Que não é o que não pode ser que não é

Aplicativos de redes sociais / Reprodução internetO mais estranho de tudo é que o discurso não combina com a prática.

Ainda me impressiono, não me acostumei mesmo, e essa virada de ano foi impressionante. Fica todo mundo tão agarrado aos celulares, fotografando, postando e enviando mensagens, que não consigo acreditar que estejam vivendo o momento. A nítida impressão é que estão todos tão preocupados em registrar pra mostrar na hora ou ver depois que esquecem de viver. E essa nem é a primeira vez que escrevo sobre isso.

Ou, às vezes, é ainda pior. O sujeito está ali na sua frente, em um grupo, e ao invés de bater papo, interagir, aproveitar as pessoas de carne e osso, gastam todo ou quase todo o tempo que tem trocando mensagens com quem não está. Ou seja, o sujeito está, mas não está. E é claro que não se pode esquecer que do outro lado da tela e do teclado há alguém na mesma situação.

Lá em casa mesmo, na virada do ano, houve um momento em que – entre os 10 ou 12 presentes, quatro se debruçavam sobre seus smartphones-turbo-plus-top-foda.

E aí voltamos à primeira linha desse texto. Cada vez mais essas cenas estão mais recorrentes. E cada vez mais se fortalece o discurso do consumo moderado, da necessidade de interações mais profundas, da importância de se desligar das rotinas. É só mais uma necessidade do cenário, do ter que dizer a coisa certa e mais fofinha e mais politicamente correta, mas a prática que se exploda? Mostrem a coerência disso tudo e juro que não toco mais no assunto.

Sem contar que adota-se firmemente a triste filosofia de Ricúpero, o que é bom é pra mostrar e o resto é pra esconder. Ou seja, vive-se num eterno e constante mundo da fantasia, nada no mundo me abala e tudo são só sorrisos. Estamos sempre muito felizes e sempre mais que os outros.

Não, não me acostumo com esse mundo estranho em que tudo o que temos e fazemos é para os outros, para dar satisfação aos outros. Não, não me acostumo mesmo com esse mundo muito estranho em que o trinômio ter-parecer-mostrar é mais importante do que ser-viver-desfrutar.

Será que não chegou a hora de parar de falar bonito e realmente pensar no tipo de mundo e, muito mais importante, nas relações que realmente temos ou queremos ter?

Em 2013, vivemos um clímax da “era social” visual sem fronteiras, como uma versão atualizada da “Sociedade do Espetáculo”, preconizada no livro de Guy Debord em 1967: uma sociedade com abundância de informações, imagens, hiperconsumista. Regida pela lógica totalitária do “espetáculo”, onde a própria sociedade é o espetáculo, a relação social entre as pessoas é mediada por imagens, e vive em ritmo de espetáculo. O “parecer ser” vale mais do que “ser”, e o “parecer ter”, também.
(Patrícia Weiss, meio&mensagem, 2 de janeiro de 2014)

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Um comentário em “Que não é o que não pode ser que não é

  1. Compartilho do mesmo sentimento de que o povo anda conectado demais. Ouvi uma vez uma frase sobre isso e que gostei. “A tecnologia atualmente aproxima os que estão longe e afasta os que estão perto.” Sempre que vejo fotos postadas durante uma festa com a legenda “legal pra caramba” ou coisas do tipo fico na dúvida, se está realmente tão bom pq n aproveita a festa e desliga o celular?. Abraços

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