22 de maio de 2011, setor superior leste

Já disse várias vezes aqui que sou muito grato aos meus pais por terem me apresentado os livros e os discos. Me apaixonei por ambos e aprendi a ler e ouvir de tudo. Lembro que, em se tratando de rock, os vinis que faziam barulho na vitrola eram de Santana, Creedence e Janis Joplin. Não tenho, mesmo, lembrança dos quatro garotos de Liverpool. E não sei se os descobri por aí ou dentro de casa. Mas me apaixonei por eles da mesma maneira que boa parte da humanidade. Afinal, não foi por acaso que um deles chegou a dizer que a tal banda era mais popular que um tal de Jesus.

Entre as décadas de 80 e 90, apesar de festivais como o Rock n’ Rio e Holywood Rock, ainda era possível contar nos dedos o número de shows de grandes estrelas internacionais que aconteciam por aqui. Imaginar que um beatle nos visitaria, na época, era só mesmo um exercício de imaginação. Mas o cara veio.

21 e 22 de abril de 1990, no maior e mais belo estádio do mundo. Eu tinha 16 anos e o mundo era tão mais simples que não havia pré-vendas em internet, pistas VIP ou prime e outras bobagens do gênero. Ingresso era na bilheteria, a fila andava sem demora e confusões, as opções eram pista ou arquibancada. E lá fui eu, nas duas noites. “Não posso perder a chance, esse cara nunca mais volta aqui”. A primeira sob chuva torrencial, a segunda – com outras 184 mil pessoas – seca. E em êxtase com Let it be no piano negro, com as explosões que não imaginava em Live and let die, e com Fool on the Hill em outro piano – este com uma pintura psicodélica e girando em uma torre muito acima do palco ao som do refrão round, round, round

Pois não é que queimei a língua e o sujeito voltou, em 93? Mas não passou pelo Rio. Apenas São Paulo e Curitiba, pelo que lembro. E lá fomos nós, uma boa turma da faculdade, pra capital do Paraná. O show foi na Pedreira Paulo Leminski. Além do cara e da sua música absurdamente sensacional (quem há de negar?), um visual maravilhoso. Na cabeça, só uma certeza: “não posso perder, nunca mais ele volta ao Brasil”.

Sabe aquele papo velho, nunca diga nunca? Pois tenho a impressão que o tal de Paul resolveu me sacanear. Veio de novo, no ano passado. Mas não passou pelo Rio outra vez. No conversê de viúvas, a certeza de que – com o Maracanã em obras – não tínhamos um palco grande o suficiente pra ele. Mas dessa vez, não deu pra ir. Na cabeça, com o sujeito aos 70 de idade, uma certeza: “perdi a chance, dessa vez foi a última e ele não volta mais”.

A boa notícia: errei de novo. 22 de maio, 21 anos e um mês depois daquela primeira noite no Maracanã, ele estará no Engenhão. E lá vamos nós. Se é uma pena que em nenhuma das vezes tive o pai ou a mãe que me ensinaram a gostar de música como companhia, dessa estarei com minha irmã. E quem sabe conseguiremos viver e sentir pelo menos um pouquinho do que o sujeito viveu e contou no texto abaixo.

Quando os quatro garotos se juntaram em Liverpool para criar uma banda, tinham planos ambiciosos, e deles fazia parte um grande show num estádio que ainda seria construído num país distante, para um cara que ainda não tinha nascido e que teria dois filhos, que quando pequenos só iriam dormir com esse cara cantando umas músicas que ainda não tinham sido compostas, muito menos cantadas, mas as músicas ficariam gravadas nas cabecinhas dos meninos de modo que quando eles fossem um pouco maiores, no dia do tal show, saberiam as letras de cor, não todas, mas algumas, aquelas com refrões menos complicados que pudessem ser entendidos em qualquer idioma, como lá-lá-lá e ob-la-di, e algumas outras com palavras curtas como let, it e be, por exemplo, e outras mais que aprenderiam nos primeiros anos de escola, como black e bird, portanto havia muito trabalho pela frente, era preciso formar a banda, compor as músicas, ensaiar, tocar, gravar, e ainda esperar o estádio ser construído, o cara nascer, casar, ter os filhos, e era preciso ainda fazer sucesso, para que as músicas fossem conhecidas e chegassem ao país distante, e que o cara gostasse delas, comprasse os discos, decorasse as letras, e os quatro garotos não sabiam direito quanto tempo isso iria levar, então só restava torcer para que os planos dessem certo até que chegasse o momento exato em que o estádio estivesse pronto para o show, e que tivesse acontecido tudo aquilo que se esperava com o cara que ainda iria nascer, ou seja, que nascesse, ouvisse, comprasse, decorasse, era preciso dar tudo certo lá no país distante e em Liverpool também, e até que tudo estava correndo bem, talvez bem até demais, porque a banda fez muito sucesso, muito mesmo, e depois que as músicas com refrões fáceis e palavras curtas já tinham sido compostas e gravadas, vieram outras, bem mais difíceis e igualmente belas, e o sucesso era tão grande que um dia os quatro garotos ficaram grandes demais para uma banda só e se separaram, mas a ideia original do show no estádio do país distante para aquele cara e seus dois filhos foi mantida, disso não há dúvidas, como saberemos adiante, era um ponto de honra para os quatro, apenas uma questão de tempo para que tudo acontecesse conforme planejado, até que um deles morreu, isso não estava nos planos, e o que fazer?, seguir em frente, há um projeto que deve ser concluído, leve o tempo que levar, seja como for, e os anos foram passando, mas felizmente as canções simples não foram esquecidas, essa parte estava garantida, ficaram gravadas no vinil e nessas pequenas fitas magnéticas e nesses discos metalizados, então o segundo garoto morreu, um despropósito, o que faremos?, seguimos, há uma meta, um destino, um objetivo, não devemos nos desviar, até que chegou o dia, porque o estádio tinha ficado pronto um bom tempo atrás, e o cara nasceu, e seus filhos também, e eles já sabiam algumas letras de cor porque o cara cantava na hora de dormir e colocava para tocar no carro, não havia mais motivo para adiar nada, e dos quatro apenas um, no fim das contas, pôde cruzar o oceano até aquele país distante para o show planejado tanto tempo atrás, o estádio estava lá, o cara e seus dois filhos também, se tivessem combinado não teria dado tão certo, marcaram dia e hora, e no dia e na hora marcados estavam os quatro lá, um dos garotos de Liverpool mais o cara e seus dois moleques, podiam começar, ok, faltam os outros três, mas não se pode querer tudo, certos planos precisam ser adaptados às circunstâncias, então que comece o show, magical mistery tour, é deles?, pergunta o mais novo, é, responde o cara com algumas lágrimas nos olhos, e pelo que consta foram só essas, logo no início, porque afinal o show estava combinado desde muito tempo antes, antes mesmo de ele e os filhos nascerem, e sempre que esses momentos muito esperados chegam, alguém se emociona, quem diria que eu ia ver um deles ao vivo, diz o mais velho, é mesmo, responde o cara, quem diria, all my loving, é deles?, o mais novo, é, o cara, é do primeiro disco, e as músicas iam sendo cantadas uma a uma, é deles?, o mais novo, não, essa não, é só dele, two of us, my love, blackbird, eleanor rigby, here today, agora vou fazer uma homenagem, anuncia o garoto que sobrou, e something, o baixo, o violão, a guitarra, tudo meio desgastado dos tempos em que os planos para aquele show foram traçados, e então, no piano negro, no alto do palco que estava um pouco longe, mas os telões eram do tamanho do prédio, garantiu o cara aos filhos, tranqüilizando-os, vai dar para ver tudo, o som é bem alto, vocês vão gostar, e no piano negro as palavras curtas, let, it e be, e o mais novo cantou junto, o mais velho também, então live and let die, explosões e luzes fortes, esse cara é foda, pensou o cara, ele sabe que crianças gostam dessas coisas, planejou tudo direitinho, e aí o cara se deu conta de que não estava chorando como pensava que ia chorar, que nada, estava era com um puta sorriso no rosto, aquele era a day in the life muito especial, muito mesmo, valeu a pena esperar tanto tempo, ele está feliz, disse o mais velho sobre o garoto de Liverpool, claro que está, respondeu o cara, afinal foram muitos anos esperando para fazer esse show para a gente, hey, jude, sussurrou, e os dois meninos cantaram com os braços para o alto, uau, pensou o cara, como é que eles sabem essa música inteirinha desse jeito?, e aplaudiam e gritavam com seus pulmõezinhos a pleno, e o tempo foi passando, estava ficando tarde, e in the end the love you take is equal to the love you make, o que quer dizer isso?, pergunta o mais novo, ah, é sobre amor, essas coisas, responde o cara, e os três estão sorrindo, acabou, o garoto de Liverpool se despede, acena para os três lá longe com a sensação da missão cumprida, finalmente fiz o show, os três agradecem, estão com fome, vão comer um sanduíche, os moleques estão ainda mais felizes porque no dia seguinte vão faltar na escola, acabou muito tarde, acho que combinaram com o garoto de Liverpool, tenho certeza, vi que ele deu uma piscadinha lá de longe, e é uma pena que os outros três não puderam vir, ficariam muito contentes com os aplausos e com a alegria do cara e de seus dois filhos, talvez até se emocionassem, é que demorou um pouco mais do que devia esse show, a gente não consegue adivinhar o futuro, não é mesmo?, mas tudo bem, o importante é que o show aconteceu, já podemos ir.

Flavio Gomes

De certa forma, é muito frustrante não poder levar Helena conosco. Afinal, com um ano e meio, sei que gostaria da bagunça e da música, mas dificilmente agüentaria a programação longa e todo o desconforto que empreitada promete. E não acredito que o cara volte ao Rio outra vez. Mas vai que eu erro de novo e ele resolve comemorar os 75 ou 80 anos de idade tocando baixo e piano por aqui.

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