Nós vai, nós vem, é nóis na fita

Essa história de preconceito lingüístico que explodiu com a polêmica do livro Por uma vida melhor, na verdade, não tem nada de nova. No Brasil, o primeiro a abordar o assunto foi Nildo Viana. Sociólogo (UFG), mestre em Filosofia (UFG) e Sociologia (UNB) e doutor em Sociologia (UNB), Viana apresentou uma visão marxista (surpreso?) em que a linguagem é um fenômeno social e está ligada ao processo de dominação. Assim, o sistema escolar seria a fonte da dominação lingüística.

Não sei o que andam tomando no café da manhã pelos lados do nosso Planalto Central, mas também é de lá, da UNB, que saiu o principal nome no Brasil de hoje a esbravejar sobre o tal preconceito. Marcos Bagno já publicava livros sobre o tema no final da década de 90. De acordo com o moço, os falantes que não dominam o que ele chama de ‘lingua padrão’ sofrem preconceitos e são excluídos da ‘roda dos privilegiados’ que tiveram acesso a uma educação de qualidade.

Parece insano pra você que conseguiu ler até aqui? Pois é. Por que, ao invés de lutar pela massificação do erro até que ele se torne certo, eles não brigam para que todos – sem qualquer tipo de discriminação – tenham acesso à tal educação de qualidade que eles mesmos admitem existir? Porque dá trabalho, é mais fácil admitir o erro como correto. E isso é um tanto mais sério do que a briga por um simples livro didático. Ou vocês já esqueceram da nossa última reforma ortográfica?

Afinal, para que ensinar a usar o acento corretamente, se podemos eliminá-lo? Vejam esse exemplo (muito usado pela turma com quem trabalho), uma possível manchete do Globo, da Folha ou de quem quer que seja:

Carta para o Congresso

Então, digam aí: alguém muito importante conseguiu dar publicidade a uma carta que enviou para nossos dignos representantes de Brasília ou o conteúdo de uma missiva qualquer era tão explosivo, tão bombástico que interrompeu todas as atividades nas duas casas de nosso parlamento? Olhando assim, você também não fica impressionado por não terem aproveitado a bagunça para extinguir o acento grave, aquele que sinaliza a crase. Afinal, um monte de gente (inclusive na ‘roda dos privilegiados’) não sabe usar e deve causar um monte de preconceito.

Mas, se você – como eu – também ficou indignado com toda essa história, é bom conformar-se. Porque o MEC não vai recolher quase meio milhão de livros muito mais panfletários que didáticos. Daqui a pouco, passa o frenesi e nos deparamos com outros escândalos e outros e outros e outros, maiores e menores. E nada vai se resolver. Pelo contrário, estamos caminhando a passos largos para o ‘nós vai, nós vem’. É nóis na fita!!!

Para amenizar um pouquinho, um texto de 2008 que recebi por e-mail e tive que dar uma volta longa para descobrir que o autor é o Lucas, do K-Blog (que já está incluído em Na boa, aí na barra lateral). Boa leitura.

A despedida do Trema¨

Estou indo embora. Não há mais lugar para mim.

Eu sou o trema.

Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos. Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos!

Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!

O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio… A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. O dois-pontos disse que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele ficaem pé. Atéo Cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?

A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K, o W. “Kkk” pra cá, “www” pra lá. Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que, aliás, deveria se chamar TÜITER.

Chega de argüição, mas estejam certos seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou “tremendo” de medo.

Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o Alemão, lá eles adoram os tremas.

E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar.

Nos vemos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus..

Trema¨

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