Violência característica

Não gostaria de usar a tragédia de hoje, em Realengo, como pretexto para qualquer coisa. Mas é impressionante como, às vezes, é inevitável.

Entre todas as cenas do pós-tiroteio, entrevistas coletivas de nosso governador e prefeito nitidamente compungidos, o ministro da educação idem e nossa presidenta chegou a chorar em um evento em que devia fazer um discurso. Na verdade, de muito bom tom, todo o cerimonial foi cancelado e substituído por um pronunciamento breve de nossa mandatária, encerrado com um minuto de silêncio. Parabéns.

Mas sabe aquela história de que “se não tem o que falar o melhor é ficar calado”? Dilma bobeou e disse o crime de hoje “não é característica do país”. Certamente, se referiu às várias edições de tiroteios escolares que aconteceram nos EUA nas últimas décadas. E ela tem razão. Porque a violência característica do Brasil pode ser traduzida por alguns números e pela falta de atuação de todas as instâncias de governo para dar fim ao problema.

Apenas como exemplo: 46 mil pessoas são vítimas de homicídio todo ano do Brasil, média de 126 por dia. Em um triste ranking mundial, estamos na sexta posição entre 91 países, com 25 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Que tal? Mais: nos últimos cinco anos, temos uma média de 160 mortes diárias no trânsito. Números muito, muito piores do que qualquer guerra.

Então, presidenta, governadores, prefeitos, ministros e secretários de segurança, o que vamos fazer para mudar a nossa característica?

•••

Sobre o que aconteceu, propriamente dito, tenho a impressão de que o sujeito – louco, sem dúvidas – decidiu se matar e resolveu chamar atenção. É impossível não ligar o caso, não vê-lo como uma imitação das trocentas chacinas escolares estadunidenses que sempre viram notícia e chocam o mundo. Pois ele conseguiu, o Brasil está parado e a notícia correu o mundo.

Mesmo o fato de trechos divulgados da tal carta de despedida do assassino fazer alusões à pureza e à castidade, dando um certo ar religioso ao fato, não me convence. E alguém lembrará que entre mortos e feridos, são 20 meninas e quatro meninos. Uma disfunção, um trauma, uma questão religiosa ou só uma cena construída? Sei lá, não sou ninguém, não fiz qualquer estudo sobre o tema, mas acredito na última hipótese.

Se, por acaso, estiver certo, provavelmente não teremos mais casos como o de hoje. Pelo menos, não em breve. A não ser que algum outro maluco resolva se inspirar pela cobertura massacrante que enfrentaremos nos próximos dias em todos os meios de comunicação.

Anúncios

Um comentário em “Violência característica

  1. Lembra da deputada americana que foi alvejada por um lunático comuno-nazista por “culpa” da Sarah Palin?
    .
    Hoje, numa roda de conversa, um cretino já estava vindo com aquele papo de “isso é culpa da/ ele é uma vítima da – sociedade”. Se esse discurso imbecil colar, como parece ser a tendência atual, os casos começarão a se repetir. Nada melhor para alguém replicar uma ação do que não se sentir nem causa, nem responsável por conseqüências.
    .
    Dilma só disse o que disse porque ela não consegue ser mais do que ela mesma… e ela é o nono ano de um mesmo governo. Fosse outra a situação, a culpa já seria da “elite cruel”, “da direita” etc – coisas tão certas quanto a tal culpa da sociedade. Talvez o Leonardo Boff até escreva uma boçalidade qualquer nesse sentido.
    .
    Voltando à pergunta inicial, o atentado deve ser “culpa” do Bolsonaro…

    Curtir

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s