Crônica de sexta-feira (15)

Conheci o d’Alverga na faculdade. É, faz tempo. Fotógrafo dos bons, entre outras coisas. Bom de papo, com ou sem copo. E trabalhamos juntos, incluindo uma aventura um tanto rocambolesca com um jornal de Maricá. Boas histórias…

Hoje a crônica de sexta-feira é dele. Que publicou há duas semanas. Mas foi numa sexta, então vale.

Meus sapatos

Sapato marromDe tanto meus familiares reclamarem que meus sapatos já estavam feios, que aqueles sapatos não eram de gente decente e o que não sei mais, tomei coragem de me separar deles, com muita pena. Afinal de contas, já éramos muito amigos.

Resolvi seguir as recomendações da família e, com vários nomes de sapatarias situadas em ruas próximas ao Largo de São Francisco, comecei a escolher os sapatos. Na realidade, algumas lojas vendem barato. Não sei se o produto é de boa qualidade, mas que é barato e bonito é. As ofertas eram tantas que começaram a me deixar em dúvida.

Olhava um sapato marrom, lindo de morrer, quando alguém fala próximo ao meu ouvido:

– Estou observando o senhor, e noto seu desejo em comprar um sapato.

– Perfeito, meu amigo, aquele par marrom, não é bonito? O que o senhor acha?

– Realmente o sapato é bonito, o senhor deve levar, e para combinar com o sapato, que tal o senhor dar uma olhada na vitrine ao lado e comprar umas camisas para combinar com seu sapato?

Achei a sugestão daquele senhor muito boa, era um senhor muito educado. A maneira como fui tratado foi sensacional. Comprei dez lindas camisas.

Voltei para namorar o sapato e uma mulher maravilhosa, dessas de capa de revista, para do meu lado e puxa conversa:

– O senhor está na dúvida, não?

– É, realmente estou.

– Isto pode ser algum problema nos olhos, sabia?

– Não, minha filha, não é não. Eu não tenho nada nos olhos.

– O senhor não gostaria de fazer um exame? O exame é grátis, o senhor pode estar com algum problema e não saber.

– Será que vale a pena?

– Eu garanto, o senhor não se arrependerá. Trabalho em uma ótica e quero ajudá-lo.

Olhei a mulher de cima a baixo e vi sua beleza… Era mais linda do que pensava. Fui fazer o exame, não custava nada mesmo. Além disso, eu ficaria mais alguns momentos com ela.

Aquela mulher era uma santa. Não é que eu estava mesmo ruim da vista!!! E se não fosse ela, nunca saberia que precisava usar três pares de óculos: um para quando houver sol, outro para quando não houver e o terceiro para usar à noite.

Com as camisas debaixo do braço e os óculos no devido lugar, já enxergava bem melhor para escolher os sapatos. Minha dúvida não era causada pelo preço ou pela qualidade, e sim pela visão. Voltei para a vitrine da sapataria, um rapaz se aproximou e começou a me explicar as vantagens terapêuticas de uma bicicleta. Interessei-me pelas condições de saúde proporcionadas pelo uso de bicicleta e comprei uma própria para competição, aro vinte e seis, de alumínio, vinte e uma marchas, cujo preço foi uma bagatela: três mil e quinhentos reais. As condições de pagamento não podiam ser melhores: duzentos e cinqüenta reais por mês, com sessenta meses para pagar, sem juros e sem correção monetária. Fora o seguro pessoal… Genial, não?

Só falta agora eu aprender a andar de bicicleta. Comentei isto com o rapaz, ele me falou para não utilizar essas áreas de lazer, porque todo mundo que lá já sabe andar de bicicleta. “O senhor tem carro?”

– Não, não tenho.

– Ora, eu também trabalho em um consórcio. O senhor vai comprar um carro lindo, um carro do ano. O que o senhor acha?

– A ideia é boa. Como é esse negócio de consórcio?

Depois de explicar como era simples, que só aumentaria duzentos por cento em cada mês durante um ano, que saía uns três carros por mês, dois por lance e, se não tivesse dinheiro para fazer o lance, com um pouquinho de sorte, poderia tirar no sorteio. O rapaz me felicitou por ter entrado para o consórcio:

– O senhor agora já pode ir para sua casa de campo andar de bicicleta.

– Mas eu não tenho casa de campo.

– Não? Oh!

Simplificando a conversa com esse rapaz, muito prestativo com a saúde do próximo, além da bicicleta e o consórcio, eu ainda fiz um negoção: coloquei uma dentadura, e comprei um terreno na beira da praia, um terreno em clima de montanha, três apartamentos na planta financiados pela Caixa Econômica Federal, uma casa em Cabo Frio, outra em Búzios, uma barraca de camping e o título de um clube campestre.

No caminho de volta para casa, comprei ainda uma televisão em cores de sessenta polegadas, um aparelho de som, DVDs, vários CDs de música gospel e encontrei a salvação para a minha alma em uma igreja neopentecostal, cujo dízimo mensal é só de trinta por cento do meu salário.

Voltei para casa feliz da vida e comecei a explicar como consegui a salvação para a minha alma, a maneira pela qual eu havia feito “um negócio da China” e as condições de pagamento, uma tranqüilidade.

– Imaginem vocês, cinquenta anos para pagar, tudo sem juros e sem correção monetária, as mensalidades acima do meu salário, só quatrocentos mil reais!

O pessoal em casa ficou maravilhado e, na euforia de tanto conforto, tanta salvação, tanta vantagem, ainda alguém achou um momento para perguntar:

– E os sapatos?

– Sapatos? Que sapatos?!

Everaldo d’Alverga, do livro Sem Compromisso, adaptado para o blog Reflexos do Imaginário.

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