Hora da escola (2)

O Quarto / Reprodução: Vincent van GoghUm dia, a mocinha de 3 anos chegou em casa contando:

– Pai, fui na Holanda!

Pois bem, essa história é pra turma – pediatras e educadores, inclusive – que continua achando que escola, pra molecada que ainda não está na fase de alfabetização, só serve mesmo pra passar o dia enquanto os pais são obrigados a trabalhar, brincando, comendo, tomando banho e tirando uma sonequinha. Basicamente, pouco mais que um guarda-móveis divertido.

Também vale praquelas escolinhas que gostam de discursos bonitos sobre projetos pedagógicos, apesar de professoras e coordenadoras que mal sabem falar português. E que, no final das contas, só servem mesmo pra passar o dia enquanto os pais são obrigados a trabalhar, brincando, comendo, tomando banho e tirando uma sonequinha.

No início do ano chegou a informação que o projeto do primeiro semestre seria baseado nos vegetais. E aí começaram a falar das plantas, plantaram feijãozinho no algodão e alpiste na meia, e fizeram uma visita ao Jardim Botânico. E daí, não sei como (pois não sou a mosquinha que gostaria), chegaram às frutas.

– Papai, você sabia que a Carmem Miranda morou no Arco do Teles?

Não, não sabia. E também não sabia de outras coisas sobre a cantora, que a mocinha ia descobrindo e nos contando. Só sei que, entre um tico-tico no fubá aqui e um bambu-bambu-lá-lá ali, não foram poucas as sementes de frutas plantadas lá em casa. Infelizmente, para meu bolso e meu paladar, o pomar não vingou.

E segue o baile e das frutas às flores, das flores ao girassol, do girassol a van Gogh, de van Gogh à frase lá do início.

– Pai, fui na Holanda!

Bendita internet. Aproveitando o interesse das crianças, usaram a rede para dar um passeio pelas ruas de Amsterdam, visitar o Museu van Gogh e sei lá mais o quê. O fato é que sem se aporrinhar para tirar passaporte, a mocinha ficou feliz da vida por sua primeira “viagem internacional”.

E o assunto não morreu. Num almoço de família, enquanto conversávamos a respeito, alguém lembrou que o pintor tinha um irmão, mas ninguém lembrava o nome dele. A mocinha, que a essa altura, mais pra lá do que pra cá, esparramada no sofá quase dormindo, levantou a cabeça só para ensinar:

– Theo!

Eu não sabia. Mesmo. E a cada dia sigo descobrindo que não sei muitas coisas interessantes e importantes. De quebra, enquanto fazia uma limpeza no armário na semana passada, já mais de dois meses depois, encontrei uma reprodução. Quando ela viu, reconheceu o estilo de pronto.

– van Gogh! – E sim, é sempre com exclamação mesmo, isso ainda me impressiona.

Mas, voltando a meados do primeiro semestre, enquanto descobriam o pintor, as crianças se encantaram pela tela O Quarto. E daí, uma bela reviravolta. Aproveitando o interesse dos pequenos, o professor usou o projeto Onde as crianças dormem, de James Mollison, para falar das diferenças, especialmente culturais, que existem. Daí, caminharam até o quarto do homem do campo e daí para o boi e daí para os folguedos das festas que encerraram o semestre.

Boi / Foto: Gustavo Sirelli

“O meu boi morreu
O que será de mim?
Manda comprar outro, ó maninha
Lá no Piauí”

Há dois dias, à mesa para o jantar, entendi que voltaram aos quartos e às diferenças. E sim, já estou curioso pra ver onde é que isso vai parar.

Não acho que tudo isso seja um assombro, muito pelo contrário. E a escola da mocinha não é a única em que se encontra esse tipo de trabalho. Mas por conta das conversas e experiências de muitos amigos, achei que era importante falar sobre isso. É um tipo de relato, de informação, que talvez ajude a alguém na hora de escolher uma escola ou mesmo na hora de se relacionar com a escolhida, do que se pode esperar e cobrar da escola cara que se paga por aí.

Anúncios

4 comentários em “Hora da escola (2)

  1. Seu texto foi muito legal. E o deslumbramento é sempre maravilhoso. Tanto o nosso quanto o das pequenas. Estão descobrindo com tal interesse q não me surpreenderia com mais nada…
    Esse tipo de deslumbramento é muito importante, pois vai fazê-las gostar de conhecer e essa é a idéia, né? Lá em casa entamos descobrindo juntas os personagens do folclore… eu já tinha me esquecido de um monte. E estamos com saudades de todos! Bjão

    Curtir

  2. Adorei seu texto, Gustavo! Além da leveza e delicadeza com que foi escrito, é de uma corujisse adorável! E olha que eu entendo desta parada! Eu também estou orgulhosa porque meu filho ‘descobriu’ a Holanda, os Van Goghs e mais uma dezena de países da Europa e seus intermináveis museus. Também graças à escola, afinal, se não fosse a bolsa de estudos que conseguiu não teria tido esta experiência espetacular. Cada qual com seu cada qual, como diria um conhecido meu, Gustavo! Agora estou na contagem regressiva até dia 31 de agosto, me preparando pra ouvir pessoalmente o que ele aprendeu neste último ano!! Quem sabe vira uma série de textos no meu blog também??? Bjs e keep writing!!

    Curtir

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s