A vida como ela ficou

Já escrevi e já republiquei textos que encontrei por aí, sobre essa merda (desculpem o palavrão nada politicamente correto) do politicamente correto. Fiz o mesmo, em menor escala sobre esse exagero que andam chamando de bullying (e acho mesmo uma maravilha o país que tem mais de um quarto de sua população identificada como analfabeto funcional adotar tão facilmente um termo em língua estrangeira).

Como gosto de bons textos, segue um que junta os dois temas.

Terra de “Nérson”

Para falar, hoje em dia, é preciso pensar muito. Não para que você “não diga bobagens”, pois todos nós dizemos e vamos continuar dizendo. Mas para que você não caia na armadilha do mundo moderno, onde pensar individualmente é crime.

Se faz parte de uma minoria ou de uma Ong qualquer, está com a razão. Seja lá a favor o motivo ou o ideal, é moderno pensar em grupo e, consequentemente, agir em bando.

Mundo politicamente correto, quase chato. Cheio de regras idiotas e gente que se acha culta por brigar por alguma coisa, mesmo que seja algo válido.

Antigamente brigavam por direitos, liberdade, etc. Hoje brigam por “tags nos tts do twitter”.

Eles gritam: “Vamos colocar nossa tag em primeiro!”. E colocam, achando que estão causando uma puta mudança em algum tema delicado da sociedade ou do país. Ajuda? Ajuda. Mas não é só isso.

E não, eu não estou falando de gays. Ok? Antes que o delírio supere a interpretação simples e clara.

Na internet, terra sem lei, onde cada nerd se torna um macho gigante e todo babaca ganha voz, é incontrolável. Você junta uma turma numa comunidade, num twitter ou num blog e pronto. Dali sai, num pensamento coletivo, um complô virtual.

“Não fale assim do meu time”. “Respeite meu estado”. “Seu homofobico”. “Quem é você pra falar isso?”, entre outros, são frases que acompanham cada opinião dada neste mundo moderno.

Quem pensa em grupo, na verdade, não pensa em nada. E quem age em bando é covarde.

Fico lendo a patrulha todo dia e preocupado com o que virá pela frente.  O sucesso alheio é cada vez mais irritante, as pessoas tem cada vez mais necessidade de denegrir o sucesso do vizinho.

Você surge, é fenômeno. Se estabelece, é competente. Mantém o topo, começa a ser questionado. E quando tudo parece normal, ganha rótulos de quem não aguenta mais te ver láem cima. Queo digam Tiago Leifert, Galvão Bueno, Jô Soares, Fausto Silva, entre tantos outros que de adorados passaram a perseguidos após a internet e suas gangues virtuais.

Quando você junta um bando de fracassados fatalmente o vitorioso será questionado. O maior fracasso que há é não saber reconhecer o mérito alheio.

Para alguns é terapeutico, pra mim se chama “inveja” ainda.

Seja lá qual for o modo ou o rótulo, fico imaginando o que seria de Nelson Rodrigues, gênio, se fosse jornalista hoje em dia.

Aqui, não basta não gostar e não acompanhar. É preciso agredir o que não gosto e desmerecer quem não aprecio.

Nélson, hoje, não teria um blog. Pois se tivesse estaria preso.

Ele não poderia, jamais, dizer que “Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.”, pois seria homofobico, no mínimo.

Se ousasse dizer que “Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!”, seria um incentivador do adultério. Um anti-família, um alvo fácil pra alguma Ong “Viva a fidelidade” por aí.

Nelson não diria num blog linkado a Globo.com ou a outro portal grande que “O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente“.

Que preconceito é esse, Nelson? Quer dizer então que o Flamenguista não é gente? Processo! Prendam-no!

Porque ele é preconceituoso? Não, porque eu sou ignorante e não sei interpretar textos. Eis a verdade.

Isso sem contar no bando de torcedores não cariocas que entupiriam a caixa de entrada do Nélson dizendo que ele era “do eixo”, ou “paga pau de carioca”, por citar quase sempre os times de lá.

É a era do “quem falhou?” e não do “Que golaço!”.

Imagino Marta Suplicy na tv ao lado de apresentadores justiceiros fazendo complô contra Nélson, quando ele diz que “Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais.“.

Hoje, “Quem não gosta de samba bom sujeito não é” seria crime. Pois é um preconceito contra quem não gosta de samba.

Inventaram a porra do bullying, uma espécie de proibição de “zoar” alguém na quarta série.

É o mundinho “nhe nhe nhe”. Se chamar um gordinho de gordinho na escolinha, chame o pai dele e diga que seu filho está praticando bullying.  Quando eu era garoto, se chamassem um pai na escola era porque alguém tinha “bullinado” alguma menina, e olhe lá.

Meninas que, coitadas, ficaram sem saída. Se dão um valor antigo a si mesmas, são quadradas e babacas. Se dão pra todo mundo, são vadias. Se for feia, é engraçada. Se for bonita e gostosa, saibam, aos olhos de quem inveja, imediatamente, são putas.

Garrincha, hoje, seria um patético malabarista desrespeitoso. Ele dribla, humilha o adversário. Onde já se viu?

E aquele jogador divertido que tirava sarro do rival? Hoje, fatalmente, apanharia no shopping de alguma gangue não virtual.

Nelson, Garrincha, Dorival Caymmi, entre tantos outros gênios, hoje, estariam proibidos.

Sofreriam bullying de  Ongs e gente politicamente correta. Seriam perseguidos pelos “sem nome” na internet, e fatalmente morreriam de fome, pois ninguém hoje em dia tem coragem de contratar um profissional que vá contra a maré do “nhe nhe nhe” ou que tenha opinião própria.

É preciso pensar no coletivo, diziam os antigos intelectuais.

É preciso pensar coletivo, diriam hoje.

Seu direito de pensar e falar acabou quando notei que é mais fácil ser vítima de alguma coisa do que fazer parte do jogo de forma igual.

Eu prefiro ser minoria. Eu gosto de andar em bando, mesmo que virtualmente.  Não suporto seu trabalho, simplesmente porque ele não me exalta ou elogia.  E não contente em ter o fantástico direito de usar um controle remoto ou não entrar no seu site, vou te ofender, te agredir e chamar meus amigos para fazer o mesmo.

Nélson Rodrigues morreu em 1980. Se vivo, hoje, se suicidaria.

Rica Perrone

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