O que virá e pelo fim da hipocrisia

Cinelândia / Foto: Fabio Motta/Futura Press/Estadão ConteúdoFicou evidente, pelo menos pra mim, que o que turbinou as manifestações de ontem foram os confrontos ocorridos nas primeiras manifestações, especialmente em São Paulo, e a cobertura torta da maior parte da imprensa jogando nos ombros das polícias a culpa de tudo o que aconteceu de errado.

Mas essa percepção não esconde o fato de que quase tudo o que aconteceu ontem foi maravilhoso. Porque pro bem e pro mal, com o estopim certo ou errado, ver que a população é capaz de se mobilizar e de se expressar – quando há muito tempo se acreditava que cada um de nós tratava de olhar apenas para o próprio umbigo – é maravilhoso.

Outra coisa fabulosa que houve ontem foi a capacidade, consciente ou não, da massa isolar aqueles que foram às ruas pra fazer cagada.

Violência, segurança e combate

Não consegui acompanhar a cobertura detalhada de cada uma das grandes cidades, mas o que houve no Rio foi muito grave. Pelo que vi e ouvi, ficou claro que a PM tinha ordens diretas para não entrar em confronto, em qualquer situação. Isso explica o cerco aos policiais na Alerj e a demora para a chegada à ação do Batalhão de Choque.

Coquetel molotov na Alerj / Foto: Nicolas Taner/APNo entanto, nem Cabral nem Beltrame deram as caras. O que será feito contra essa turma? “Ah, não podemos fazer nada, era uma multidão e muitos estavam mascarados”. Uma pinóia!

Nas imagens, há muitos de cara limpa no meio da turba. Então o trabalho é Identificar, encontrar, prender e processar. E os crimes são vários. E sim, são bandidos.

A outra coisa é deixar a polícia pronta pra reagir, devidamente orientada sobre como e porquê. É só não inventar nada, sigam as leis e os baderneiros serão detidos.

Mas, acima de tudo, é preciso ter claro que essa violência não é gratuita, por acaso. Vivemos um momento grave, em que a manutenção ou não do poder dá o tom das ações desse governo que está aí. E não vai parar. Nas próximas manifestações, corre-se o grande risco de que eles tentem e consigam não se isolar, fazendo suas cagadas misturados à massa. E aí, será o terror.

Ir e vir

Outro absurdo de ontem no Rio foi a incapacidade da cidade em se preparar. É fato que ninguém esperava a quantidade de gente que apareceu e muito mais gente do que os 100 mil fugiram do centro com muito medo. Mas por que, sem qualquer comunicação ampla, sem avisos prévios, fecharam as duas maiores estações de metrô do Centro às 17h30? Quem tomou a decisão e quem permitiu?

Com 5, 20 ou 100 mil pessoas na rua, o trânsito dá nó. Na outra semana, deu nó por causa de um caminhão acidentado. Então, como é que as pessoas se locomovem, voltam pra casa, se os ônibus não rodam (porque não conseguem) e o metrô está fechado?

O que virá?

Ocupação da marquise do Congresso Nacional / Foto: Ueslei Marcelino/ReutersParece que está mesmo provado que o problema não são os 20 ou 40 (ida e volta) centavos. Há muitas questões reprimidas há muito tempo. Mas e o que vem agora? Já há outra manifestação marcada para a quinta-feira. No Rio, a turma quer colocar um milhão na rua. Os ‘realistas’ falam que 200 mil é algo factível. Talvez seja mesmo, não há dúvidas que o dia de ontem foi especial (em todas as suas conotações) e o pouco tempo entre uma e outra passeata pode ajudar a inchar ainda mais o movimento.

Mas há questões práticas em que se pensar. Não há uma liderança ‘formal’, não há uma pauta organizada. Além disso, Cuiabá, João Pessoa, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife e Vitória já anunciaram redução (graças a uma isenção de impostos) no valor das passagens, ponto inicial das manifestações. Outras capitais e grandes cidades também devem fazer o mesmo. E ssse cenário, a médio prazo, talvez faça com que o barulho se dilua, minguando os eventos, até voltarmos ao silêncio sepulcral de duas ou três semanas atrás.

A falta desses pontos bem definidos também facilita a vida dos nossos ilustríssimos representantes, pois não os obrigam a ‘entender’ o movimento e dar respostas práticas aos quereres da população.

No entanto, também pode acontecer o contrário, o que seria fantástico. Seria uma quebra gigantesca de paradigmas. E, sem dúvida, benéfica para o país.

Até agosto, por exemplo, será decidido o futuro da turma do mensalão. E já há dois novos ministros que foram indicados para reverter, se não as condenações, boa parte das penas. Um deles (Barroso) já declarou em entrevista que o Supremo foi muito duro na ação penal 470. Por aí, vê-se onde podemos chegar. E ainda haverá mobilização até lá?

Cada um com seu cada qual

Acorda Brasil / Foto: Caio Kenji/G1Pra terminar, agora que estamos “todos” na rua ou comemorando o sucesso das manifestações de ontem, deixo as perguntas que o Rica Perrone fez em seu blog. Porque ao contrário do que pensa boa parte, os problemas não são apenas dos outros. E é de bom tom não ser hipócrita.

Agora que estamos na rua por um país melhor, vamos jogar fora a carteirinha de estudante (pra quem não estuda) que usamos e lesamos os não estudantes honestos que pagam mais pra compensar?

Vamos pensar melhor na hora de fumar um baseado e sustentar um traficante que amanhã pode estuprar sua filha?

Vamos pagar a multa e não o guarda que amanhã vai liberar um bêbado que vai acertar seu carro e matar um parente seu?

Vamos pedir pro amigo que tem o GatoNet assinar honestamente o produto pra que não fique mais caro pra você?

Vamos não renovar CNH por fora pra que um bêbado com 100pts não renove e cause um acidente amanhã?

Vamos até o lixo na praia e não deixar na areia nossos restos?

Vamos mudar o Brasil começando por nós?

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