Pogreço

Infelizmente, tenho menos lembranças de Ponte Alta do que gostaria. Mas nenhuma delas é ruim, penso que isso é o mais importante. Várias das primeiras experiências mais importantes da minha vida se deram por aqueles lados.

Lembro de algumas viagens, como quando enfrentamos os últimos quatro quilômetros de estrada, no velho e lindo fusquinha ocre-marajó, estrada de chão em tempos de chuva. Enquanto víamos um ônibus atolado, o carro rebolava no barro mas não parava. Lembro que foi voltando de lá que, num raro momento em que o rádio funcionava na estrada, ouvimos a notícia da morte da Elis.

Lembro das bolinhas de gude, de aprender a fazer e soltar papagaio com meu primo, de caçar passarinho de arapuca no meio do mato, de subir e descer barrancos, de chupar cana e jaboticaba, de brincar no barro deixado pela chuva, do pastel do Rubão ali em frente à rodoviária de Carangola, de jogar bola no campo, de ver matar porco e boi, de levar comida na lavoura para meu avô, de andar em carro de boi, de roubar galinha para assar na fogueira e tomar vinho barato de garrafão, das exposições, de tomar banho na caixa d’água e na piscina de Fervedouro, Seu Zé se cobrindo com lençol para brincar de fantasma com os netos, Vó Nininha na cozinha fazendo de tudo pra agradar todo mundo, das meninas dali e dos arredores, de dirigir antes da hora, dos natais com a casa tão cheia que os meninos dormiam quase amontoados pelo chão da sala, do pernil da tia Véia que eu e Junior beliscávamos quando chegávamos de madrugada.

Zé Sirelli já foi embora há muito tempo, eu tinha 14, 15 anos. E até hoje tenho a certeza de tê-lo aproveitado pouco, menos do que poderia. Ainda lembro de vê-lo em frente à TV, dando boa noite ao Cid Moreira (ai da criança que fizesse barulho na hora do ‘repórter’) e fazendo graça sobre as bundas das chacretes. Dona Nilda ainda está lá, com seu colo pronto para um cafuné, com lágrimas nos olhos ao conhecer Helena e na hora de se despedir. Como fez desde sempre comigo, deu um beijo em Helena, passou a mão em seu rosto e “Deus lhe abençoe, minha filha”. Conheço poucas coisas mais ternas do que isso.

Semana passada estivemos por lá, levamos Helena para conhecer a bisa. Não sei que lembranças ficarão estampadas em sua memória, e não sei quando e se poderemos voltar. Mas pude ver seu sorriso de encantamento passando a mão na cabeça de uma vaca, vendo porco e galinhas de tão perto. Vi seu apetite crescer quando comeu arroz e feijão fresquinho misturados com couve colhida na horta atrás da casa. Vi sua careta ao provar uma jaboticaba. Vi seu contentamento em ter tanto espaço para andar soltinha da silva.

Já faz muitos anos que os últimos quatro quilômetros da estrada foram asfaltados e que as ruas de terra batida foram calçadas com paralelepípedos. O terreiro em que jogava bolinha de gude e brincava no barro, hoje é um pátio concretado. Não vi papagaios no céu. E a TV que não tinha muitos atrativos está ligada em uma antena paranóica que oferece vários canais.

E enquanto andava sozinho pelo pátio, conversando e pedindo a benção ao Seu Zé, ficava pensando se esse tal de progresso, que passou por lá, progrediu mesmo.

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4 comentários em “Pogreço

  1. Não sei se é vc que escreve bem, ou se eu que sou manteiga mesmo, mas quase chorei nos últimos parágrafos… 😛 Helena deve estar muito gostosa…

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