Crônica de sexta-feira (9)

D e s

É impressionante o poder das letras. Como é que elas conseguem? Vejam este exemplo, dentre tantos outros que podemos observar na nossa rica língua portuguesa: as três simpáticas letrinhas d, e, s, juntas, tornam-se malvadas, feias, formam um prefixo danado de chato, transformando muita coisa que é boa em ruim: desconforto, desnutrido, desprazer,

Tá bom, tá bom, nem sempre é assim, alguém pode dizer, pois temos descalço, despoluída, descansado, descomplicado e por aí vai. Mas são exceções, tão comuns às regras.  O normal, digamos assim, são as três sempre descrevendo algo negativo, como desamor, desigualdade, desmoralizado e não sei quantos mais des alguma coisa poderia descrever aqui.

E é claro que existem outras combinações maléficas, de letras simpáticas que se transformam, num passo mágico da gramática, em vilãs. Nem quero me lembrar delas, pra ficar só no exemplo que escolhi para este texto. Descabida é esta vida de quem entende muito das normas e procedimentos da boa língua pátria, desfalcada, muitas vezes, de um bom senso.

Desconsiderando, portanto, outras abordagens, vamos tentar ilustrar mais o nosso raciocínio, sem descuidar de manter o seu interesse em ler esta crônica, pois a desatenção do leitor é, no mínimo, um motivo, ou uma desculpa para o autor não mais escrever.

Deslealdade, descompromisso, descompasso, destituído, desatento, desconfortável, despolitizado, vejam quantas palavras feias vão surgindo, à medida que digito d – e – s e fico pensando no que pode vir em seguida. É infindável, é desconfortante pensar que eu me lembrarei de muitas e muitas outras palavras que descrevem a feiúra do d – e – s mais outras letras. Que coisa! Será assim também com outros prefixos? Que desânimo!

E a coisa não para mesmo: desmiolado, desmineralizado, destroçado, desabrigado, desanimado, descontrole… Meu Deus, quanta coisa negativa!!!

Então, é bom ir parando por aqui, né?! Pois afinal, hoje é sexta-feira e o meu objetivo foi sempre lembrar que hoje é o dia mais nobre da semana, pois vem aí um final de tarde, uma noite pra desacordar todos nós, no sábado uma lua cheia pra desbravar a nossa visão e, enfim, um fim de semana pra ninguém desconfiar que existem, na nossa gramática, três letrinhas tão simpáticas que, juntas, podem se tornar, simplesmente, desimpáticas, desbonitas, desalegres, desstress, desfelizes… Tá vendo o que eu fui arrumar?!  Agora, invento palavras deselegantes, desconectadas das regras básicas da nossa desgramática. Ainda não fiquei louco, apenas existo. Mas por hoje, eu desisto!

Rodrigo Faria

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