O que vale um professor?

Sala de aula / Foto: Marcos Santos/USP ImagensEu ainda não consegui digerir direito o que aconteceu no Rio, na noite/madrugada de sábado para domingo.

Pra quem não sabe: os professores do município e do estado estão em greve desde agosto. Há algumas semanas, o alcaide apresentou algumas propostas e como sinal de boa fé, os da cidade voltaram a trabalhar. Como nada do combinado, foi cumprido, retomaram a greve.

Em nova rodada de negociações, o prefeito voltou à carga e apresentou um modelo de plano de carreira. Eu li a proposta que, em quase todos os aspectos, é indecente e alcança menos de 10% dos profissionais de educação da cidade. Mesmo assim, como sujeito democrático que é, enviou o plano para tramitação na câmara dos vereadores – onde tem maioria absoluta e aprova o que bem entende. Só pra se ter uma idéia, dos 51 vereadores, 41 (de 20 partidos!!!) formam a base de apoio. Os 10 da oposição são 4 do PSOL, 3 do DEM, 2 do PSDB e 1 do PV.

Na pauta, o tal plano recebeu 27 emendas, todas de vereadores da situação. E no meio da semana passada, os professores foram à câmara para tentar negociar com os vereadores. Em meio às discussões, o negócio desandou e o plenário foi ocupado por cerca de 150 dos 200 educadores presentes à sessão. E lá ficaram até sábado à noite, sem quebrar um copo sequer.

Porque apesar de sindicalistas, são professores. E aí está a questão: são professores.

Talvez isso seja besteira pra você. Mas ainda entendo que o professor cumpre uma função sagrada – em que pese todos os muitos problemas existentes.

Registros

Se procurarem por aí, encontrarão mil vídeos e fotos do que aconteceu no Palácio Pedro Ernesto: sem qualquer ordem formal, sem qualquer anuência do poder judiciário, sem qualquer documento, a PM foi enviada para a câmara pelo governador do estado que, teoricamente, atendia a pedido do presidente da casa – numa ação que foi contra o que o próprio Jorge Felipe disse dias antes.

O pau comeu na casa de Noca. Apesar da polícia afirmar que a ação não foi truculenta, 20 foram parar no hospital e até vereadores foram agredidos pelos policiais (foi registrada a frase “vereador também apanha”). Um dos professores, cardíaco, desmaiou. E caído no chão, foi chutado por policiais. E esse é só um exemplo.

Não, eu não sou a favor da ocupação e acampamento na câmara ou coisas do tipo. Mas há o jeito certo e o jeito errado de se resolver os problemas.

O nosso governador, abraçado ao prefeito e ao presidente da câmara, escolheu o errado. E nem preciso falar a respeito dos policiais, especialmente seu comando, que podem (e devem) se recusar a cumprir uma ordem ilegal, e não fizeram isso.

Indignação

Outra coisa curiosa, ainda que triste, pode ser vista nas redes sociais. Alguns discursos e imagens fazendo referência à “indignação da sociedade”. Infelizmente, uma baita duma mentira.

Boa parte da cidade nem sabe o que está acontecendo, não viu o que houve no sábado à noite. Não por acaso. Ao menos a parte da sociedade que é capaz de fazer barulho e até se organizar quando quer, não tem seus filhos em escolas públicas. Assim, não são afetadas pela greve nem tomam conhecimento de como as coisas estão caminhando. Ou você vai dizer que aí no seu trabalho ou na academia ou seja lá onde for não se fala em outra coisa?

E é claro que a chegada da polícia no sábado à noite, quando os jornais de domingo já estão fechados, quando a televisão não tem qualquer noticiário, quando boa parte das pessoas está na rua se divertindo ou até viajando, não foi por acaso. Como também não foi por acaso que a única matéria de O Globo no domingo falava sobre como as famílias estão tendo de apertar os cintos para cuidar das crianças sem aula (como se os alunos da escola pública estudassem em horário integral e não tivessem férias).

Perguntas

Por fim, de tudo isso, me faltam algumas respostas. Se alguém se sentir apto a respondê-las, sinta-se em casa.

  1. Em que tipo de sociedade vivemos e qual queremos construir ao violentar (em todos os sentidos) os professores?
  2. A escola pública, em greve, atende à maior parcela da população, mas a menos capaz de fazer barulho organizado. Qual a atuação do sindicato junto às escolas particulares? Por que os professores, todos, não entram em greve?
  3. Por que o Sepe e o SinproRio não trabalham em parceria?
  4. Com tantas imagens (vídeos e fotos), além dos relatos e hematomas de quem viveu e viu aquela noite, como é que governador, comandante da PM e presidente da câmara tem a desfaçatez de falar que tudo o que aconteceu foi legal e normal?
  5. Com tantas imagens (vídeos e fotos), além dos relatos e hematomas de quem viveu e viu aquela noite, como é que os principais órgãos de imprensa (a “mídia golpista”) continua apoiando e até defendendo (vejam as manchetes, interpretem as manchetes) prefeito e governador?
  6. Mais do que quanto, o que vale um professor?
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3 comentários em “O que vale um professor?

  1. Gustavo, assisti a um vídeo na reportagem do Jornal da Globo onde aparece um professor sentado no asfalto em frente a “casa” que é NOSSA! Nossa casa, pois lá deveriam estar nossos representantes. Nossos, inclusive meu enquanto professor que também sou! Pois não é que, mesmo gritando que era professor (indentificação inconfundível pois estava trajando uma camisa indentificando-o como tal) e que estava em uma manifestação pacífica, foi atropelado pelos PMs e seguranaças da casa que estavam de botas e portavam escudos protetor anti-motim. Fiquei indiguinado e me recordei da época de AI-5 quando, sem dúvida eu teria mandado o caro “oficial” não truculento, literalmente “cair dentro”! A que ponto chegamos? Práticas de militaristas de direita radical? Golpe de ditadura, travestidos de “democracia”. Que País é esse nosso? As vezes me prergunto se estamos na Venezuela ou em Cuba, dado aos disparetes que ouvimos! Vamos lá camarada! Mais 50 anos e talvez comecemos a “evoluir”. Grande abraço – Villela BTW Parabéns….

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  2. Sinceramente,Gu não sei o que dizer!! Estou estupefata mediante essa situação descabida contra os nossos professores que lutam por melhores salários e condições de trabalho. Aonde foi parar a democracia? Será que é o reinicio para uma nova ditadura? Estou apreensiva e muito preocupada porque a nossa população é muito pacífica e omissa!!!! Temos que lutar com inteligencia e união…..afffff tá dificil mesmo de digerir isso tudo! Bjs

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  3. Gustavo, passei na Cinelândia na quinta à noite e pude ver um forte aparato de policiais militares e viaturas de prontidão para intimidar professores em legítima e pacífica manifestação. O contingente de milicos a postos era bem mais numeroso que o povo que terntava lutar por seus direitos. Em terra civilizada, professor é tratado com tapete vermelho. Em terra de Cabral, impera a repressão. Enquanto isso, na Covanca, os tiroteios são diários, com sacrifício da população local e centenas de feridos e mortos. A prisão do ‘Batman’ simboliza o desmando que tomou conta desse governo. Até quando?

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