Hora da escola (3)

Na escola das minhas filhas existe racismo. Também existe homofobia. E bullying. E roubos ou furtos, sei lá o nome correto quando alguém tira algo de alguém sem ninguém ver. Tudo isso entre outras coisas.

Isso é supreendente?

Não deveria ser. Porque se você tem filhos e eles estão na escola, lá também acontecem essas coisas. É, não adianta torcer o nariz não. Ou você acredita que, mesmo pagando caro ou muito caro, está livre do que acontece no mundo, que aquela sacrossanta instituição à qual confiou a educação de suas crianças é uma ilha da fantasia?

Caiu em si? Então, a pergunta seguinte é o x da questão: o que a escola dos seus filhos faz, como ela trata desses problemas?

Enquanto você pensa a respeito, vou aproveitar pra contar o que aconteceu na escola das minhas pequenas nos últimos meses, até ontem à noite. E o tema é racismo.

O fato

Pouco depois do início das aulas, um garoto do ensino fundamental começou a ser mal tratado pelos colegas. Começou com alguns e a coisa cresceu. O moleque foi chamado de mendigo e colocado nesse papel. Daí pra baixo. E pelo que sei, só não se chegou à violência física. Ele é negro. E tem um belo black power.

Por uma enorme inabilidade da escola no que diz respeito à comunicação, combinada com o sentido de urgência da família diretamente atingida, a coisa deu uma boa degringolada, a história correu a escola e houve certa (e não indevida) comoção. Também houve um erro de coordenação, admitido pelo próprio diretor da escola, em uma das muitas reuniões que aconteceram desde que tudo veio à tona.

É, foram muitas reuniões. Particulares, com as famílias envolvidas, e nas comissões da escola. Em que pese os tropeções, trancos e barrancos no início do processo e uma grande dose de cagaço (desculpem o termo, mas falo de um medo estranho e superlativo) ‘empresarial’ por medo de expor a instituição e até perder alunos, a escola não fugiu do assunto. E chegamos a ontem.

Envolvimento

Fórum de Pais e Professores. Tema: Racismo na Oga Mitá.

Já estava marcado há um mês ou quase. E eu sinceramente estava preocupado com o risco de tudo ser muito tempo perdido. De sair do foco, que é o problema ocorrido na escola e ver a discussão descambar para um tropel de opiniões desconexas ou cair na velha discussão racialista.

Sim, passamos perto disso. Entre duas acadêmicas convidadas para falar a respeito e meia dúzia de três ou quatro pais e mães militantes da causa negra, cheguei a pensar na possibilidade de abandonar o debate e chegar em casa mais cedo. Porque quando alguém sofre algo assim, não é a militância nem a teoria nem o sindicalismo de causas que vai resolver o problema. Especialmente quando se trata de uma criança.

Mas no todo, o fato é que o debate foi muito, muito bom, com uma troca de experiências riquíssimas (em que pese triste às vezes) e o surgimento de várias ideias (das piores às melhores) para não deixar o assunto morrer, muito pelo contrário.

Foram muitas propostas de ações para as crianças e para os pais das crianças. E isso é algo importante, porque apesar da sala muito cheia, nem todo mundo foi (claro), nem todo mundo tomou conhecimento do problema (sim, há gente que vive em outra dimensão).

De visitas a quilombos com as crianças a atividades inspiradas no documentário Olhos Azuis, de Jane Elliot. Mais e mais encontros e reuniões e discussões. Porque infelizmente o assunto não acaba, não vai acabar.

#SomosTodosDiferentes

Felizmente somos todos humanos (com trocadilho e sem hashtag). Felizmente somos todos diferentes em infinitos aspectos. Brancos e negros, cabelos lisos e toin-oin-oins, magros e gordos, princesocas ou bichos-grilos etc etc etc etc.

Estamos falando de crianças, de seres humanos que, em seus vários estágios de desenvolvimento, estão descobrindo e constatando as diferenças, todas elas. Simples assim. Mas, no final das contas, depende de nós, da forma como valorizamos e nos relacionamos com a existência de todas essas diferenças, a forma como nossas crianças lidam e lidarão com o mundo de diferenças ao seu redor.

Escola dos sonhos?

Por que contei essa história e escrevi esse texto monstruoso? Porque acho importante, ora bolas.

A escola das minhas moças é a escola dos sonhos? Claro que não, isso não existe. E ando até insatisfeito com algumas coisas que acho importantes, ontem mesmo avisei a coordenadora que quero uma reunião com ela e a professora da minha mais velha. Sobre algumas coisas que saíram ou mesmo nem entraram nos trilhos.

Mas diga aí, conte ou confesse, sei lá: o que a escola dos seus filhos faz pra tratar de temas espinhosos como racismo? O que acontece na escola além de, eventualmente, apresentações de grupos de capoeira no dia da consciência negra ou tentar correlações muito inexatas entre Zumbi, Machado de Assis e Luther King? E você, como participa da escola dos seus filhos?

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8 comentários em “Hora da escola (3)

  1. Olá! estou muito triste em ter que recorrer ao seu blog mais uma vez, mas está muito dolorosa a experiência de buscar uma escola que esteja em consonância com o que penso sobre educação. Minha filha tem 5 anos e muita dificuldade para se relacionar com outras crianças. Nas escolas por onde passou, as professoras fingiam que nada acontecia, apesar dos relatos de que nenhuma criança queria brincar com ela, de que os colegas faziam chantagem, mexiam na mochila dela e coisas do gênero. Vejo que ela está crescendo insegura e se sentindo sozinha. É muito triste!
    Sobre o ensino, o que posso dizer é que é tudo “mais do mesmo” (entenda o tudo com as restrições das escolas em que passou), sociointeracionista no papel, mas tradicional conteudista na prática…tradicional mal feito, diga-se de passagem.
    Enfim, ano quem vem ela irá para o primeiro ano, ainda que eu esteja inclinada a deixá-la fazer mais um ano de educação infantil, penso que seria mais enriquecedor, embora somente seria numa escola em que o tempo da criança é respeitado e que ela possa construir o seu conhecimento. Fato é que penso seriamente na escola municipal como última tentativa. O Oga Mitá até seria uma opção, mas acredito que eu teria alguma dificuldade para pagar a mensalidade que deve ser praticada alí, imaginando que deve ser bem cara.

    Desculpe o desabafo, mas tá difícil a coisa.

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  2. Se fizessem isso com meu filho (qualquer ofensa), reagiria da mesma forma quando cheguei na escola e ele estava todo mordido pela enésima vez: tive uma “discussão” séria com a professora e a coordenadora. Sorte que minha esposa chegou na hora. Bem, funcionou.
    Posso estar errado, mas se ocorreu na escola, então a escola deve ter o papel de educar/corrigir – como fazer isso eu não sei. E, lógico, avisar os pais o que ocorreu e o que fizeram. Se em casa os alunos recebem o apoio para continuarem com as ofensas… paciência, que o aluno agressor vá para um colégio alinhado com os pensamentos dos pais.

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  3. ou seja… tudo igual. Na minha casa, meus pais me explicariam que não se podia fazer isso, eu tomaria um castigo e provavelmente uma surra e eu nunca mais agrediria ninguém. Falo como branca. Se fosse preta, é provavel que meus pais fizessem um escarcéu e bem provavelmente eu sairia da escola. Hoje é tanta falação e nhem nhem nhem, mas resolver, preto no branco que é bom, não acontece. Bjus Gus.

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    1. Veja que curioso. Levei surras do meu pai pelos mais diversos motivos. E nunca pensei em encostar um dedo nas minhas filhas. Pois tenho certeza que não foi bom pra mim.

      Ao contrário do que pensa, as coisas estão sendo resolvidas sim, não é só nhem nhem nhem. E se você me lê com assiduidade, sabe que não tenho nada de politicamente correto. Muito pelo contrário.

      Vamos imaginar a seguinte situação: um garoto de 9 anos chamou outro de 6 de mendigo, entre outras situações. Os pais são avisados e dão-lhe uma surra. O que é mais provável? Que ele aprenda a lição ou que ele construa a seguinte idéia: “Por causa desse negrinho, levei uma surra. Negrinho filha da puta, esses pretos são todos uns filhas da puta.” É só uma hipóteses. Entre infinitas possibilidades.

      Ah, o mundo não é cartesiano. No caso específico, são pais brancos de garotos negros.

      E não deixe de ver o documentário que postei no fim do texto.

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  4. O que virou a reunião? Como o menino negro vai viver nessa escola? Os pais dos outros tomaram consciência da importância do respeito ao próximo? Haverá ainda outras reuniões ou esse assunto acabou?

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    1. “Foram muitas propostas de ações para as crianças e para os pais das crianças. E isso é algo importante, porque apesar da sala muito cheia, nem todo mundo foi (claro), nem todo mundo tomou conhecimento do problema (sim, há gente que vive em outra dimensão).

      De visitas a quilombos com as crianças a atividades inspiradas no documentário Olhos Azuis, de Jane Elliot. Mais e mais encontros e reuniões e discussões.”

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