Crônica de sexta-feira (7)

Modernidades

Imaginem um redator, lá nos anos de 1940, com o desafio de escrever, com até 688 caracteres, incluindo espaços, um texto detalhado sobre um dia na vida de um cidadão comum, um pequeno empresário no setor de armarinho (vendas diversas). Seria mais ou menos assim:

Ele levantou, acendeu o fogão, esquentou um pão e tomou café. Trocou de roupa, foi até a garagem, pegou o carro e foi para o trabalho, antes passando na loja de um cliente, para uma visita de rotina. Trânsito sem problemas, ouvindo o noticiário no rádio, chegou bem disposto ao trabalho, cumprimentou os colegas, visitou o estoque, conferiu os últimos números, as encomendas do dia etc. Durante o dia, conversas bem animadas com a sua equipe, almoço no restaurante em frente à sua loja e na parte da tarde, planejou as próximas compras, organizando os pedidos já recebidos. Após o serviço, uma cerveja com os amigos e foi cedo para casa, para jantar com a mulher e o casal de filhos.

Mas hoje em dia é diferente. Um redator com a mesma tarefa precisaria de um espaço maior, algo assim:

Ele levantou, acendeu o fogão automático com alguma pressão no botão, esquentou um pão, ligou a cafeteira elétrica, ligou a TV para ouvir (e não ver) o noticiário matinal, tomou o café, os comprimidos de vitamina e o energético. Trocou de roupa, arrumou a mochila com os artigos esportivos, foi até a garagem, acionou a distance and safe key e a porta do carro abriu, ligou o iphone no sistema de som Premium , com cd, DVD, mp3, entradas auxiliar e USB. Antes de apertar o engine power, checou, usando o computador de bordo, se estava tudo certo com a tração allfour, freios ABS, controle automático de tração, piloto automático, cambio trilogic, ar condicionado digital, fuel, brake light, oil temperature, e foi para o trabalho.

No primeiro sinal, ligou o GPS pré-programado para a loja de um cliente, para uma visita de rotina, que não pode ser efetivada, pois, de acordo com um telefonema atendido com o sistema  bluetooth , houve um imprevisto na agenda desse cliente. Trânsito com muitos problemas, ligou o DVD e o rádio e chegou ao trabalho 2h30m depois, bastante agitado. Como de costume, ligou o seu PC, verificou se o servidor e a rede estavam ok e emitiu, via intranet, o tradicional good morning, team , aos seus funcionários, quase todos ao alcance de sua vista.

Como todo bom profissional de sistema de logística integrada de recebimento, armazenamento, distribuição, faturamento, pós venda, marketing e franchising, acessou as planilhas dos estoques, conferiu os gráficos comparativos com a última semana e o mesmo período do ano anterior, os pedidos para os próximos dias, as condições dos preços e prazos para pagamentos etc. Durante o dia, enviou e recebeu dezenas de emails, participou de reuniões de  brainstorms, leituras rápidas dos newletters dos concorrentes, meeting minutes  bem animados com a sua equipe, brunch servido na própria mesa.

À tarde, planning sessions para as próximas semanas e muita atenção no noticiário econômico, as posições da BMF, Nasdak, preços das matérias primas, uma olhadela no weather  cannel  e, na parte da tarde, planejou as próximas compras, emitindo, via internet, solicitações de preços e prazos aos fabricantes e organizou os pedidos já recebidos via email no seu PC ou no Iphone.

Após o serviço, desculpou-se com os amigos do happy hour por sair cedo mas quando chegou em casa os filhos já estavam dormindo e a mulher ainda não tinha chegado do seu trabalho. Cumprimentou e pagou a baby sitter e foi dormir, nem reparando no rabo prá lá e prá cá do seu cachorro.

Pois, é. Isso tudo repetido no mínimo cinco dias por semana, às vezes algumas noites, em casa e também algumas manhãs de sábado no trabalho… Não há corpo e cabeça que aguentem, sem alguma reação.

Vocês podem ter certeza: se alguém perguntar “qual é o endereço da sua empresa?”, algumas pessoas, hoje, responderão: “www…”. Precisamos nos manter firmes e difundir o grupo daqueles que responderão “vamos combinar uma visita lá”.

Repetindo, muitas modernidades são ótimas – como era a vida sem celular?! – mas a saúde, a tranquilidade e a felicidade no trabalho e na sociedade ainda são fatores indispensáveis para vivermos bem um dia a dia, uma semana a semana, um mês a mês e – por que não? – um ano a ano, já que os 365 dias estão passando acima de qualquer velocidade antes prevista por nós.

Um bom fim de semana, com muitas atividades em família, comida caseira, pé na grama e no mato, boa música, conversa fiada com os amigos, bicicleta, cachorro, passarinho… Fique atento, a lua cheia está chegando!

Rodrigo Faria

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2 comentários em “Crônica de sexta-feira (7)

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