Trambolho

Tough day / Foto: Laurent AubléHá coisa de 3.400 anos, na Mesopotâmia, alguém teve a idéia brilhante de proteger do sol a cabeça de reis e afins. Depois de uma trajetória confusa, em que assumiu o papel de artigo religioso no Egito e algo exclusivamente feminino na Roma e Grécia antigas, foi finalmente popularizado pelos idos de 1.780, não por acaso, na Inglaterra da garoa.

O sujeito que fez o primeiro guarda-chuva (quase) como o conhecemos hoje foi Jonas Hanway, um comerciante que chegou a ser ridicularizado por adaptar o treco que antes era usado apenas pelas moças de boa família.

Pois eu tenho uma coisa pra dizer a vocês, minha meia dúzia de quatro ou cinco leitores quase fiéis: eu odeio guarda-chuva. E existem várias razões pra isso. Primeiro, em que pesem suas evoluções – dobrável, automático, cada vez mais leves etc. –, continua a ser algo nada prático para se carregar, principalmente quando chove. Afinal, de que adianta ele ficar tão pequeno para caber em bolsas e mochilas se, molhado, você não pode guardá-lo para não encharcar e estragar suas outras coisas? Está, então, configurado o trambolho.

Outro motivo para detestá-lo é a sua reconhecida ineficiência. Afinal, basta estar chovendo um tantinho mais forte ou estar soprando um ar pouco mais forte que uma brisa para que o tal trambolho (quando não quebra ou rasga) proteja apenas e tão somente a sua cabeça. Não sei vocês, mas gosto do resto do meu corpo tanto quanto da minha cabeça. Além disso, geralmente adoecemos (gripes, resfriados e afins) graças à roupa molhada, e não ao cabelo molhado.

Também há o caso da dimensão especial reservada ao fabuloso artefato. Todo mundo que conheço perde ou perdeu incontáveis guarda-chuvas ao longo da vida. Mas nunca vi o sujeito sortudo que os acha. Ou seja, uma equipe de duendes contratada por fábricas chinesas os rouba ou os faz desaparecer (quando não, as duas coisas) para manter o mercado aquecido.

Por último e, para mim, mais grave, é o risco de ficar cego. Ontem, fui quase ou atingido nas proximidades dos olhos uma dezena de vezes em um trajeto de pouco mais de 150 metros entre o prédio em que trabalho e a entrada da estação do metrô. Não importa se o guarda-chuva é o de tamanho normal ou gigante (no Rio, chamam de familião). O fato é que as pessoas, em geral, não se dão conta de quem ou o quê está ao seu redor, principalmente acima de suas cabeças.

Então, meus amigos, faço um apelo: abandonem seus guarda-chuvas e passem a usar casacos, capas, bonés, chapéus ou duas ou três dessas coisas combinadas. Suas vidas serão muito mais práticas, o trânsito de pedestres ficará muito mais ágil e seguro. E se isso não bastar, pensem em quantos empregos serão criados em nossa indústria têxtil. Até o PT ia gostar, vejam vocês. Já sou até capaz de imaginar o novo slogan do governo: país rico e que enxerga bem é país sem guarda-chuvas.

Anúncios

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s