Oba-Obama (3)

Se você comparar este blog com o resto da web brasileira que dedicou uma ou mais linhas à visita do presidente americano ao Brasil, vai chegar à conclusão óbvia que estou muito, muito atrasado. Sinceramente, não vejo nenhum problema nisso, nunca pretendi ser um site de notícias. E prefiro pensar com calma e escrever minhas besteiras com uma dose razoável de segurança em minhas opiniões do que bostejar algo impulsivo e improvisado apenas para não perder o timing.

Foi possível observar muitas coisas interessantes neste final de semana. A primeira delas é entender o que o sujeito veio fazer por aqui: turismo e negócios. Não por acaso, trouxe toda a sua família. Afinal, um homem de negócios simpático é muito mais eficiente do que um simples homem de negócios. Em Brasília, por exemplo, a agenda cruzada do presidente e de sua família nos deixou perceber que Michelle trocou de roupas seis (!!!) vezes.

A programação completa da viagem por vezes poderia parecer tão estranha quanto assistir show de capoeira na Cidade de Deus ou visitar o Cristo Redentor à noite com o céu nublado.

No que diz respeito aos negócios, além de algumas assinaturas de acordos bilaterais – prática mais que comum nessas visitas diplomáticas – pouca coisa aconteceu. É bom saber que não houve subserviência na recepção oficial, de presidente para presidente. E se Obama não deu ao Brasil o sim para a aspiração à cadeira no conselho de segurança da ONU (uma espécie de fixação de Lula e, parece, de Dilma), o Brasil não assinou contratos de pré-venda do óleo que será produzido no pré-sal, que o moço queria a preço de ocasião. Entre outros quase desacordos.

Quanto aos que reclamaram e acharam exagerados os rapapés, é preciso lembrar que não se pode tratar parceiros comerciais com possibilidades diferentes de maneira igual, mas de acordo com sua capacidade de gerar lucro e quaisquer outras vantagens. E isso é capitalismo.

O grande incômodo me foi provocado pela aura de pop star que nossa mídia (vênus platinada à frente) deu ao sujeito. E ele (e seus assessores), que não tem nada de bobo, se utilizou disso com maestria. E se olharmos apenas para alguns pontos de seu discurso ao povo brasileiro, percebemos isso facilmente.

Logo ao chegar ao palco, foi aplaudido de pé durante um bom tempo e foi ele quem pediu para que todos se sentassem. Depois disso, em português com sotaque macarrônico (mais do que natural), “olá Rio” e quetais, seguidos de aplausos. Madonna, McCartney e Jagger não fariam melhor.

O discurso, propriamente falando, é uma peça de comunicação de extrema competência. O problema é que – como resolveram nos vender o rapaz como se fosse um astro do rock ou um ator de Holywood – preferiram fazer balbúrdia ao invés de decifrar o palavrório.

Vi, por exemplo, Patrícia Poeta e Zeca Camargo quase soltando urras no Fantástico anunciando que Obama nos trata como iguais. E ninguém apareceu pra dizer que isso é balela, apenas peça de retórica. E não porque é o Brasil. Mas porque eles não tratam ninguém como iguais. Assumem o papel de maior potência econômica e militar e atropelam, inclusive, seus parceiros e aliados mais tradicionais, como a Inglaterra. Just business.

Sobre o trecho em que Obama disse que o Brasil deixou de ser o país do futuro porque o futuro chegou, ninguém lembrou que ele apenas se apropriou do discurso oficial do nosso governo para construir uma frase de efeito. Sobre o trecho em que o visitante disse que o Brasil é um importante ator global, ninguém lembrou que – em vários aspectos – somos motivo de chacota ou desconsideração, mundo afora (EUA inclusive), pelas estranhas e atabalhoadas relações com figuras como Ahmadinejad, Chávez e Kadafi, o mesmo que o próprio Obama ordenou atacar enquanto passeia pelo mundo.

Vejam, é – sem dúvida – louvável o esforço de Barack Obama em tentar diminuir o anti-americanismo (tem hífen?) que cresceu exponencialmente durante a era Bush. E essas aparições fazem efeito desde a época em que ainda estava em campanha. Mas isso faria parte do trabalho de qualquer um que assumisse a Casa Branca. Cabe a nós decifrar o que ele diz e dar às coisas os devidos pesos e medidas que merecem. Só isso.

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Um comentário em “Oba-Obama (3)

  1. O efeito prático da visita do Obama será sentido quando e se cairem por terra algumas das barreiras alfandegárias que os caras ao norte do Equador impõe sobre produtos brasileiros. Quando e se o Brasil tiver a tal cadeira permanente no conselho de segurança da ONU.
    Do lado deles parece que a visita já não havia dado frutos enquanto a terra brasilis ainda tremia sob as turbinas do Air force 1 e o governo divulgou aquela pérola do “muralismo” pseudo bom-moço inocente sobre os ataques à Libia.

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