Todo o sentido

Eu achei estranho, quando as luzes se apagaram e antes do sujeito aparecer no palco, cheguei a pensar que era alucinação. Como se o microfone não estivesse totalmente aberto, como se balbuciasse uma espécie de oração, enquanto o frenesi na platéia começava (“vai começar, vai começar!!!”), só sua voz: and in the end, the love you take is equal to the love you make. Não fazia sentido o cara começar pelo the end.

Acreditem, ainda estou tentando digerir o show de domingo. E, sinceramente, ainda não sei bem o que falar ou o que escrever a respeito. Ainda estou numa espécie de ressaca, já quase uma semana depois.

Acho que encantamento é a palavra chave. Fiz questão de não ler muito sobre o show, não procurei pelo set list. Se o sujeito tem repertório pra tocar uma semana sem parar, por que vou perder a chance de me surpreender durante duas ou duas horas e meia?

E lá vem o cara, com seu paletó azul, acenando e sorrindo pra turma, como manda a boa educação. E o show começa, Hello, Goodbye e tome Beatles na veia. Nos intervalos, palavras e até frases inteiras em português macarrônico, num esforço danado pra ser simpático. E música e mais música e mais música e mais música. A diferença é que não é só mais música, são aquelas músicas.

Ao ver o cara ali ao vivo, é impossível não lembrar de Tavito e sua Rua Ramalhete, em que perguntava, lá nos anos 70, se algum dia eles viriam aqui para cantar as tais canções que vão sendo apresentadas geração a geração, encantando gerações e gerações. E enquanto o sujeito derrama o monte de clássicos da tal banda de Liverpool, é inevitável olhar em volta pra tentar entender como é que pode uma ‘simples’ coleção de músicas ser capaz de encantar o coroa de 60 anos ali, dois degraus abaixo na arquibancada; a menina ao meu lado que – levada pelos pais, aos 12 ou 13 anos – conheceu Beatles no primeiro show do sujeito em 1990; a turma de mineiros que, pelos 30, tem uma banda cover; o João Pedro que, aos seus 8 ou 9 anos, já toca bateria e estava do outro lado da arquibancada porque ele é o fã e não porque sua mãe o carregou; que Helena, do alto de seu um ano e sete meses, nem faz idéia do que seja isso mas adormece sorrindo ao som de Let it be e And i love her.

De quebra, clássicos dos Wings, de sua carreira solo, tributos a John e George, Ob-la-di pra lembrar do Ringo. E olhava para o palco e via o cara com seus quase 70 tocando como um pós-adolescente, se divertindo com sua banda magnífica como se estivesse tocando na garagem do fundo de casa. E quando a gente repara, já está lá o piano colorido pra lembrar a Jude e a nós que ninguém deve tentar carregar o mundo inteiro sobre os ombros. E chega o sargento Pimenta pra nos dizer que é hora de ir embora, esperando que tenhamos gostado do show. E in the end. the love you take is equal to the love you make.

Pensando bem, fez todo o sentido.

P.S.: sem explicações ou lógica, meu beatle predileto era George. E se pudesse escolher uma canção a mais para o show, seria essa aí.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Um comentário em “Todo o sentido

  1. Tb acho que faltou essa música, mas como vc pontuou muito bem, o cara tem repertório pra tocar por 1 semana sem parar. Muito difícil a tarefa de reduzir ts num show de 2h. Mas foi lindo! Adorei rever o Paul e dessa vez conhecendo um pouquinho mais que em 1990 😉

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