Nós vai tudo se f… (2)

A coisa está ficando pior que a encomenda. E volto a falar do livro Por uma vida melhor, distribuído pelo MEC a 485 mil alunos da rede pública no Brasil.

A ONG Ação Educativa, responsável pedagógica pelo tal livro, publicou uma nota sobre a obra. Destaco um trecho.

O trecho que gerou tantas polêmicas faz parte do capítulo “Escrever é diferente de falar”. No tópico denominado “concordância entre palavras”, os autores discutem a existência de variedades do português falado que admitem que substantivo e adjetivo não sejam flexionados para concordar com um artigo no plural. Na mesma página, os autores completam a explanação: “na norma culta, o verbo concorda, ao mesmo tempo, em número (singular – plural) e em pessoa (1ª –2ª – 3ª) com o ser envolvido na ação que ele indica”. Afirmam também: “a norma culta existe tanto na linguagem escrita como na oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”.

Alguns absurdos até um tanto óbvios estão nesse parágrafo. O primeiro, quando dizem que variedades do português falado admitem que substantivo e adjetivo não sejam flexionados para a devida concordância. Como assim? Sinto muito por todos os mestres e doutores que concordam com isso, mas a oralidade não permite o erro, a coloquialidade (existe essa palavra?) não permite o erro. E se os erros existem e são repetidos a granel, são pela falta de educação endêmica do brasileiro ou por vício de linguagem. Vícios que todos temos, mesmo quando conhecemos as normas, mas que não chancelam ou justificam os erros.

O segundo absurdo, naturalmente, concorda com o primeiro. Dizem, os autores, que quando escrevemos um bilhete – por exemplo – podemos ser informais. É verdade. O que quero saber é: desde quando a informalidade permite ou justifica o erro?

Sigamos adiante. Ao final da nota há um link para o capítulo 1 do livro, Escrever é diferente de falar, de onde foi reproduzida a página que aparece como imagem no post abaixo. Dei-me o trabalho de ler o tal capítulo e, para o meu horror, o texto é muito mais próximo de um panfleto político do que um livro didático, insuflando o leitor à ultrapassadíssima luta de classes. De quebra, deixa implícito que o uso correto da língua – que eles chamam de norma culta, misturando alhos com bugalhos – deve ser aprendido apenas para seu uso em algumas circunstâncias. Leiam o trecho abaixo.

A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros. Esse preconceito não é de razão linguística, mas social. Por isso, um falante deve dominar as diversas variantes porque cada uma tem seu lugar na comunicação cotidiana.

Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário.

Por fim, em entrevistas a sites e rádios por aí, autores e responsáveis pela obra estão utilizando o argumento de que o livro não será usado na educação infantil, mas com jovens e adultos. Assim, a tal abordagem faria o aluno se interessar pelo tema pois o aproxima de sua realidade. Hã? Quer dizer, então, que jovens e adultos que tentam recuperar o tempo de estudo perdido podem aprender errado? Desculpem, mas não fez sentido para mim. Porque o está escrito no livro é o seguinte:

Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro?’.”

Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico.

Desculpem, mas não acho que qualquer pessoa possa falar ‘os livro’. Infelizmente, há muita gente que fala assim porque vivemos em um país que não se preocupa verdadeiramente com a educação. Então, o papel da escola e de qualquer pessoa que conviva com situações assim é ensinar, orientar, educar.

Infelizmente, os autores tentam justificar o injustificável. Claro, afinal foram capazes de confundir conceitos tão díspares quanto formal/informal e certo/errado. E enquanto toda essa confusão é discutida por aí, o nosso querido ministro da educação diz apenas que a discussão é papel das universidades e que não se mete na escolha dos livros para que não haja desconfiança sobre censura. Bonito? Ele só esquece, ao dizer isso e tentar fugir da responsabilidade, que é o MEC quem chancela e distribui os livros.

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2 comentários em “Nós vai tudo se f… (2)

  1. Como professora da lLíngua Portuguesa, solicito bastante atenção Formal/Informal é bem diferente de Certo/Errado !!!!!!!!!!! Atenção rapaziada com a língua falada e a língua escrita (culta) !!!!
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  2. Como professora da lLíngua Portuguesa, solicito bastante atenção Formal/Informal é bem diferente de Certo/Errado !!!!!!!!!!! Atenção rapaziada com a língua falada e a língua escrita (culta) !!!!

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