Várzea

Hoje tem Brasil e Itália. E apesar de termos vencido duas copas justamente contra eles, o jogo que não sai de nossa memória é aquele do Sarriá, em 1982. A Argentina tem o tango, Portugal o fado, os Estados Unidos o blues. Em regra, cantos de lamento. Não consigo identificar na música brasileira algo que ocupe esse espaço de forma tão marcante. Apesar disso, a história do confronto explana a nossa vocação (na maioria das vezes não declarada) para o sofrimento. Resquício do complexo de vira-latas?

Mas ao lembrar daquela partida, é impossível não viajar pelos campinhos e terreiros escondidos pelos rincões e subúrbios onde nasciam nossos craques. Algo cada vez mais raro nesse mundo moderno de grama sintética e franquias de escolinhas espalhadas por aí. Nesse mundo que não para de mudar, até a várzea mudou. Mas não de todo.

Em Ponte Alta de Minas, vila da zona da mata que fica entre Carangola e Fervedouro, há um campo. Um terrão num elevado, com uma lateral encostada num barranco e um bom tanto de mato que brota pelos vértices nem tão retos. Se o chute pegar na veia e for a tiro de meta, de um lado cai na rua, do outro cai no cafezal.

E com essa memória acordada, dei de cara com o texto abaixo, do economista e cientista político Luiz Carlos Piva, publicado no Blog do Juca Kfouri.

Futebol no barro / Foto: Hélvio RomeroPedalou, tiro do time.

Irrita. O cara não sabe driblar e fica lá, com os pulinhos prum lado e pro outro. Desde que começou essa história ninguém dribla mais. E no meu time só joga quem sabe driblar.

O futebol é o drible. Quem manda mesmo é quem passa por três ou quatro, dá chapéu, elástico, faz que vai e volta – até fazer o gol ou perder a bola. É ali que tá quem joga mesmo. Futebol, eu tô falando.

Aí vêm esses caras agora com a pedalada. Francamente!

Ou faz o drible direito, enfileira, humilha, mesmo que perca a bola e o gol, ou dá o passe. Mas não pedala! Pelamordedeus, não pedala!

Tem outra. Beque dando chutão fingindo que é lançamento.

O cara ajeita o corpo, faz que olha alguém entrando em diagonal e bate na bola. Ela sobe, sobe, sobe e cai na cabeça do adversário. Ou vai pra lateral. Dez vezes por jogo. E ninguém tira o cara.

Eu tiro na hora. Fica uma semana treinando passe e lançamento. E banco, que é pra aprender. Se duvidar, vou eu lá e faço, ensino. Marco um xis a 40 metros e faço ela cair lá. Já joguei. Eles sabem disso.

O negócio é que eu gosto de futebol. Acha que eses técnicos famosos gostam? Mourinho, Capello, Guardiola, Felipão? Não gostam nada.

Imagine eles andando de carro numa estrada. Passam perto de um lugarejo – aqui mesmo, por exemplo, em Tabuleiro. Tem umas cabrinhas, um buteco, um cemiteriozinho e um campinho de terra com uns moleques jogando. Eu pergunto: eles param pra ver? Param? Nunca!

Pois eu paro. Descobri muito craque desse jeito. Uns até progrediram, saíram aqui da várzea.

Eu também tive minhas chances. Fui chamado por uns times aí pra ser treinador. Mas não.

Aqui é que precisam de mim. Se não, acaba o futebol aqui.

E esses meninos aí, quem é que vai cuidar?

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