Pretextos

Porque o texto é excelente. Porque só chorar não adianta. Porque é bom pensar a respeito. E porque tem muito estelionatário por aí. Eleitos, o que é pior.

O especialista

Para dona Cilinha, morar na roça tinha suas desvantagens. Uma delas era a de ter prolongada a viuvez. Era pensar nisso e lembrar a bobagem que falara ao padre Arhur, ao ouvi-lo queixar-se certa vez de calor insuportável. Desconhecendo o significado da palavra, dissera-lhe que ali nos Cocos era assim mesmo: muito quente no climatério.

Agora, vantagem mesmo de morar ali era ter que buscar em Santana a cura que não se conseguia pelos remédios caseiros. E isto dona Cilinha ia fazer na companhia de Rosária, a neta de 13 anos: dariam um pulo até a cidade, onde ela resolveria problema de dor nas pernas e fraqueza de visão.

– Vou no calista – disse à filha. Tô enxergando tudo embaralhado.

– Né o calista não, mãe. É o oculista.

– Tá, ooculista… Vou no ooculista e depois no médico das pernas.

– Oculista, mãe…

Era ainda cedo quando a velha e a neta desembarcaram na rodoviária de Santana. Mal haviam descido do ônibus, e um sujeito bem apessoado aproximou-se delas. Cumprimentou-as e logo quis saber o motivo de dona Cilinha estar mancando. Era unha encravada?

– Né não, é dor nas pernas. O senhor é médico?

– Sou só um pesquisador… – e o homem fez uma reverência leve com a cabeça.

Se havia uma coisa que dona Cilinha gostava era de gente humilde, sem nariz em pé. Foi com a cara do sujeito: educado, humilde, pesquisador…

– A senhora, por favor, fique com o meu cartão. Se puder faça visita ao meu laboratório. Posso ter o remédio pra sua cura.

Dona Cilinha – que ia enfrentar fila no posto de saúde – ficou com a impressão de que tirara a sorte grande.

– Uai, seu… seu…

– Prudêncio, dona…

– Ercília, mas todo mundo me chama de Cilinha.

– Prudêncio Costa, dona Cilinha. Estarei no laboratório à tarde, será um prazer recebê-la.

O pesquisador despediu-se da cliente e fez um afago no queixo da neta.

– Bonitão ele, né Rosária?

– Que é isso, vó? Ele é velho e fica passando a mão no queixo da gente… Gostei não.

Fizeram o que tinham que fazer. No consultório do oftalmologista, dona Cilinha pegou receita para óculos novos. E partiu em direção ao laboratório do especialista em dor nas pernas.

Por uma dessas extraordinárias coincidências, encontrou o homem à saída do prédio do oculista. Esquecera-se de que o informara sobre o compromisso, pedindo-lhe orientação de como chegar ao endereço do médico.

Puxando as mulheres para um canto, o especialista tirou do bolso um vidrinho dizendo que aquilo era a solução para acabar com a dor nas pernas. Só pequena quantidade, que ele tinha dose maior no laboratório. Dona Cilinha passasse lá mais tarde para pegar o restante da dose.

– Esse aqui é só cem…. – o homem disse, os olhos brilhando. A velha ensaiou comentário, mas foi interrompida.

– Gostei da senhora… Faço o seguinte: a senhora me paga cem agora e passa lá no laboratório, que eu ofereço como cortesia o resto da receita..

Dinheiro na mão, o especialista agradeceu e sumiu.

Avó e neta comeram algo em botequim ali perto. Terminada a refeição, Rosária despejou num copo com água o conteúdo do vidrinho – exatamente como recomendara o doutor Prudêncio. A velha então virou na boca tudo de uma vez, e ainda não dera meia dúzia de passos quando percebeu que a dor nas pernas desaparecera.

– Gente, que remédio!… Vamos lá no doutor Prudêncio agora, pegar o outro vidro.

O endereço ficava no final de uma galeria escura. À entrada havia um carro de polícia e muita gente amontoada na beira da calçada. Dona Cilinha e Rosária chegaram ao zelador do prédio.

– Doutor Prudêncio… Ele está? – perguntou a velha. O zelador fez cara de riso. Disse que o homem encontrava-se ‘em visita à delegacia’.

– Delegado passou aqui e levou ele, dona. O homem é um estelionatário.

Dona Cilinha sorriu satisfeita. Contou que já ia tomar o ônibus de volta pros Cocos, mas voltaria a Santana daí a uns dias para apanhar o resto do medicamento. O zelador fizesse a gentileza de transmitir esse recado ao doutor Prudêncio.

Já em casa, disse à filha que recomendaria o pesquisador a quem tivesse problema de dor nas pernas.

– Aquilo é que é estelionatário de mãos cheias, viu?

Eduardo Lara Resende (Pretextos-ELR)

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