Do armazém de secos e molhados

Ontem vi no Facebook que já há uma campanha para mudar o nome da rua Jangadeiros, em Ipanema, para Millôr Fernandes. Fui convidado a apoiar, aquelas coisas de redes sociais. Sinceramente, não sei o que pensar. Não que o sujeito não mereça a homenagem, mas sou daqueles que estranham muito algumas mudanças simples como nomes de ruas.

A curiosidade relacionada à tal campanha é que, há alguns anos (2008 ou 9, não lembro bem) tentaram mudar o nome da mesma rua para Leila Diniz. Houve abaixo-assinado entre os moradores, contra a mudança, e até comentários tragicômicos como o feito pela mãe do César Maia: “não quero morar em rua com nome de puta”.

Millôr era um sujeito que pensava, há quem diga por aí que foi o último (se não o único) pensador brasileiro. Não tenho conhecimento suficiente para concordar ou discordar. Mas o melhor dele é que, ao contrário de boa parte da turma de sua geração (inclusive de alguns que, como ele, foram da equipe do Pasquim), não tentava diminuir ou espezinhar o interlocutor que discordasse dele.

Enfim, cumpriu o ciclo e foi-se embora. A esta altura está sendo velado e será cremado em seguida. Ou seja, seu último desejo – exposto há mais de 40 anos no “Poeminha: última vontade” – não será realizado.

Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossego
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre folhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos
(Como eu).
E, como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu túmulo
Com a raiz poderosa,
Haja a vaga impressão
De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome,
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora,
Preso à angústia infinita
Do ser e do não ser.
Sol e chuva ocasionais,
Estes sim, imortais.
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr

P.S.: o poema e a foto brilhante (e sem crédito, infelizmente) foram pescados na seção Feira Livre do blog do Augusto Nunes.

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Um comentário em “Do armazém de secos e molhados

  1. “Mas o melhor dele é que, ao contrário de boa parte da turma de sua geração (inclusive de alguns que, como ele, foram da equipe do Pasquim), não tentava diminuir ou espezinhar o interlocutor que discordasse dele”. NOSSA! Não é bem assim. Procure apurar as causas pelas quais ele pediu demissão do Jornal do Brasil.

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