Crônica de sexta-feira (18)

A trilha sonora de hoje é do Bermuda Acoustic Trio. Quem me fez lembrar deles foi o André Lopes, amigo do tempo do ronca, do tempo em que Dondon era praticamente um recém aposentado do Andarahy.

O vídeo é a reunião de dois shows da turma em sua formação clássica, a que eu gosto mais. Desde 2012, se apresentam com o reforço de percurssão, bateria e a bela voz de Luciana Buttazzo.

O grupo se reuniu por acaso, em 1995 e sua formação original tinha Giorgio Buttazzo e Gabriel Mountains (violões) e Jordan Kamsin Urzino (baixo). Em 2012, Jordan – com problemas de saúde – foi substituído por Andrea Atto Alessi.

Além de tocarem demais, os caras têm um bom gosto para o repertório. Mesmo misturando rock, folk, jazz e blues, com referências que vão do flamenco ao clássico, passando por trilhas clássicas de todos os estilos e especial deferência a Enio Morricone, os arranjos – mesmo com espaço para algum exibicionismo – não deixam ninguém cansado. Muito pelo contrário.

Coloquem o fone de ouvido e aproveitem para embalar a leitura.

Crônica de uma sexta-feira

Uramaki– Alguma carta perdida, Seu Edmar?

– Chegou nada, não. Quer dizer… carta nenhuma. Chegou, sim, foi a menina bonita! Ê, sexta-feira!

O sotaque debochado do porteiro apressou meus passos cansados. Minha viagem cotidiana ao oitavo andar demorou a eternidade do nosso último beijo (na menina bonita, não no Seu Edmar). E quando eu abri a porta de casa, ela já me esperava toda sorriso.

Chegara não havia cinco minutos, me abraçou com cuidado e mostrou as unhas recém esmaltadas. A amargura de mais um dia exaustivo tão logo se dissipou quando mergulhei naqueles olhos de avelã. Minha pele ardia em brasa por causa do sol paulistano, mas o atrito ainda tímido dos nossos corpos amaciava os ombros e os braços castigados pelo calor.

Estávamos com fome, tesão e saudades. Transamos na pia do banheiro feito adolescentes famintos. Depois, recompostos, partilhamos uramakis à meia-luz enquanto passeávamos por nossos fantasmas e nossos futuros. Ela pediu saquê com frutas vermelhas. Para mim, por favor, apenas uma água com gelo e limão. Tanto fazia a bebida: estávamos embriagados de poesia e virtude. Ambos.

Olhos em chamas, ela descreveu as primeiras impressões da cidade nova – e assumiu tamanha doçura na voz que pude visitar as ruas da planície enquanto ela falava. Perguntei sobre os costumeiros versos muito além da minissaia, mas ela me contou que morre depois de cada rascunho. Explicou que o texto machuca por dentro, desata em vômito e demora a cicatrizar. Eu, não. Eu gozo, renasço. Vivo mais do que nunca depois de cada palavra escrita. Brindamos. Discorremos sobre nossas paixões e nossas clarices. Somos um rabisco, afinal, de Falcão e Lispector. De ingenuidade ensaiada e sentimentos herméticos.

Mais tarde, dedilhei o violão abafado pelo silêncio da madrugada. Li, baixinho, uma crônica manauara quando nos deitamos. Ela alcançou minha estante e retribuiu. Buscou o presente que me deixara na última vez e recitou a dedicatória: “Eis aqui uma lembrança, um recado, um socorro, se preciso. Pra que não lhe falte inspiração na vida, nem sorrisos, nem amor. Pra que você tenha mais um motivo pra não se esquecer da menina que mais te quer bem e, então, nunca se sinta só”.

Acordamos no dia seguinte, satisfeitos e apressados. Com tesão e saudades, de novo. Cada qual, de novo, no seu próprio caminho. Abotoei o uniforme conformado com a ideia de que meu sábado mais uma vez estaria de luto, roubado, vestido de azul. Quando ela também se vestiu e foi embora, percebi que ela não deixaria apenas a lembrança de uma única noite. Parecia uma vida inteira. Uma história a ser repetida quantas vezes permitissem nossos destinos quase sempre incongruentes.

Thiago Crespo, do blog literatofonia

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