Certos dias de chuva, nem é bom sair

Fiquei a semana passada inteira à espera do sábado. Ilha da Mãe. Adoro essa regata. Assim como adoro qualquer uma de percurso mais longo, principalmente as que saem da Baía da Guanabara. Afinal, obrigatoriamente enfrenta-se condições muito diferentes de velejada.

Não tenho a medida exata, mas o percurso é de cerca de 15 milhas (mais ou menos 27 quilômetros) e, por isso, a largada estava marcada para as 11 da manhã. Mas ao chegar no clube…

Eram mais ou menos nove e meia quando sentamos na varanda do clube e, olhando pro mar liso e pras bandeiras caídas nos mastros, começamos a imaginar se seria possível fazer a regata ou, na melhor das hipóteses, criar um percurso alternativo, mais curto. E o tempo só fazia piorar, até que chuva desabou. Era pouco depois das dez e a informação era de que a largada não seria realizada antes de meio-dia. E enquanto a água caía e o vento teimava em não aparecer, aumentava nossa preguiça de ir pra água. Impossível não lembrar da música de Guilherme Arantes.

Só acaba quando termina

Mas a água parou de cair e o vento (na verdade, uma brisa) resolveu aparecer. E lá fomos nós. Seis barcos, seis tripulações teimosas. E largamos pouco depois das 12h30. E largamos mal, em penúltimo. Pouco atrás, só o Dona Zezé. E lá na frente, já bem longe, Smooth, Rocas, Catavento e Ravena.

A bordo, apenas Armando, Louise e eu. E ela já meio desanimada porque já tínhamos ficado muito pra trás. E nós tentando convencê-la de que a regata só tinha começado. Aquele papo de que só acaba quando termina. E lá fomos nós, aproveitando a brisa ao máximo e com todo o cuidado do mundo na escolha dos bordos, para não errar. E fomos nos aproximando de quem estava à nossa frente e pouco depois da primeira milha já estávamos em quarto.

Maré

O detalhe, que seria decisivo, é que além do pouco vento, havia uma maré no meio do caminho, no meio do caminho havia uma maré. Fortíssima. E enquanto os três líderes brigavam com ela pra sair da baía, levantamos nosso balão  e conseguimos acelerar nossa recuperação. E, ao vencer a barra, algo que nos pareceu um problema acabou nos ajudando. Precisamos dar um jibe, mas por não ter nenhum proeiro de ofício a bordo, demoramos mais do que o normal para virar o balão. Isso nos fez afastar um pouco mais que os outros da costa e quando conseguimos completar a manobra já estávamos com a maré a favor.

O Picareta acelerou e muito antes da metade da regata já estávamos em terceiro. Mas tomamos um susto. Um dos cabos do pau do spinnaker (peça que ajuda a sustentar a vela balão) arrebentou. Aos trancos, e sem deixar nosso foguetinho azul desacelerar, conseguimos resolver o problema e começamos a nos preparar para dar novo bote na hora de contornar a querida Ilha da Mãe. E assim foi feito. E terminamos a volta na ilha já em segundo, só faltava o Smooth…

Boca fechada não entra mosca

E foi na escolha de bordos, quando passávamos entre as ilhas da Mãe e do Pai, que conseguimos assumir a liderança da regata. Parecia que aquele dia modorrento tinha nos inspirado. Pois ultrapassamos e começamos a abrir vantagem que, lá pelas tantas, era enorme. E tudo parecia tão bem que teve gente a bordo que cantou (desafinado): “weeeeee aaare the champions”. E tudo parecia tão bem que teve gente a bordo que olhou pra trás e fez pilhéria: “ta tudo bem aí atrás?” Não, não vou entregar qual (ou quais) dos três perdeu a chance de ficar calado. Basicamente, o que tenho a dizer é que se o retranqueiro Muricy estivesse a bordo ele diria: “Ôôôrrra meu, fica quieto aê. A bola pune, pô”.

Chegamos à boca da barra por volta das 16h30, quase sem vento e com uma baita maré contra. E a turma que tinha ficado pra trás foi se aproximando. E o mar nos empurrava de marcha à ré. E os caras chegavam perto. E nós ali, sem conseguir fazer nada. E os caras chegaram e a coisa embolou de novo. Picareta, Dona Zezé, Smooth e Catavento. E o Dona Zezé achou uma nesga de vento mais forte, já quase noite, e conseguiu entrar. E assumiu a liderança, lépido e fagueiro, justamente aquele que tinha largado em último. E os outros três ali, brigando com a maré e com o pouco vento, sem conseguir entrar na baía.

Pelas seis e meia, Rocas e Ravena passaram por nós, já com o motor ligado, desistindo da regata. Pelas sete, finalmente, uma brisa permitiu que levantássemos o balão e, como adolescentes em êxtase após perder a virgindade, rompemos a barra ao lado do Catavento. Pouco depois, abrimos alguma vantagem meio que assegurando a segunda posição, e descobrimos que o Smooth pediu reboque e desistiu, alguém passou mal a bordo.

Cruzamos a linha de chegada pelas nove da noite, a passo de cágado. E, ironia das ironias, voltamos para o clube a remo.

The end

Depois de um dia de pouco vento que soprou em todas as direções, muita chuva e um bom tanto de frio, voltamos pra casa com a lua brilhando no céu estrelado. Apesar desse encerramento com cara de the end feliz em filme americano, quem me conhece sabe que não faço o estilo Polyanna, brincando de jogo do contente. Terminamos em segundo, mas não consigo esquecer que lideramos com muita folga. Pombas, eu queria ganhar!!! Mas perder é parte do negócio, fazer o quê?

Mesmo assim, o dia foi excelente. Resumindo: certos dias de chuva, é melhor sair. Basta levar o casaco e o capuz.

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