidado para fazer uma conferência em Harvard. Fim da palestra em que falou de seu governo, suas realizações, a construção de Brasília e deu lá seus pitacos sobre o futuro do Brasil, uma senhorinha no fundo do auditório o interpelou. Segue o diálogo entre a Sra. Benjamin Stimson, de Cambridge, Massachussets, e JK (a tradução é de Mário Ferreira, português que serviu de intérprete).

– Senhor Presidente, me diga, o governo do Brasil é Comunista?

– O governo brasileiro não tem nada de comunista. Pelo contrário, a democracia no Brasil funciona normalmente, com todas as liberdades públicas e individuais asseguradas.

– Bem, Sr. Presidente, se o governo do Brasil não é comunista, como o senhor diz, como então seu país desapropriou minhas ações da American & Foreign Power Co.? Idsso foi em maio de 1959, e até hoje o governo brasileiro não me pagou.

Para quem não lembra da história, o ‘grande democrata’ Leonel de Moura Brizola, quando governador do Rio Grande do Sul, estatizou algumas empresas que atuavam no estado. Em tese, até aí, nada demais. Desde que tivesse ressarcido os donos e acionistas das tais empresas. Como se vê, não foi isso o que aconteceu.

E por que conto essa história, registrada no livro Juscelino, uma história de amor, de João Pinheiro Neto? Por conta do que está acontecendo com a Petrobras, das ações coletivas (sim, no plural) abertas nos Estados Unidos.

É claro que são situações absolutamente distintas, não sou louco. Usei o exemplo da Sra. Benjamin Stimson para falar dos brasileiros e das diferenças culturais que sempre existiram. Nos EUA, os direitos dos cidadãos são sagrados, bem como os direitos do consumidor. E muitas vezes eles se confundem. O americano médio é forjado para defendê-los sempre e acima de qualquer coisa. Nós não somos assim, não fomos criados assim.

Às ações abertas nos EUA, e no Brasil pelo Almeida Law Advogados, qualquer um pode se juntar, incluindo aí os nossos fundos de pensão e qualquer um entre as centenas (ou milhares, sei lá) de brasileiros comuns que usaram seu fundo de garantia para comprar ações da empresa. Será que vão?

Sinceramente, acho muito difícil. No caso dos fundos de pensão, muitas vezes controlados por vassalos do governo, é mesmo improvável. Imaginem se vão arrumar confusão com seus amiguinhos poderosos… Ficaria aí a dúvida em como explicariam o prejú para seus beneficiários ou como (e se) seriam cobrados por eles.

E dos investidores individuais, aqueles do FGTS, o que esperar? Não muito, na verdade. Porque a grande maioria deles é funcionário da própria Petrobras ou de outras estatais. Então, não abrirão processos para não sofrer retaliações internas e/ou porque compactuam com a maneira de fazer negócios e negociatas da turma do andar de cima.

Não importa, pois, se foram enganados. Não importa se no período que compreende as ações a companhia perdeu mais de R$ 100 bilhões em valor. Não importa se os balanços e todo o resto estavam errados e maquiados justamente para esconder o tamanho da corrupção que grassava na empresa.

Muitas vezes, pelas atitudes absurdas que o governo tem na defesa da companhia e dos seus diretores, tem-se a impressão que não se deram conta do tamanho da enrascada. Pois eu desconfio que eles sabem exatamente o tamanho da merda em que se meteram e à maior empresa do país. E já contam com o prejuízo diminuído pela turma do “Brasil de que me ufano” e pela falta de cultura de defesa dos seus direitos dos brasileiros médios, pelo discurso de que bolsa de valores é risco, pela realidade da piada pronta no slogan ‘Brasil, um país de tolos’.

Só esqueceram de explicar que o risco deveria ser calculado seguindo as regras. E a gente sabe que não foi assim

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