Pasteurização

Sete, sete e muito pouco da manhã, e lá estava eu caminhando com Adriça e Joana pelas pequenas transversais arborizadas da Tijuca. E de longe já percebi que o negócio era sério. De parar o trânsito, do balacobabo, supimpa!

Se esse encontro tivesse acontecido ontem, alguém poderia dizer que era um anjo enviado à terra pelos deuses do samba para abençoar o dia santo. Que mulata!

Mas havia algo errado naquela cena. E, na verdade, não foi difícil descobrir o quê.

Já faz muito tempo que ando incomodado com uma prática que foi adotada há muitos e muitos anos: o cabelo liso na marra. Não sei quem foi o estúpido que convenceu as moças (um tanto tontas também, afinal) de todos matizes e tipos de cachos que seu cabelo natural não era bom. E é um tal de puxa daqui, estica dali, que deixa qualquer uma muito parecida com a que está ao seu lado, com pequenas variações de peso e volume que podem indicar a qualidade (e o preço, claro) do método utilizado. Do Alisabel à novíssima-super-in escova London, passando por um bom período banhado a formol.

E lá vão elas, desfiguradas, pasteurizadas, abdicantes de estilos e identidades (independente de pintarem ou não suas unhas de azul ou algo que o valha).

Trabalhei com uma moça que tinha um cabelo lindo e cheio de cachos. Mas toda vez que tinha um compromisso importante em sua agenda, um jantar, um casamento, lá vinha ela toda esticada, sub-urbanamente alisada. E olha que todo mundo falava pra ela não fazer isso. A não ser, claro, as amigas sub-urbanamente pasteurizadas como ela.

Não, não consigo entender essa necessidade de ser apenas mais do mesmo, esse perder a chance de ser unicamente linda.

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6 comentários em “Pasteurização

  1. Adorei! Também fico perplexa ante mulheres lindas que ficam bem menos lindas com um arremedo de cabelo alisado… Cacho is beautiful!

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  2. Faltou a minha foto… E, claro, concordo em gênero, número e grau!
    O problema é que determinaram que existe um modelo e ai de quem não o siga! Não fazer parte da tchurma pode até ser recompensador, mas dá trabalho e exige personalidade, outra coisa que disseram que a gente não precisa ter…

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  3. Mas moça nenhuma alisada é mais bizarra do que um homem de chapinha. Cruzes. Hmmm, homem de chapinha é homem?
    Mas há algumas coisas bem toscas que entram e saem de moda, que, mesmo não sendo alisamento, também são o que há: cabelo miojinho (a moça ainda tinge de louro e fica igual ao Biro-Biro). É Fashion! Fashion olho e sai correndo…
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    Lendo o texto e os comentários, acho que tudo… depende: a Beyonce, que tem um cabelo cacheadão (e lindo, muito bem cuidado), volta e meia está com ele alisado (lindo, muito bem cuidado também), mas o principal atrativo da moça não são os cabelos, então para mim não faz diferença mesmo. Já a nova presidente… seja com cachos, lisos, com laquê, alto, curtinho, com ou sem cabelo, não há nada que dê jeito ali. É o conjunto da obra, diriam alguns.
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    Essa mania que inventaram nessas bandas de classificar os cabelos – cabelo bom (liso) e cabelo ruim (caracóis) – é que é terrível. E como ninguém quer ficar associado a uma coisa “ruim”, já viu…
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    Ah, e é sempre bom visitar este espaço, pois não é que ficamos sabendo que as “lisas” também têm direito a sofrer de baixa auto-estima no espelho? Queridas e infortunadas “caracolizadas, cachinhentas e/ou pixaínicas”, parem de sofrer sentindo inveja e ressentimento (o grande mal deste país, seja rico(a) ou seja pobre). Para sua glória e deleite, existe cabelo liso “ruim”, áspero, arrepiado e sem brilho. Palavra da Ana Carolina, a Mona “lisa”, que volta e meia precisa “melhorar a textura e dar brilho”.

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  4. E olha que o cabelo é só a ponta do iceberg. A maior parte das mulheres de hoje é “postiça”, fruto mais de suas próprias neuroses do que da alegada pressão social.

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  5. Alisar cachos deveria configurar crime hediondo. Não é possível q não exista tratamento para deixar o cabelo cacheado, com brilho, com textura e cheio de estilo. Ah! Se elas soubessem…..

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  6. A amiga “sub-urbanamente pasteurizada” concorda em parte. Nem todas ficam bem alisadas, é verdade, mas algumas ficam sim mais bonitas, mesmo que em certas ocasiões, como a moça com quem você trabalhava (na minha humilde opinião).

    Ah, e um outro detalhe: a maioria das tais escovas tem como objetivo melhorar a textura do cabelo, dar brilho etc; não alisar. A moça que vos fala, adepta de algumas delas, já tem o cabelo liso. As que andam permanentemente lisas por aí são adeptas de algum outro tratamento mais pesado – algum “alisabel” avançado.

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