Que o povo seja feliz

Durante a copa de 82, a tal, ainda tinha oito anos de idade. Já adorava futebol, claro, mas meu horizonte era muito curto. Morando em Vila Isabel, já tinha ido ao Maracanã, claro. Era um tempo que pais levavam seus filhos sem muitos medos. Também já tinha comunicado ao velho, tricolor, que era Flamengo.

Jogava botão e meu time só podia ser aquele: Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Junior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Falcão, Cerezo, Reinaldo e Sócrates já eram nomes conhecidos, mas não tinha a dimensão de quem era cada um de verdade. Vale lembrar que naquela época o campeonato brasileiro era uma zona, com uma fórmula estapafúrdia a cada ano e futebol na TV não era a farra que é hoje. Na verdade, era quase raro.

E aí, veio a copa. E o segundo melhor time que já vi jogar na minha vida. E lá estava o cara, um monstro usando a camisa oito.

Aí, um dia, o cara veio jogar no Flamengo. Sua estréia foi num Fla-Flu na primeira rodada do carioca. A essa altura, já morava mais perto do Maracanã e meu pai tinha um amigo (não lembro se botafoguense ou vascaíno) que tinha cadeiras cativas e, às vezes, emprestava. E lá fomos nós. Além do Magrão, Zico tentava mostrar que estava recuperado do quase assassinato que sofreu no ano anterior, a entrada criminosa de Márcio Nunes, do Bangu. Pra completar, alinhavam entre os onze Jorginho, Leandro, Mozer, Adalberto, Andrade, Bebeto e Adílio. Era pouco?

Não lembro mesmo se ele jogou bem. A partida terminou em surra, 4 a 1 com três gols de Zico e foi impossível ver qualquer outra coisa além. E no final das contas, entre contusões de um e outro, só conseguiram jogar juntos mais duas vezes, nunca no Maracanã. E o sujeito foi embora sem muitas alegrias em vermelho e preto.

Bendito seja o sujeito que inventou o vídeo tape, porque Sócrates foi daqueles caras que – apesar de ter visto jogar –, entendi de verdade, apreciei, me deixou boquiaberto bem depois de parar, quando vi lances e até alguns jogos inteiros do Corinthians.

De quebra, um sujeito que pensava, que se posicionava, que sabia o que queria, que sabia o que sonhava. Nessa entrevista de 1983 (Rádio Eldorado, programa Galeria, 68 minutos), diz em alto e bom som: “que o povo seja feliz”.

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