Pinto no lixo

Tam Tum / Foto: Lúcia FerreiraComecei a velejar em 2006. Sempre como tripulante. Manza. Mas nesses poucos anos, já houve muitas boas histórias, em terra e mar, e muitos momentos especiais, especialíssimos. Como a primeira vitória, no Picareta. Ainda estava em recuperação da última cirurgia joelho e levei um tombo na cabine no meio de uma manobra. Como eu tinha aprontado na regata anterior e desperdiçado a vitória, caí com o cabo do balão na mão e não soltei nem por decreto. No final deu tudo certo, e apesar do susto, o joelho ficou bom.

Em 2007 não foi um dia, mas um fim de semana inteiro: a conquista do Circuito Rio. A tripulação estava azeitadíssima, velejamos demais e não erramos nada. E ganhamos o campeonato com uma regata de antecedência.

A Santos-Rio de 2008 também teve seus momentos, pro bem e por mal. Primeiro, a levada do Fandango de Ilhabela pra Santos, uma velejada maravilhosa num dia lindo. Eu e Armando fizemos a armação em trisail que usávamos no Picareta e surpreendemos até o Sergio, dono do barco e que já cansou de velejar nesse mundão de meu Deus. Minha primeira travessia em dia de gala.

Já na regata, o sábado à noite foi marcante. Íamos nos arrastando sem vento praticamente desde a largada e àquela altura já surgia a discussão sobre abandonar ou não, por conta dos compromissos da segunda-feira. E íamos nos revezando em turnos e no leme. E calhou do vento entrar, já noite fechada, com nuvens negras e um bom tantinho de chuva. Batismo dos infernos e eu no leme (eu que não tocava nem o Picareta dentro da baía de Guanabara). E toda aquela teoria na cabeça e bota o barco pra andar no escuro só tentando sentir o balando das ondas, e a velocidade aumentando e a turma ficando animada e… Depois de alcançar a velocidade máxima do fim de semana, o céu abriu e o vento foi embora. Meia hora depois do auge da adrenalina e excitação, o cúmulo da frustração. Fui voto vencido e abandonamos.

No ano seguinte, nossa segunda e última Santos-Rio, não foi fácil deixar Helena recém nascida, com menos de uma semana de vida, pra matar uma frustração tão grande. Mas valeu muito muito a pena, pela velejada e pelo resultado.

Esses foram só alguns e ontem eu tive outro dia especial. Finalmente, e depois de muitos meses, voltei a velejar. Minha estréia no Tam Tum, o barco mais novo da família Boteco 1. E eu estava ancorado há tanto tempo que o barco já está quase fazendo aniversário e ainda não tinha experimentado.

Não era dia de regata, houve uma revoada em protesto contra a poluição da baía. Basicamente um passeio. E lá fomos nós, eu, Oscar e (oh, captain, my captain) Morcegão. E nem lembro como, acho que estavam testando alguma coisa no motor que acabou de ser revisado, mas logo depois de sair do clube alguém gritou “Gustavo, fica aqui”. E lá fui eu pro leme. E depois que resolveram tudo, panos pra cima e vamos velejar. E eu lá, tocando o bicho como se tivesse feito isso a vida inteira.

Que barco gostoso da porra, que dia maravilhoso. Um tantinho de vento, um pouquinho de swell, mais ou menos 80 barcos juntos, e a gente se divertindo. Primeira vez que tocava um barco com roda, ao invés da cana de leme. E fora um episódio ou outro, tudo em casa e adaptação perfeita. E com aquele tantinho de vento, 10 nós no máximo, fizemos o bichinho andar no máximo de seu rendimento (pelo que os dois falaram): 6,5 a 7 no popa com asa de pombo, 4,5 a 5 no contravento. E ele lá, soltinho, confortável. E eu ali, pagando de almirante, todo pimpão, quatro horas felizes como há muito não vivia. Difícil vai ser alguém me tirar do leme na próxima velejada.

E o melhor é que, depois de chegar no clube, dava até pra ver o sorriso do barco. Duvida? Então tira a bunda da cadeira e vai velejar. Você vai entender…

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3 comentários em “Pinto no lixo

  1. Eu conheço bem essa sensação vivenciada apesar de ter sido na minha infância e adolescência que sentiamos a liberdade com vento no rosto!!! Eu amava velejar, competir, a união da nossa família em prol de termos momentos marcados pra sempre..inesquecível!!!
    Quando suas filhas forem um pouco maiores, leve as pra passear também, é mágico….foram poucas as medalhas mas todas foram com meu tios, avô e pai!!! Feliz!!

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