Todo ano ela faz tudo sempre igual (2)

Ontem fiquei assustado com alguns comentários que vi no Twitter e no Facebook, misturando a festa do Flamengo com Ronaldinho e a tragédia das chuvas. Fiquei assustado porque foram comentários feitos por pessoas que conheço, que tem boa formação e acesso a muita informação o tempo todo. A frase “é um absurdo essa gente toda fazendo festa pro Ronaldinho enquanto tanta gente morre em volta” foi uma das mais leves que encontrei sobre o tema. Nem tentei contar os gritos raivosos contra o clube, contra os torcedores e contra o dentuço.

Tudo isso porque, infelizmente, as pessoas continuam misturando alhos com bugalhos.

Porque é preciso entender que com terremotos no Haiti, tsunamis na Ásia, nevascas na Europa, atentados terroristas em Nova Iorque ou chuvas de verão no nosso Brasil varonil, a Volkswagen continuará fabricando carros, a Petrobras continuará explorando petróleo, a Airbus continuará vendendo aviões, a Coca-Cola seguirá brigando com a Pepsi e o Flamengo continuará jogando bola e fazendo festa para seus craques.

Sinto muito, é o óbvio ululante, mas a vida não para. O máximo que o Flamengo pode fazer em relação à nova tragédia das chuvas é marcar um jogo amistoso em que suas estrelas entrem em campo por pelo menos 15 minutos e reverter a renda da partida para a população atingida. Outra ação seria reunir patrocinadores e parceiros e fazer uma grande campanha pública. Por exemplo, a Batavo doaria alimentos; a Olympikus, roupa; BMG, grana; Bioleve, água; Volkswagen, veículos para ajudar no transporte e resgate de pessoas e seus bens.

Agora, não vi na turma indignada com a festa rubro-negra, ninguém gritar indignada contra os sujeitos que não cuidam das cidades, que deixam as encostas serem ocupadas à galega, que não cuidam para que as redes pluviais estejam limpas para escoar a água corretamente, contra a própria população de qualquer classe social que decide correr riscos construindo onde não deve, contra a falta de educação do povo que joga lixo em qualquer lugar etc etc etc.

São 9h de quinta-feira e, até agora, o número de mortos apenas na região serrana do Rio é de 335. E essa é a trocentésima tragédia provocada pela chuva por aqui. E outras virão. Porque todo ano tem chuva e nós nunca estamos preparados para lidar com ela. Porque “nas últimas duas horas choveu o equivalente a três décadas” ou algo assim. E isso é surreal. E não vejo ninguém tendo grandes reações sobre isso.

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Um comentário em “Todo ano ela faz tudo sempre igual (2)

  1. Não pode. Remover favela, por exemplo (eu me recuso a chamar de comunidade) não cobina com a agenda política aí já de umas 3 décadas. Cito novamente o filósofo O.C.: “As pessoas odeiam as consequências sem deixar de amar as causas.” – e completo – Então, que se fodam.

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